Os três, estudantes do Curso de Jornalismo da UNASP (Centro Universitário Adventista de S. Paulo), em Florianópolis, Santa Catarina, decidiram, tornar o seu trabalho de conclusão de curso, um mergulho na história de um dos mais pavorosas matanças do século XX, ocorrida há apenas 15 anos, em 1.994.
Divididos pelo ódio, plantado e alimentado pelos colonizadores europeus, as etnias hutu e tutsi, disputavam o poder, no país de apenas 7 milhões de habitantes, situado no coração da África Central. A disputa degenerou na matança generalizada de mais de um milhão de pessoas da etnia tutsi, mortos, na sua maioria, a golpes de facão, em menos de 100 dias, pelos hutus, a etnia majoritária.
O massacre voltou a ser lembrado pela mídia internacional, no início deste mês, com a prisão de Idelphonse Nizeyimana, um dos principais acusados do genocídio, na capital de Uganda, Campala, e entregue ao Tribunal Internacional de Arusha, na Tanzânia, para ser julgado por crimes contra a humanidade, informou a polícia.
Nizeyimana era o chefe do serviço secreto do regime do presidente Juvenile Habyarimana, cujo assassinato deflagrou o massacre de aproximadamente 800 mil tutsis e hutus moderados, segundo números da ONU. Além de ser acusado de organizar o massacre de milhares de pessoas, Nizeyimana é apontado como o responsável pelo assassinato da antiga rainha de Ruanda, Rosalie Gichanda.
No dia 07 de agosto de 2.007, depois de mais de 20 horas em aeroportos de três países diferentes – Brasil, África do Sul e Ruanda -, Larissa, que vendeu o único carro que tinha para patrocinar o projeto, Paulo Mondego e Joelmir, chegaram a Kigali. O resultado – o vídeodocumentário de 50 minutos – você poderá conferir em novembro na TV Afropress.
As pessoas interessadas em ter uma cópia do documentário devem entrar em contato com a própria jornalista Larissa Jansson por meio do telefone (47) 9965 6627 ou pelo e-mail [email protected]; ou ainda fazer contato com a Redação de Afropress.
Leia a entrevista de Paulo Mondego e Larissa Jansson..
Afropress – Como quando surgiu a idéia da viagem à Ruanda e o interesse do grupo sobre o tema do genocídio naquele país? Como foi a viagem, alguém apoiou com patrocínio ou viajaram por conta própria?
Paulo Mondego – Com a iminência da data de apresentação do trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, eu (Paulo Mondego), Larissa Jansson e Joelmir Melo nos reunimos e chegamos a conclusão de que nosso trabalho teria que ser algo diferente de tudo o que já haviamos assistido do gênero. Então listamos uma série de temas que poderiam trazer essa possibilidade, e Ruanda entrou em virtude do conhecimento prévio da história daquele país.
Tentamos um projeto para abordar a guerra civil em Angola, mas fracassou devido a falta de patrocínio e conhecimento da história. Depois de eliminarmos as possibilidades de tema sobrou Ruanda como um grande desafio, porque apesar de conhecermos a história por meio de amigos que moravam lá, o quesito dinheiro ainda era um problema.
Foi então que faltando alguns meses para entregar o anteprojeto à banca avaliadora do trabalho, a Larissa decidiu em acordo com sua família vender seu carro e patrocinar o projeto inteiro. Saímos do Brasil as 21h30 no dia 31 de julho de 2007 e retornamos no dia 16 de agosto do mesmo ano cheio de ideias e novas impressões da vida.
Afropress – Qual a primeira impressão na chegada a Capital Kigali?
Paulo Mondego – Particularmente me assustei antes mesmo de desembarcar no aeroporto. Enquanto sobrevoávamos Kigali a noite percebi que havia apenas alguns focos de luzes na cidade, então tive a impressão de estar chegando numa aldeia.
Quando andei pelas ruas percebi o quanto eles são diferentes, as pessoas, os costumes, o modo de interagir. Mas o que me marcou em tudo foi o olhar marcante com expressão de dor e sofrimento. Cada rosto parecia contar uma história marcante. Depois outra impressão marcante é a morosidade nos órgãos públicos, tudo funciona com muita calma e tranqüilidade.
Afropress – Qual foi o impacto sobre vocês jornalistas dos depoimentos das vítimas do genocídio? O que mais lhes chocou?
Paulo Mondego – É preciso dizer que todas as histórias em Ruanda chocam qualquer pessoa normal. Todas as pessoas com mais de 15 anos estavam envolvidas no genocídio como vítimas ou como agressores, o país inteiro se envolveu na tragédia. A cada história que ouvimos a crueldade sempre estava presente, cada um deles tinha em seu passado histórias de estupro, tortura, mortes violentas, perda de dezenas de parentes, enfim.
Mas algo me chamou atenção, todos tinham o desejo de recomeçar. Um dos nossos entrevistados foi o taxista Enhok Kayonga, durante a conversa que gravamos com ele no local onde ele se refugiou, um homem passou e ele cumprimentou, depois ele disse: “esse homem é muito mau, eu o vi matar muitas pessoas, inclusive parentes meus.” Ou seja, apesar das feridas serem profundas e doloridas eles compreenderam que não dá mais para viver em luta, porque do contrário não existe vida. As marcas são eternas.
Afropress – Qual é a sensação do estrangeiro hoje ao andar pelas ruas de Kigali e outras cidades de Ruanda? As marcas do genocídio são visíveis ainda nas ruas, nas pessoas, nos depoimentos das pessoas comuns?
Paulo Mondego – Impossível ir a Ruanda e não saber o que houve ali. O genocídio se tornou o principal atrativo turístico do país. Existem pelo menos sete museus do genocídio em Ruanda, o principal fica em Kigali que foi criado por uma ONG inglesa. Dentro desses museus pode-se encontrar corpos mumificados da maneira como foram mortos, pertences das vítimas, fotos, objetos, armas, tudo está registrado e documentado nesses museus.
Em um deles que visitamos era uma escola, hoje as salas guardam os corpos em sinal de que nunca o genocídio deve ser negado como tentam fazer com o holocausto. As pessoas nas ruas não falam disso abertamente, mas quando perguntadas expressão vergonha, dor e incômodo em falar, mas mesmo assim falam. Quando estivemos lá, uma missionária disse que até pouco tempo algumas regiões fediam devido não terem recolhido todos os corpos das valas comuns que foram feitas para enterrar os mortos.
O prédio do parlamento ainda permanece depredado. Uma das igrejas católicas que serviram de refúgio ainda abriga corpos e pertences das vítimas que foram massacradas ali dentro. Todo mês de abril o país para com as comemorações do fim do genocídio, as pessoas ficam mais depressivas, o clima é de estrema tristeza e há muitas cerimônias fúnebres de nos museus dos corpos que ainda estão sem identificação. Sem falar nas gacacas que acontecem ao ar livre para julgar os criminosos do massacre. Enfim, Ruanda ainda transpira as conseqüências do genocídio apesar da paz estar bem estabelecida.
Afropress – Como está a convivência hoje entre hutus e tutsis e integrantes das demais etnias? O atual governo Kagame, que é tutsi, está conseguindo levar a bom termo a mensagem de pacificação e Justiça?
Paulo Mondego – Eles convivem livremente entre si, andam pelas ruas, tem seus comércios, vivem como podem. A paz existe apesar de ambas as partes saberem quem foi o agressor e quem é a vítima. A experiência e o governo fizeram a população entender que é preciso superar o trauma mesmo sem esquecer o que houve ali. A justiça está trabalhando dia a dia para julgar os criminosos e esse processo conta com a participação da população para isso.
Existe uma secretaria criada pelo governo exclusivamente para tratar da reconciliação entre as etnias. Os esportes também tem sido grandes aliados nesse processo de reconstrução da identidade daquele povo. Apesar de o presidente ser um ditador e da etnia tutsi ele tem formação democrática de governos desenvolvidos. Muitos líderes de países europeus vão a Ruanda conhecer o sistema de governo e superação do que houve. É nítido o controle e estabilidade do país em relação ao massacre.
Afropress – Gostaria que você falasse um pouco mais sobre o modelo dos tribunais Gacaca, herdados do período pré-colonial e que estão sendo utilizados para punir os responsáveis pelo genocídio, e como modelo de distribuição de Justiça?
Paulo Mondego – Como já se sabe, a gacaca era a maneira como as tribos que viviam naquela região da África Central resolviam suas divergências entre si. As casas eram construídas em conjuntos de 10 unidades que formava uma pequena comunidade onde era eleito um líder.
E assim se formava um distrito, cidade ou região. Quando ocorria alguma divergência ou alguma infração considerada indevida por eles, os lideres se reunião com a comunidade para resolver a questão. Esse costume data desde o período pré-colonial. No Museu Nacional de Ruanda pode-se encontrar fotos que registram essas cerimônias. Depois do genocídio esse costume foi resgatado a fim de se julgar os criminosos, já que pela justiça comum isso levaria mais de setenta anos.
Além do tempo, outro fator que ajuda a gacaca é que os crimes aconteceram entre vizinhos e até mesmo entre parentes, o que facilita a identificação dos criminosos entre a própria comunidade que também participa do julgamento.
As reuniões costumam acontecer próximo a comunidade onde aconteceu o crime e ali todos participam, os lideres como juízes e a comunidade como testemunha. A comunidade parece sair satisfeita já que é um processo transparente, embora os traumas sejam eternos.
Afropress – Qual a mensagem mais forte que fica do país, depois do genocídio? Descreva como é o dia a dia em Kigali, a economia do país, a convivência das pessoas, sem dúvida, afetadas pela ferida aberta do genocídio?
Paulo Mondego – Essa frase nasceu no dia da apresentação do nosso trabalho a banca de professores, e acho que é bem o que me marcou em Ruanda. “Conhecer a história de Ruanda é conhecer dois extremos do ser humano, a crueldade e o perdão.” Em outras palavras eles renasceram do rio de sangue que se transformou aquelas ruas e vilas. A nação ruandesa viveu o horror em cem dias e hoje vivem em busca de paz. As pessoas tocam suas vidas normalmente apesar de existir muita pobreza, carência de alimentos, desemprego, e os problemas comuns a países subdesenvolvidos.
Afropress – Qua l a lição que o mundo pode tirar do genocídio em Ruanda?
Paulo Mondego – Podemos ser tão cruéis a ponto de cometer absurdos imperdoáveis, e mesmo depois de tê-los cometidos podemos chegar ao supremo estágio do perdão terapêutico e necessário.
Afropress – O que pretendem fazer para que o vídeo-documentário se torne uma mensagem poderosa de combate à todo o tipo de discriminação?
Paulo Mondego – Estamos divulgando da maneira que pudemos o nosso trabalho, apesar da maneira tímida o documentário Memórias Feridas – o renascer de uma nação foi tema de programa na TV Justiça além de entrevistas em sites especializados. Como o grupo se dividiu após a formatura ficou difícil a continuidade do projeto. Mas eu e Larissa estamos discutindo uma maior divulgação e quem sabe uma reedição do material bruto, que são mais de 15 horas de filmagem.
Afropress – Façam as considerações que julgarem pertinentes.
Paulo Mondego – Ruanda é sempre um convite a reflexão do eu, do que julgamos importante, da existência. Conversar com um sobrevivente do genocídio é sentir-se um abastado de segurança, paz e felicidade.
A respeito de mim eu atualmente trabalho como assessor de imprensa em Cuiabá, mas pretendo trabalhar com TV em reportagem ou produção com vistas a direção de documentários no futuro. Tenho 26 anos e sou negro, nunca fui vítima explicita de racismo, mas em quase 20 anos nos bancos escolares sempre fui a minoria na sala de aula quando não o único de cor negra. Para mim, o pior racismo é aquele que não se pode condenar, o que acontece de forma velada, no olhar, nas palavras trocadas, nos gestos escondidos.
Larissa Jansson – Tenho 26 anos e também sou afro descendente. Sou natural do Rio de Janeiro e mudei com minha família para Santa Catarina quando tinha 8 anos. Senti o racismo na pele quando era criança, graças a alguns coleguinhas de escola. As crianças tendem a falar mais na cara, expor seu preconceito mais abertamente, eu acho. Por isso, na medida em que fui crescendo, essas manifestações ficaram mais veladas. Mas dói demais… Mesmo anos depois, ainda dói lembrar disso.
No momento procuro uma colocação no mercado de trabalho: estou prestando concursos, fazendo testes e entrevistas de seleção.

Na foto, a jornalista Larissa Jansson, ao centro, com sobreviventes do massacre de Ruanda.