Nova Orleans – Prefeitos dos Estados americanos devastados pelo furacão Katrina, que matou centenas de pessoas e deixou milhares desabrigados, não têm dúvidas: é a população negra a maior vítima da tragédia natural, não apenas porque é pobre, mas porque o Governo Bush – representando a nova direita religiosa americana – caracterizada pelo conservadorismo e pelo racismo, ignora os dramas e os pedidos de socorro da população dessas áreas majoritariamente negras.
O prefeito de Winstonville, no Mississippi, Milton Tutwiller, disse que a ausência de socorro por parte do Governo americano não constitui surpresa. “Ninguém vinha ver como estava a população negra dessas paróquias, mesmo quando o sol estava brilhando. Estou surpreso que ninguém tenha vindo nos socorrer agora? Não estou”, afirmou.
O prefeito de Inglewood, na Califórnia, Roosevelt Dorn, que também preside a Associação Nacional de Prefeitos Negros, cobrou maior presteza dos serviços de resgate. “Tenho uma lista de prefeitos negros no Mississipi e no Alabama que estão implorando por ajuda. Suas cidades estão aniquiladas, e eles estão em desespero. Ninguém até agora ouviu seus gritos”, acrescenta Dorn.
Já Spencer Crew, presidente da secção em Cincinnati, do Centro Nacional Ferrovia Clandestina da Liberdade (rodovia de fuga de escravos do sul dos EUA para o norte, no período da escravidão), afirmou que as marcas deixadas pela tragédia vão obrigar a população a encarar a desigualdade racial existente no país. “A maioria das cidades possui uma população pobre – branca e negra – que fica oculta, da qual nem sempre se fala, que costumamos deixar de enxergar. Neste momento, não podemos deixar de enxergá-la”, acrescentou.
Nova Orleans tem uma população de cerca de 500 mil pessoas, das quais dois terços é negra e mais de um quarto vive na pobreza. No bairro de Ninth Ward, que teve suas casas completamente inundadas, por exemplo, 98% da população é negra e mais de um terço é pobre. No país, contudo, os negros correspondem a cerca de 13% da população.
O prefeito Ray Naggin, na tarde de quinta-feira, desesperado com as cenas da tragédia de milhares de pessoas sem socorro, muitos morrendo nas filas e no Estádio Superdome desabafou para uma rádio local. “Eu voei nos helicópteros, estive no meio da multidão, falando com pessoas que choravam por não saber onde estão seus parentes. Eu fiz tudo isso, cara, (referindo-se ao presidente George Bush) e te digo que continuo ouvindo que (a ajuda) está chegando. Está chegando, está chegando… Besteira! Onde está ajuda?” e concluiu a entrevista com um palavrão.
Para o reverendo Jessé Jackson, do Partido Democrata, as cidades não foram socorridas pelo Governo porque foram as áreas em que Bush recebeu menos votos. “Muitos negros sentem que sua raça, suas condições econômicas e seus padrões de voto foram fatores levados em conta na resposta”, disse Jackson.