"Enquanto a mídia corporativa vocifera a Lava-Jato e o impostômetro, há um silêncio dos cúmplices para o fato de que nos primeiro 5 meses de 2015, as pessoas jurídicas e físicas a comandar o andar de cima já sonegaram mais de 200 bilhões segundo a Procuradoria da Fazenda. O problema é que este controle do rentismo sobre o aparelho de Estado está fora da pauta e a ex-esquerda nem quer saber de debater isso a fundo", analisa Bruno Lima Rocha, professor de ciência política e de relações internacionais.

Segundo ele, "em meio a boataria de que Levy estaria pegando o boné e abandonando o cargo, o PT convoca a disciplina partidária para a pior das causas; o "ajuste fiscal " que enxuga gelo mas garante a confiança de que o Executivo manterá a opção preferencial pelos bancos".

Eis o aritgo.

Nesta breve análise, procuro juntar algumas peças de evidências das estruturas de poder em torno do Brasil (domésticas ou transnacionais) e o comportamento político que deriva ou incide a partir destas próprias estruturas. Na semana que começou com o anúncio do pacote de Levy e terminou com o ato das centrais sindicais (menos a Força Sindical, por motivos óbvios), o país novamente viveu a intensidade da disputa política e a certeza de que a representação de por si é o paraíso da auto-representação e a distância insuperável entre representantes e representados. Vamos ao debate.

O ajuste de Levy e a Lavanderia Brasil  

O ajuste fiscal, que morde um pouco nos bancos, mas não evita que as entidades bancárias repassem o aumento da carga sobre seu líquido para cima dos usuários e correntistas. Neste país, onde a "esquerda" escolhe um banqueiro do Bradesco e ex-cabo eleitoral de Armínio Fraga para tomar conta da Fazenda, a tesoura de Levy soa mesmo como estelionato de Dilma.

Neste sentido, e apenas neste, a direita ideológica tem razão. “Mal e porcamente” o povo escolhe numa disputa plebiscitária de segundo turno entre o pacto de classes do lulismo ou a selvageria privatista tucana. Deu o lulismo na cabeça, de novo. Mas, antes mesmo do ano virar, em pleno 3º turno pós-eleitoral, Dilma gira para a direita – mantendo a coerência de sua aliança – comprovando por A + B que o partido de governo não governa.

Na sexta-feira, dia 22 de maio, a equipe econômica afirma que o rentismo supera todas as contradições intra-governo levando a uma hegemonia de fato.

Enquanto a mídia corporativa vocifera a Lava-Jato e o impostômetro, há um silêncio dos cúmplices para o fato de que nos primeiro 5 meses de 2015, as pessoas jurídicas e físicas a comandar o andar de cima já sonegaram mais de 200 bilhões segundo a Procuradoria da Fazenda. O problema é que este controle do rentismo sobre o aparelho de Estado está fora da pauta e a ex-esquerda nem quer saber de debater isso a fundo.

Eis a incoerência estrutural e estruturante, onde a independência de classe deu lugar, primeiro, a um nacionalismo meia boca (com pacto de classes não pactuado com as camadas dominantes) e depois a um possibilismo de sobrevivência. Sempre disse e reafirmo e provo na história da América Latina: na hora H o populismo sempre roeu a corda, tal e qual suas derivações mais lavadas, a exemplo do lulismo.

Ainda dá para reagir nestes próximos quatro anos, mas é urgente aglutinar forças político-sociais pela esquerda, sem comprometer-se com alianças espúrias ou absurdos de pactuar com oligarcas cuja única certeza de que dão é que a traição será inevitável. A política econômica deste governo é a alegria da direita ideológica e tem coerência com o recuo definitivo da ex-esquerda mimetizada com seus antigos e piores adversários. Temos um longo e tortuoso caminho pela frente, reconstruindo um projeto de país, sempre partindo do protagonismo e da independência política (soberania e autonomia decisória) do movimento popular organizado.

Um balanço da atividade parlamentar federal desta semana que passou com fortes emoções.

A semana última começou com o cardeal Eduardo Cunha colocando no plenário uma série de medidas para alterar a forma eleitoral brasileira. Não é a reforma política que foi vislumbrada em 2013 e tampouco é uma reforma eleitoral que atenda a premissa de diminuir a distância entre representantes e representados. O distritão vai elevar os gastos de campanha embora venha em conjunto com o fim das coligações proporcionais e interrompa a figura do puxador de voto. Finda a ofensiva da direita ideológica nas ruas, as manobras mais estruturantes voltam para a contaminada arena do Congresso. 

Cunha disputa com Calheiros a proa da chantagem institucional contra o governo dominado pelo rentismo e o capital financeiro. Em meio a boataria de que Levy estaria pegando o boné e abandonando o cargo, o PT convoca a disciplina partidária para a pior das causas; o "ajuste fiscal " que enxuga gelo mas garante a confiança de que o Executivo manterá a opção preferencial pelos bancos.

Para debater: a contra-reforma de Eduardo Cunha não foi aprovada na noite de terça-feira, dia 26 de maio. Simultaneamente, o Senado aprovava a base da Medida Provisória 665 que no intento de jogar para a torcida e enxugar gelo, restringe alguns direitos trabalhistas básicos enquanto o governo de facto do Copom eleva regularmente a famigerada taxa de juros.

Na Câmara Baixa (e cada vez mais baixa), os parlamentares derrotaram as maiores possibilidades de mudanças para pior das regras do jogo ao longo do próprio jogo; mas, ao mesmo tempo, sendo conservadores das regras atuais, as mesmas que geraram esta legislatura e o astronômico financiamento de campanha. Ficou tudo como dantes, e assim se espera em relação ao maldito PL 4330, ação nefasta de restauração da república velha e Estado liberal-gendarme e contra o qual o que resta de sindicalismo neste país convocou e organizou uma paralisação, um dia nacional de luta na sexta,  29 de maio.

Vale destacar na votação no Senado a disciplina partidária do PT e sua base – arregimentando como partido de governo sem ter condições de governo! – e também o controverso pragmatismo do baixo clero da Câmara, insurgindo-se contra seu cardeal maior, Eduardo Cunha.

Resultado da análise do comportamento dos cardeais do parlamento nacional e do comprometimento direto da presidente reeleita para com o faturamento líquido astronômico do setor especulativo: Cunha x Calheiros + Levy = presidencialismo financeiro de coalizão.

A “Justiça” chegou ao coração da cartolagem através da ação do FBI

Na 4ª feira dia 27 de maio, em plena reunião da alta cúpula da FIFA na Suíça, o FBI e o Departamento de Justiça da superpotência abriram a caixa de Pandora dos cartolas. Parece óbvio que tal ação é correlacionada com a eleição da FIFA e a agenda da administração Obama após a derrota eleitoral no pleito de meio de mandato. De qualquer maneira, ainda que por vias tortas, a ação jurídico-policial do Departamento de Justiça representa um mínimo de acerto de contas com a história e a cartolagem. A bancada BBB do Congresso Nacional deve estar bem preocupada.

Circula pela internet uma pérola do audiovisual documental brasileiro, contendo discursos do então deputado arenista por São Paulo e sua interpretação dos tempos que vivia. Ao assistir o elogio da infâmia, nota-se que é tamanha a excrescência de haver tido a um arenista à frente da CBF que quase nos faz esquecer do domínio de Havelange e companhia diante do futebol mundial. Vale conferir as falas deste amigo de torturadores e corrupto. O mundo da bola em suas estruturas de poder é a síntese do pior do Brasil.

Marin é mais um em uma ampla lista de neofascistas (ou quase) da terra da garoa, como os ex-governadores, Paulo Egydio, Paulo Maluf, Helou, Farah, Fleury, Neme, Erasmo Dias, Conte Lopes e uma infindável lista da extrema direita corrupta de São Paulo poderia fazer parte da lista de escrache permanente quando este país voltar a organizar uma esquerda com vontade de se inserir e compartilhar os códigos das maiorias. Ah acabei me esquecendo de Nabi Abi Chedid e outras vergonhas dentre os brimos paulistas. Nesta lista cabe o ex delegado do Dops Romeu Tuma cuja grande habilidade foi se desmarcar da marca de repressor e poder se reposicionar quando da democracia de transição nos anos 1980..

Reforma Política? House of Cunha e a unidade ainda que tardia….

Após a votação comandada por Eduardo Cunha, ao menos a reeleição está sendo derrubada; já o financiamento empresarial de campanha, Temer e seu sócio encontraram o caminho perfeito para esconder os "doadores-investidores". Fico na dívida de uma análise aprofundada.

Esta análise prolongada conclui com um elogio a unidade sindical necessária para barrar o avanço tanto do austericídio promovido pelo ministro do Bradesco e este governo titubeante e de centro-direita, como para impedir o avanço do PL 4330, o das terceirizações em atividades-fim nas empresas. Caso isto ocorra, repito, será o maior retrocesso para os trabalhadores do Brasil desde a noite de 1º para 2 de abril de 1964, quando o presidente eleito (como vice) e legitimado (através do plebiscito do presidencialismo x parlamentarismo), João Goulart, se recusou a resistir e deixou o país. Que venham novas datas nacionais de luta e que tenhamos uma sadia disputa nas bases sindicais sem deixar que o aparelhismo supere novamente o classismo tão ausente nos últimos treze anos.

 

Bruno Lima Rocha