O que talvez não seja mostrado é a milenar presença africana nesse país realmente fascinante, primeiro ponto de parada dos migrantes que, há cerca de 50 mil anos deixaram o continente de origem da Humanidade, para povoar o mundo e, através de suas descendências, dar aos humanos a diversidade de aparências físicas que hoje ostentam.
No século V a.C, Heródoto, o cé­le­bre his­to­ria­dor gre­go, já afirmava a exis­tên­cia de ­duas gran­des “na­ções etío­pes”, uma na Áfri­ca, ou­tra em Sind, re­gião cor­res­pon­den­te aos ­atuais ter­ri­tó­rios da Í­ndia e do Paquistão. Essa in­for­ma­ção é corroborada no cé­le­bre re­la­to do via­jan­te ve­ne­zia­no Marco Polo (1254-1323), no qual lemos que os in­dia­nos de de­ter­mi­na­da re­gião re­pre­sen­ta­vam ­suas di­vin­da­des co­mo ne­gras e os de­mô­nios com uma al­vu­ra de ne­ve, afir­man­do que ­seus deuses e san­tos ­eram pre­tos.
Mais, ainda, em O Livro das Maravilhas, atribuído ao lendário viajante (Porto Alegre, L&PM, 2006, pág.236), lê-se que os habitantes do “reino de Coilum”, atual cidade de Quilon, na província de Querala, eram “todos de raça negra”.
Esses ne­gros in­dia­nos te­riam ido da Áfri­ca, le­va­dos co­mo es­cra­vos, pri­mei­ro por mer­ca­do­res ára­bes e de­pois por na­ve­ga­do­res por­tu­gue­ses, per­fa­zen­do uma ro­ta li­to­râ­nea que pas­sa­ria pe­los ­atuais Iêmen, Omã, Irã e Paquistão. Cativos, ­eles de­sem­pe­nha­vam vá­rias ta­re­fas, com ­maior des­ta­que pa­ra aque­las re­la­ti­vas às de sol­da­dos nos exér­ci­tos dos che­fes mu­çul­ma­nos, a par­tir do sé­cu­lo ­XIII. Por vol­ta de 1459, o rei mu­çul­ma­no de Bengala man­ti­nha um exér­ci­to de 8 mil es­cra­vos afri­ca­nos.
Em 1500 os por­tu­gue­ses ane­xa­ram os ter­ri­tó­rios in­dia­nos de Goa, Damão e Diu e trans­for­ma­ram dras­ti­ca­men­te a es­cra­vi­dão na Í­ndia: res­trin­gi­ram o de­sem­pe­nho de ­seus es­cra­vos a ta­re­fas me­no­res em ­seus ne­gó­cios, ca­sas e fa­zen­das; e as mu­lhe­res es­cra­vas pas­sa­ram a ser ­mais uti­li­za­das co­mo con­cu­bi­nas ou pros­ti­tu­tas. Com os in­gle­ses, a maio­ria foi re­pa­tria­da pa­ra a Áfri­ca e ­seus des­cen­den­tes fo­ram dei­xa­dos em bol­sões obs­cu­ros ao lon­go da cos­ta oci­den­tal, em par­ti­cu­lar nas re­giões cen­tral e sul.
Na Ín­dia ­atual, ­além dos po­vos ­afro-in­dia­nos que lá che­ga­ram ­mais re­cen­te­men­te, os drá­vi­das cons­ti­tuem uma das pro­vas des­sa pre­sen­ça. Localizados no Sul do ­país, e con­tan­do cer­ca de 100 mi­lhões de in­di­ví­duos, os drá­vi­das têm pe­le bem es­cu­ra e fei­ções ne­grói­des, ­além de cos­tu­mes, lín­gua e he­ran­ça cul­tu­ral que evi­den­ciam la­ços com as ci­vi­li­za­ções egíp­cia, cu­xi­ta e etío­pe. Construtores de im­por­tan­tes com­ple­xos ur­ba­nos co­mo os de Harappa e Mohenjo-Daro, ­mais tar­de fo­ram re­du­zi­dos à con­di­ção de es­cra­vos e co­lo­ca­dos no ­mais bai­xo pa­ta­mar do sis­te­ma de cas­tas ins­ti­tuí­do pe­los aria­nos. Até 1951, o ni­zam (so­be­ra­no) de Haiderabad man­te­ve um cor­po de guar­das de­no­mi­na­do “ca­va­la­ria afri­ca­na”.
E nes­sa re­gião, a zo­na de Siddi Risala con­ser­va, na mú­si­ca, na dan­ça e no uso de pa­la­vras da lín­gua suaí­le, for­tes tra­ços cul­tu­rais afri­ca­nos. Ade­mais, pes­qui­sas re­cen­tes des­co­bri­ram a exis­tên­cia de co­mu­ni­da­des ­afro-in­dia­nas em Karna­kata, Gujarat e Anhara Pradesh, e ­seus mem­bros se au­to­de­no­mi­nam “afri­­ca­nos” (con­for­me The African dias­po­ra in India, 1989).
Nas fotos que ilustram este texto (http:www.kamat.com/kalranga/people/siddi/htm), os visitantes do Lote vêem indianos do grupo Siddi, os quais certamente não terão a oportunidade de figurar na suntuosa telenovela da Rede Globo. Nem mesmo no “núcleo dos pobres”.
Reproduzido de Meu Lote – www.neilopes.blogger.com.br – com autorização do autor.

Nei Lopes