Brasília – Pouco antes de tomar posse como a quinta ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) nos 12 anos de governos do PT, a ex-reitora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), Nilma Lino Gomes, usou a palavra "diálogo e "dialogar" cinco vezes para enfatizar a necessidade de construção de “pontes de diálogo dentro e fora” para traçar planejamento metas e estratégias da sua gestão.

Uma das críticas mais frequentes a sua antecessora – a socióloga Luiza Bairros –, inclusive de setores do PT, era de que tinha perfil centralizador e avesso ao diálogo. Durante os quatro anos em que se manteve à frente da SEPPIR Bairros fechou-se em torno da equipe de assessores – a grande maioria do seu grupo político na Bahia.

Na entrevista ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, a nova ministra, ao responder a pergunta sobre que novas ideias levará para a SEPPIR, já que a Presidente Dilma Rousseff se elegeu com o slogan “Governo novo. Idéias Novas”, disse que “antes de falar em novas ideias será preciso conhecer mais a fundo o trabalho realizado pela SEPPIR até o momento, não somente pela gestão que se encerra, mas também, um histórico das outras gestões”.

Quanto ao pequeno orçamento que terá (menos de R$ 50 milhões) e a tradição de baixa execução orçamentária dos seus antecessores no cargo, disse que “exigem um estudo cuidadoso e primoroso antes de emitirmos qualquer opinião”.

“Será necessário compreender o contexto, as dificuldades da execução dentro da complexidade do orçamento público de pastas específicas, como é o caso da SEPPIR e suas peculiaridades”.

Quem é

A nova ministra tem 50 anos e é mestre em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais, doutora em Antropologia Social, pela USP, e pós-doutora em Sociologia pela Universidade de Coimbra, em Portugal.

Ela garantiu não ter filiação partidária e, quanto a posição ideológica, afirmou considerar ser “a família, o Programa de Ações Afirmativas na UFMG e o movimento negro" os seus "principais espaços de aprendizagem".

Mineira, disse ter se sentido surpresa, honrada e emocionada ao tomar conhecimento de que se tornara ministra. Em relação aos seus ídolos na luta contra o racismo e por igualdade, citou o pai, João Jarbas Gomes, “minha mãe Maria da Glória Lino Gomes e Nelson Mandela”.

Leia, na íntegra, a entrevista concedida pela nova ministra da SEPPIR à Afropress:

Afropress – A presidente Dilma Rousseff se elegeu com o slogan "Governo novo. Idéias Novas". Quais são as idéias novas que a senhora pretende levar para a SEPPIR?

Nilma Lino Gomes – Antes de falar em novas ideias será preciso conhecer mais a fundo o trabalho realizado pela SEPPIR até o momento não somente pela gestão que se encerra, mas, também, um histórico das outras gestões. Será fundamental ouvir setores internos e externos e construir caminhos de diálogo. Assim, poderemos compreender: aspectos da continuidade, o que necessita ser mudado e as novas ideias que este balanço e essa escuta poderão trazer. E será necessário pensar quais são os caminhos a ser construídos para socializar as novas ideias. No momento, posso dizer que aceitei o desafio de conduzir a SEPPIR e tentarei fazer o melhor trabalho possível.

Afropress – Sabidamente, além do orçamento diminuto, a SEPPIR históricamente tem tido uma baixa execução orçamentária. Como pretende lidar com essa dificuldade, diante do aumento crescente das demandas relacionadas ao combate ao racismo e a luta pela igualdade?

NLG – As questões orçamentárias exigem um estudo cuidadoso e primoroso antes de emitirmos qualquer opinião. Será necessário compreender o contexto, as dificuldades da execução dentro da complexidade do orçamento público de pastas específicas, como é o caso da SEPPIR, e as suas  peculiaridades. Portanto, um dos primeiros passos será realizar esse estudo interno, dialogar com os setores responsáveis à luz das questões orçamentárias específicas da SEPPIR e mais gerais no que se refere ao orçamento público.

Afropress – A senhora já tem equipe? Pretende manter o quadro de pessoal de confiança herdado da sua antecessora? Quem pretende designar para a Ouvidoria, Secretaria de Políticas de Ações Afirmativas e Secretaria de Comunidades Tradicionais?

NLG – Também neste ponto penso que será necessário conhecer e ouvir a equipe atual, o objetivo de cada setor, o trabalho realizado, os limites e possibilidades de cada setor. Qualquer nova gestão na administração pública exige que o gestor ou gestora que inicia a sua tarefa pública tenha um tempo para conhecer  o trabalho realizado, estabelecer pontes de diálogo dentro e fora e traçar o seu planejamento, metas e estratégias. Somente assim será possível avaliar e definir o perfil mais adequado para a equipe.

Afropress – Uma das críticas que se faz a sua antecessora é o fato de que exercitou pouco o diálogo com as várias correntes do movimento negro. Como a senhora pretende lidar com um movimento negro que, históricamente, é política, ideólogica e partidáriamente plural?

NLG – O caminho do diálogo é sempre o mais salutar na administração pública, bem como em qualquer ação que exija o contato com coletivos sociais diversos, movimentos sociais, universidades e demais setores da sociedade civil.

Esse diálogo deve ser construído com respeito e responsabilidade de todas as partes envolvidas. Espero conseguir realizar esse diálogo em conjunto com a equipe da SEPPIR, com o movimento negro e demais parceiros da luta pela promoção da igualdade racial, numa postura pública e sem perder o foco dos nossos avanços até agora, a fim de construirmos mais ações em prol de uma sociedade mais justa, equânime e igualitária.

Afropress – Quais as suas prioridades como ministra chefe da SEPPIR?

NLG – Dar continuidade às ações importantes realizadas, abrir caminhos para o diálogo reconhecendo o importante papel do CNPIR, realizar a complexa e desafiadora tarefa da  transversalidade dentro do governo federal com participação da equipe, construir novas propostas em diálogo com os setores do governo, com as universidades e com a comunidade negra.

Da Redacao