Por outro lado eu não sei por que devo ter vergonha de uma evidente cilada que armaram por sobre mim. E ainda que fosse preso político tratado como comum. Disso eu tinha plena consciência.
Eu estava preso apenas por que ousara, na mídia, a denunciar as discriminações e outros atentados pelos quais passam o meu povo: o povo negro brasileiro. Aquele! Que ganhou a “abolição”, mas se esqueceram de lhe dar, de fato, a liberdade.
Quando eu fui preso ainda estávamos com aquela lengalenga de ditadura. Não adiantava, eu me esforçava ao máximo em provar para o branco quer nós negros já vivíamos em regime de ditadura havia séculos… Mas ele insistia em afirmar que: “Não. Aqui no Brasil prevalece a democracia racial”. E se a gente o insistisse se zangava e dizia que “você” era quem estava discriminando. Um saco! Isso na maior desfaçatez.
Em 1985, a firula era outra. Após a “árdua” luta contra a ditadura a sociedade resolveu arrumar sua casa. Criou logo uma Assembléia Nacional Constituinte, assim, como gente civilizada. E com direito a escolher – por isto é plebiscito – regime e forma de governo. Até aí tudo bem, eles eram os donos do circo, porquanto poderiam escolher o espetáculo.
Todavia, o que me deixou atônito, senão perplexo mesmo foi quando anunciaram que iriam consultar o povo sobre a possibilidade do retorno da família real brasileira ao governo. Foi um choque.
O branco brasileiro é relapso mesmo – ou se faz de tonto -, será que se esqueceu que ocorreu, aqui no Brasil, bem antes da Proclamação da República outro reinado que, por sua vez teve mais tempo de duração? Porquanto mais legítimo. Não! Eles não se esqueceram não. Eles apenas preferem achincalhar a nossa capacidade intelectual. Somente isso. Eles não nos respeitam. Mas não é somente isso… São também patifes, ainda se fazem de vítimas.
Naquele momento, eu estava dando tratos às bolas para descobrir o que fazer para sair daquele lugar e daquela situação. Tudo começou no Carandiru, e agora eu já estava numa das penitenciárias de segurança máxima do Estado… E sem a mínima possibilidade de sair vivo. A sociedade, ou seja, lá quem a represente, não queria eu no seu convívio. É que, desde 1930, com o Estado Novo, quando foi criado o DOPS (Departamento de Ordens Públicas e Sociais) que qualquer tentativa de organização por parte dos negros era considerada “subversão”, no período, como os comunistas.
Ainda no século XVI, quando Portugal resolveu atacar e invadir também o reino de Angola. Os guerreiros de Kiluanje M’bandi, que eram temidos por suas habilidades guerreiras, quando eram capturados foram mandados para o Brasil. Mas como guerreiros não podiam aceitar a condição aviltante de escravos. Fugiram para uma região onde já havia alguns outros fugitivos.
Posteriormente, findaram também por livrar do cativeiro dois príncipes, Ganga Zumba e Alquatune, esta que futuramente veio a ser a mãe de Zumbi.
Este reinado caiu um ano antes da morte de Zumbi, 1694. Mário Martins de Freitas, em seu livro “O Reino Negro de Palmares”, dá dois dados importantes para que possamos calcular a população daquele reino, fazendo uso da média aritmética. Chegamos à cifra de 45.500 pessoas. Estas que foram atiradas abismo abaixo, assassinadas, e posteriormente alegado que se suicidou.
Em 1993, contrariando todas as perspectivas, eu estava em “liberdade”, ou seja, vivendo aqui fora. Já havia até mesmo me esquecido do tal plebiscito. Lá dentro eu resolvera que haveria de chegar um destes negões inteligentes – que aqui fora dizem ter muitos – e reivindicar esta coroa. Mesmo que não a conseguisse, pelo menos valeria pelo estardalhaço que causaria. Não era isso que o negro brasileiro queria? Falar? Somente o que precisava era formar público… E tinha aí um prato cheio, ou melhor, uma platéia. Mas o tal “negão inteligente” não apareceu… Então eu fui.
Através do CRENJA encaminhamos ao Congresso Nacional uma petição, solicitando a inclusão da Coroa de Angola Janga (que naquele momento também chamávamos de Palmares). Bem, creio ser desnecessário falar que foi uma implosão do evento previsto. No Exterior, deu matéria na BBC de Londres, New Yorque Times, Washington Post e outros. Internamente também houve certa divulgação. Capciosas, como sempre.
Entretanto, na verdade, os brancos começaram a ficar “espertos”. Adiantaram o plebiscito que iria ocorrer em setembro para abril. Sob alegação de que “em setembro ficaria próxima demais da eleição”, que se daria em outubro do ano seguinte (?). E como não podia deixar de ser entramos com um Mandato de Segurança, sob também alegação de que não teríamos tempo para nos organizar. O plebiscito foi efetuado. Então nós entramos com um pedido de impugnação. E esta guerra jurídica seguiu por mais alguns meses. Com acontecimentos que se não fossem pérfidos seriam pitorescos. O negro brasileiro é uma fábula. Parece que só tem cabeça para ostentar trancinhas.
O fato é que em setembro, data que deveria, anteriormente, ser realizado o plebiscito eu tive o meu estabelecimento comercial invadido e fui vítima de tentativa de forjamento de flagrante. No episódio – eu não posso deixar de falar – teve até a colaboração ativa de militantes do movimento negro. Estes por uma disputa besta de liderança de algo que nem chegou ainda a existir, de fato, até hoje… E até hoje eles disputam.
Outro fato é que fui processado por nada menos que oito artigos. Enquanto estive preso fui torturado. Saí de lá com uma dupla fratura exposta no antebraço e outros mais milhares de escoriações. Após quatro longos anos fui absolvido. Inocente? Não, apenas por “falta de provas”. Não titubeie, entrei contra tudo e contra todos, com uma ação civil na Justiça contra o Estado. Maluco! Disseram todos. Mais treze anos de espera e a ganhei… Agora somente me resta receber. Pois se eu (ou todos nós) tenho que pagar as minhas contas o Estado também deve.
E por vim, somente me resta correr atrás de uma coroa que ficou perdida. Ah sim! E fazer justiça para com 45.500 ancestrais que há séculos carecem de sossego, e ainda clamam por Justiça, para que suas almas tenham paz
Porquanto, diante do acima exposto, declaro solenemente que: todos os governos brasileiros, de 1994 para cá, foram espúrios. A Justiça brasileira, – tão ciosa – esqueceu-se de julgar o mérito da ação. Preferiram dar um “cala boca” no negão aqui… E perderam.
Em outras palavras, o branco brasileiro tem que sair do poder, este por ser incompetente e corrupto.
São Paulo, 10 de fevereiro de 2011.
PELO CESSAR IMEDIATO DO GENOCÍDIO DO NEGRO NO BRASIL!
PELA IMEDIATA DESOCUPAÇÃO DO HAITI!
PELO MEMORIAL DA ESCRAVATURA NEGRA NAS AMÉRICAS!

Neninho de Obalúwáiyé