A CPMI foi desnecessária porque “provou, oficialmente, que as denúncias da bancada ruralista no Congresso são infundadas. E constatou-se que entidades e movimentos voltados à reforma fundiária desenvolvem sério trabalho de aperfeiçoamento da agricultura familiar e qualificação técnica dos agricultores”, esclarece Frei Betto.
A criminalização do MST é consequente da postura política da elite ruralista brasileira. Formada por latifúndios – que se apropriaram de grandes áreas de terras públicas, muitas das quais improdutivas – esta elite criou um mito, ao atribuir um estigma negativo ao MST, de Movimento desordeiro do meio rural, quando, na verdade, seus militantes não querem nada mais do que “lutar pela terra; lutar por Reforma Agrária; e lutar por uma sociedade mais justa e fraterna”.
Historicamente, os latifúndios do país sempre fizeram calar as vozes de atores sociais que não se deixam subestimar pelas formas terroristas através das quais tentam lhes imprimir medo, sobretudo, quando se trata de atores e/ou movimentos que, politicamente, colocam-se contra tais indivíduos. Daí o primeiro recurso do qual se servem é colocar a sociedade contra tais militantes.
Foi esta postura terrorista que se assistiu durante vários meses por meio de uma mídia que também é comprometida com tal elite, considerando que muitas emissoras de TVs e rádios são de propriedade de tais latifúndios.
Na luta contra a escravidão, esta mesma elite latifundiária perseguiu os quilombos que haviam se espalhado por todo o território, cujo objetivo era lutar contra a opressão e dominação dos grandes donatários de terras. Porém, seus líderes foram dizimados. Muitos foram barbaramente assassinados e expostos em praça pública, como foi o caso de Zumbi dos Palmares. Portanto, não só ontem, como ainda hoje, os latifúndios mandam em todas as instâncias de poder do país.
A elite latifundiária brasileira é hábil em criar mitos. Ideologicamente, estes mitos terminam sendo passados para a sociedade como verdadeiros; eles imprimem no imaginário dos cidadãos a idéia de que o “outro” é perigoso e, portanto, deve ser eliminado.
Similarmente aconteceu com os sindicalistas e políticos comunistas, pois foi divulgado pelas elites e pela mídia de que eram sujeitos violentos e perigosos, tomadores de terras, saqueadores de bens, comedores de crianças etc. Com efeito, criou-se um mito depreciativo contra os comunistas e sindicalistas brasileiros.
Resultado: as pessoas, amedrontadas, ludibriadas por tal minoria que pretendia decidir sobre os problemas do país, foram às ruas apoiar o Golpe Militar de 64.
Recentemente, a não aprovação de um Estatuto da Igualdade Racial – que atracasse realmente a estrutura racial brasileira – é mais um consequente da postura conservadora da elite latifundiária brasileira. E o mito criado por ela, e divulgado pela mídia, foi o de que, se aprovado, o Estatuto poderia dividir a sociedade entre brancos e negros.
Por isso, ela jamais permitirá que atores sociais – diferentes à sua ideologia e status – tenham ascensão social; ela não permite que os negros e as negras, os lavradores e operários, os pobres, tenham acesso à riqueza do país, às universidades públicas e, muito menos, às melhores posições de mando do país. Estas posições são os altos escalões dos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário.
Portanto, em pleno século XXI, vivemos ainda em um país cujas elites conservadoras querem decidir sobre nossos problemas sociais – Reforma Agrária, Reforma Política, Educação, Amazônia, Petróleo etc. -, impondo, ao seu modo, projetos que objetivam seus próprios interesses e não os da coletividade.
Como, então, eliminar os instintos de indivíduos que se apropriaram e continuam apropriando-se do poder político e econômico do país? De que forma a sociedade deveria se posicionar contra indivíduos que se enriquecem usurpando a riqueza da coletividade? Que meios devem ser utilizados para que esse joio seja extirpado do meio político partidário, do Congresso e do Senado?
Teresina, PI, 01 de agosto de 2010.

Frei Antonio Leandro da Silva