Chegamos a mais um mês de Novembro, o Novembro Negro de 2005, quando de norte a sul, de leste a oeste do país se comemora na data de 20 o Dia da Consciência Negra, marcado por manifestações em diversas cidades brasileiras, algumas com o privilégio de feriado local para evidenciar a importância da data no cenário de lutas marcadas por mortes e privação de liberdade inflingidas aos negros nos séculos 18 e 19, até que a escravidão fosse em termos abolida no Brasil por ato imperial.
Chegamos a Novembro de 2005, lembrando alguns fatos importantes ocorridos neste ano, que precisam estar sempre evidentes porque esquecer é tão decisivo quanto lembrar, talvez ficando apenas na periferia da importância de alguns deles, mas para nós como simples observador basta que possamos lembrar apenas de um dos fatos, para não sermos acusados de omisso em relação ao que ocorre à frente dos nossos olhos, pois neste país de dimensões continentais, a mídia tradicional escrita, falada ou televisada que nos daria condições de saber um pouco mais sobre o que ocorre em relação à comunidade negra é 99% omissa, fazendo com que muitas vezes possamos nos valer apenas da informação boca a boca entre a nossa comunidade, muitas vezes distorcida, norma comum que veio substituir o “telex do continente africano”, o tambor, utilizado durante séculos para levar a informação importante ou não, para os mais distantes rincões daquela parte do mundo.
São os nossos veículos alternativos impressos ou na Internet, como o Portal Afro, Afropress, Afirma, Mundo Negro, Ongfonte e outros que, na maioria das vezes, fazem com que as notícias e informações nos cheguem em tempo e hora com a rapidez que muitas vezes os assuntos abordados precisam.
Desembocamos neste Novembro Negro de 2005, com a lembrança da 1ª. Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, realizada este ano em Brasília de 30 de junho a 2 de julho, com a participação de milhares de pessoas, e precedida de conferências estaduais, por iniciativa de um organismo do governo, estabelecendo parâmetros para o debate de políticas públicas em relação à igualdade e integração racial, sem dúvida um passo importante como ponto de partida, mas ainda falta muito a fazer de comum acordo entre governo e sociedade civil, mais este do que aquela, porque governo, qualquer governo, pode muito, mas não pode tudo para que a auto-estima e a cidadania do negro seja alcançada e permanentemente ressaltada, valendo-nos aqui do pensamento do hoje empresário, sempre brilhante jornalista Miguel Jorge, ex-Diretor de Redação do eterno abolicionista jornal O Estado de S. Paulo que em seu artigo do último dia 19, “Cidadania, o lugar dos afro-brasileiros” nos lembra: “País de estrutura social complexa, abalado por desigualdades e injustiças, o Brasil miscigênico festeja em 20 de Novembro o Dia da Consciência Negra, tentando lançar um olhar mais atento sobre o fato mais importante da sua identidade: a presença do negro como fator de diversidade, aglutinação e riqueza da sua sociedade. Pra onde quer que olhe à procura de si mesmo, de suas raízes, história e cultura, o brasileiro branco tem de encarar o fato de que os afrodescendentes se inscrevem em sua vida e na do País, não somente pelo perfil racial como por sua contribuição em todas as áreas que forjaram o que somos hoje. Em tudo o que fazemos e em tudo o que somos, o negro é parte fundamental dessa realidade social e econômica, das raízes culturais, do exercício da liberdade criadora, da convivência humana. Essa realidade se torna mais confusa quando sabemos que é exatamente do cadinho racial de seu povo – afrodescendentes, japoneses, eslavos, italianos, portugueses, alemães, libaneses, etc – que o Brasil tropical extrai a maravilhosa síntese da sua unidade como sociedade democrática e multirracial. Contudo, paradoxalmente, o autor destas linhas – branco, mistura de italianos e libaneses – não ousa explicar uma tragédia: a de que os negros ou afro-brasileiros têm motivos mais que suficientes para se sentirem excluídos dessa sociedade ou em posição inferior em relação aos não negros e até mesmo para duvidar daqueles que dizem que lutam por eles. (…)”
Neste Novembro Negro de 2005, em que devido o atavismo, algumas pretensas lideranças negras pelo País afora, pessoas que as outras não vêem porque são as não pessoas, esquecidas e ignoradas pelo sistema, não se entendem e não chegam irmanadas para a realização do que poderia ser a maior manifestação da comunidade negra no Brasil, a Marcha Zumbi+10 contra o racismo, as injustiças sociais, a intolerância e pela cidadania, em Brasília, está fadada ao fracasso com a perda do grande momento, a oportunidade maior para apresentar ao governo as propostas da 1ª. Conferência Nacional que devem ser urgentemente adotadas, bem como marcar com sua presença o apoio maciço à adoção do Estatuto da Igualdade Racial, de autoria do batalhador incansável que é o atual senador Paulo Paim, despojado das luzes dos holofotes, preocupado apenas para o fato de que a Igualdade neste País seja uma realidade, e não resultado de uma luta inglória.
Neste contexto a comunidade negra brasileira não pode prescindir do apoio dos discriminados não negros deste País, que são os ciganos, os índios, da comunidade judaica perseguida em outras plagas no século passado. Recentemente, em artigo na Tribuna Judaica, Berel Aizenstein, presidente da Confederação Israelita do Brasil, ressaltou a importância da nossa união com os judeus na luta contra a discriminação e a busca da integração racial enfatizando: “as comunidades judaicas, em qualquer lugar do mundo, conhecem muito bem por que tem sentido na pele o que é a discriminação, o preconceito e a intolerância. Nós bem sabemos o que é e qual o significado desse conjunto de substantivos.” (…) Isso explica porque os judeus norte-americanos desde os primórdios da luta pelos direitos civis iniciada pelo ícone Rosa Parks, falecida mês passado, sempre foram aliadas dos afro-americanos.
Neste Novembro Negro de 2005, importantes eventos ocorrem no Brasil para se comemorar o Dia da Consciência Negra, como as Marchas Zumbi + 10, em Brasília, e diversas manifestações em várias cidades, mas não podemos deixar de ressaltar a importância da presença em solo brasileiro de James Meredith, o negro norte-americano que em outubro de 1962, foi o primeiro negro a ingressar como aluno na Universidade do Mississipi, sob a proteção de forças federais, tornando-se um dos símbolos da luta contra a segregação racial no sul dos EUA.
Meredith chega ao Brasil no próximo dia 16, por iniciativa e convite do Portal Afro Instituto Cultural, sem o apoio de qualquer órgão governamental brasileiro que se negaram a participar de qualquer parceria, mas com o nosso apoio e de todo o Conselho Consultivo e da Diretoria desta instituição presidida por Jader Nicolau Junior, para participar de Seminários e Palestras que serão realizadas em São Paulo, Brasília, Salvador, Rio de Janeiro e outras cidades, sobre Direitos Humanos, Diversidade, Ações Afirmativas, neste Ano Nacional de Promoção da Igualdade Racial.
Neste ano no Dia Nacional da Consciência Negra, domingo 20 deste Novembro Negro de 2005, a televisão brasileira que tem a obrigação de mostrar a realidade deste miscigenado país que tem 45% de sua população composta de negros e que sempre se furtou em mostrar na telinha permanentemente a seriedade da presença negra nos mais diversos segmentos da sociedade brasileira, passará a contar com a imagem e o som da TV DA GENTE, a primeira emissora de TV em canal aberto dirigida por negros, mas que não terá apenas negros em sua programação que chegara para permanecer no AR, por iniciativa pioneira do empresário, cantor e apresentar José de Paula Neto, o Netinho, levando através de parcerias públicas e privadas nacionais e internacionais, sua grade de programação eclética, em sua maioria com assuntos e temas relevantes mostrando a pluralidade étnico racial, com o apoio de entidades da sociedade civil, educadores, formadores de opinião, militantes do movimento negro, para São Paulo, Ceará, Rio de Janeiro e Salvador, além da República de Angola, no Continente Africano.
Neste Novembro Negro de 2005, é nos grato reconhecer que ocorreram alguns avanços no que diz respeito a algumas reivindicações, mas também, não podemos deixar de lado o fato que o estrelismo, o “eu sou”, “eu faço” ou “eu sei mais” ou “melhor” prejudicaram e se persistirem vai continuar a prejudicar a luta na busca de reivindicações da comunidade negra brasileira. E justifica-se encerrar este Novembro Negro Novembro com as assertivas de Miguel Jorge, em sua matéria acima citada: “Mas o mais irônico em tudo isso é que os negros brasileiros nunca reivindicaram a proteção dos governantes de turno, nem programas que os colocassem sob a égide do Estado, nem políticas públicas eficazes que criassem mais empregos, boas escolas e assistência médica, etc., com justa distribuição de rendas e oportunidades. Não cobraram isso nem mesmo dos políticos negros que elegeram para cargos legislativos nos Estados e no Congresso Nacional.
Qualquer análise isenta da vida brasileira, leva, portanto, à triste conclusão de que não atingimos esses objetivos e que, ontem e hoje, como afirma a pesquisadora Olívia Santana, da Universidade Federal da Bahia, “os negros continuam filhos bastardos de uma pátria-mãe pouco gentil”.
Que o Dia da Consciência Negra assinale o passo inicial para que, irmanados, os governos federal, estadual e municipal, a sociedade, ONGs e sindicatos de trabalhadores e de empresários atenuem a situação deprimente do negro no País.

Antonio Lucio