Ironicamente o tema do evento era “intolerância religiosa”. Uma pessoa me disse que começou a imaginar o que veria a seguir, e, em pensamento, o viu despejando água na cabeça das pessoas e lhes impondo um nome cristão, ao modelo da violência impetrada contra nossos ancestrais retirados da África e trazidos para o Brasil na condição de escravos.

Não pretendemos nem nos interessa provar que Nuno disse à Folha ser contra as "ações afirmativas", é a palavra dele contra a do jornalista. Mas, seu desrespeito às lideranças de matriz africana na cidade de Francisco Morato foi presenciado por muitas pessoas. Baba Dyba de Iyemonja, reconhecida liderança do RS, postou na rede o seguinte depoimento “Estava neste Seminário na Cidade de Francisco Morato quando este cidadão fez suas pregações e causou, sim, um verdadeiro constrangimento aos presentes. Me balizando pelo que ele fez neste Seminário não tenho dúvidas que ele é contra a Matriz Africana…”.

Mas não nos admira que algumas pessoas saiam eloqüentemente na defesa do senhor Nuno Coelho como legítimo conhecedor e promotor das matrizes africanas. Pelo que me disseram, no próprio evento em questão, uma senhora negra de muito boa vontade, buscou contribuir para a fala do palestrante, narrando a generosidade de um certo padre da cidade que frequentava as casas tradicionais chamando as pessoas para irem à missa, para que pudessem salvar suas almas, e as acolhia com todo o amor cristão.

Defendemos o Estado laico com todas as nossas forças, apesar de saber que esta laicidade só é utilizada quando se trata das expressões religiosas de matriz africana. No mais, a Esplanada e a maioria dos órgãos públicos Brasil afora, estão eivados de templos e símbolos religiosos cristãos. Não nos interessa a religião de quem assume qualquer cargo, nos interessa que seja capaz de respeitar a alteridade e que tenha os elementos necessários para desempenhar sua tarefa.

Não estamos propondo um “religioso de matriz africana” para qualquer cargo público, estamos afirmando que somente uma pessoa detentora dos conhecimentos tradicionais de matriz africana pode promovê-los. Oras, para dirigir a FUNARTE, um/a artista; para reger a sinfônica, um maestro ou uma maestrina; para comandar a Secretaria de Políticas para mulheres, uma mulher; mas, para representar um órgão que cuida das tradições de matriz africana no Brasil, qualquer pessoa de pele escura serve? Matriz Africana diz respeito a valores civilizatórios e ancestrais, sem os quais o povo negro não teria chegado até aqui, sobrevivendo às práticas genocidas e epistemocidas impetradas pelo Estado Brasileiro ao longo da história do país.

Valores estes, sem os quais nunca seremos realmente livres, mas apenas títeres da cultura dominante, folcloricamente enfeitados com símbolos externos, roupas coloridas, um turbante, uma bata, um tambor, higienizados dos seus conteúdos, considerados inadequados, primitivos, pouco civilizados. Não estamos nos referindo a esta visão limitada de “religião” exposta pelo senhor Edson França em seu texto. Religião vem do latim, de religare, de religar, o que serve bem para as culturas que separam o físico do transcendental, que marcam dia e horário para se conectar com o Divino.

Estamos falando de práticas tradicionais que buscam equilibrar o tempo inteiro o mundo físico e o mundo espiritual, tradições que acompanham toda a vida de uma pessoa, em todos os momentos da sua existência, em todos os espaços. Nos referimos à vivência comunitária propiciada pelo princípio do “ntu”; à relação sustentável com o meio ambiente e seu papel de complementaridade e continuidade da vida humana, que garante nichos verdes preservados e resistentes ao avanço da especulação imobiliária, por todo o país; ao cuidado e acolhimento que qualquer casa tradicional oferece a quem ali acorre, independente de quem seja, sem proselitismo ou imposição de valores como verdade única e absoluta.

Estamos nos referindo a todo um cabedal teórico-filosófico que aqui chegou nos corpos e mentes de pessoas que, desterritorializadas pelo sistema escravista, reconstituíram-se enquanto identidade a alteridade criando novos territórios e processos culturais, que possibilitaram a preservação dos seus modos de vida, idiomas, linguagens corpóreas, rítmicas e musicais, enfim, da sua cosmovisão.

No Brasil, estas tradições ficaram confinadas em determinados espaços em função da violência e do racismo e pela criminalização das suas práticas. Em Pernambuco o sociólogo Gilberto Freire, descriminalizou as práticas tradicionais de matriz africana, pois achava que era apenas “doença mental”, e determinou que as casas tradicionais deveriam ser registradas no IML e não num departamento policial. De crime para loucura, de loucura para seita satânica, e as lideranças tradicionais lutaram para serem alçados à condição de “religião”, pensando que assim teriam sua cosmovisão respeitada.

Ledo engano, a violência e o desrespeito contra a ancestralidade africana no Brasil só vem aumentando, haja vista a proliferação de Projetos de Lei contra os cortes tradicionais de animais, e os ataques a lideranças e casas de todo o país neste ano de 2012. Quanto ao digníssimo presidente da Fundação Cultural Palmares, ex-ministro de Promoção da Igualdade Racial, dispensa comentários. Basta lembrar que o mesmo, na contramão da história emancipatória reelaborada pelo povo negro deste país como parte do seu processo emancipatório, afirma publicamente que o “13 de maio” é simbolicamente tão ou mais importante que o “20 de novembro”.

O sujeito é, identifica-se e organiza-se partir do grupo, povo e território a que pertence. Esse pertencimento define quem é e quem não é, quem pertence e quem não pertence ao universo que é expresso, além do espaço físico, tanto pelas formas simbólicas, pela língua, quanto pelas inúmeras práticas e atividades concretas, sem qualquer sobreposição valorativa de superioridade ou inferioridade, mas apenas sendo quem É e o que É, sem precisar se esconder, numa relação em que os representados reconhecem seus representantes; e os representantes não tentam se passar pelo que não são.

Paulo César Pereira de Oliveira