No século 13, Sundiata Keita lutou contra o tirano Suamoro Kantê, que dominava região localizada na Costa Oeste do continente africano. Da batalha de Kirina, como ficou conhecida, surgiu o poderoso Reino do Mali, do qual Sundiata foi o primeiro Imperador. Para que essa história pudesse chegar aos nossos dias, foi sendo ininterruptamente transmitida oralmente pelos griots, os guardiões da memória histórica nessa região da África.
As Diretrizes Curriculares Nacionais propostas pelo Ministério da Educação (MEC) para a implementação da Lei 10.639 instituem que o papel dos griots devem constar dos tópicos pertinentes ao ensino da história dos afrodescentes. Como explicou o professor senegalês Alan Pascal Kaly, em palestra realizada em novembro na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), os griots eram os únicos que não poderiam ser mortos durante a batalha de Kirina. Eles seguiam à frente do exército, cantando e tocando, ajudando na sua condução.
Foram os griots que chegaram ao povoado anunciando a vitória de Sundiata que, lembrou Kaly, também foi responsável por encontrar uma saída para que o seu exército poupasse a vida dos subjugados, promovendo, por meio de um pacto, a conciliação entre ganhadores e perdedores. Os griots puderam narrar então não apenas a vitória contra o opressor, como também o bom convívio instaurado por Sundiata ao fim do conflito armado.
Essa história remete aos versos do refrão de “Raiz de Glória”, faixa que abre o recém-lançado CD “Tem Cor Age”, do “Z´África Brasil”, um dos grupos de rap que trabalha com essa questão: “parabenizo o bom convívio / elimino o risco / griot traz vitórias / raiz de glória eu canto risos / porque é preciso / entrar na memória”. A letra não trata da formação do Reino do Mali. Pelo menos não exclusivamente. Trata de todas as terras que foram incomodadas. Entre elas, a periferia. Como na poesia “Periafricania”, de Gaspar, integrante do Z´África, “qualquer periferia, qualquer quebrada é um pedaço d´África”.
A letra de “Raiz de Glória” fala em “tempo de reparação”. As Diretrizes também: “é preciso valorizar a história e cultura de seu povo (negro), buscando reparar danos que se repetem há cinco séculos, à sua identidade e a seus direitos”. Para isso, propõe-se que sejam repensadas as relações étnico-raciais e os procedimentos de ensino no nosso país.
Cultura Afrobrasileira
O Rap feito por vários artistas traz referências importantes para trabalhar o que instituem as Diretrizes Curriculares. Racionais MC´s, Thaíde, Rappin Hood entre eles. No trabalho do Z´África Brasil, em especial, as matrizes étnicas que formaram o povo brasileiro são trazidas de maneira a repensar a nossa miscigenação, com o uso de termos como “negrígena” e “branquíndiafro”. “Em vez de falar da cultura num todo, falar na mistura, na origem. Falar da postura, do respeito, de como se chegar na quebrada. Isso é hiphopologia”, nas palavras de Gaspar.
A forma de “pensar e agir, ser hip hop”, ou “hiphopologia”, tem muito a trocar com o ensino brasileiro. A maioria dos jovens que vivem o Hip Hop – assim como o Z´África Brasil – anteciparam-se à Lei de 2003 que institui no Brasil o ensino de História e Cultura Afrobrasileira e Africana e às suas diretrizes. A valorização de oralidade, corporeidade e arte ao lado da escrita e da leitura é um dos pontos propostos no texto do MEC verificáveis nesse movimento cultural de rua, que tem o conhecimento entre os seus elementos constitutivos.
No trabalho do Z´África Brasil, formado pelos MC´s Funk Buia, Gaspar e Pitchô e pelo DJ Tano, samba, repente, maracatu e capoeira – entre outros gêneros musicais da Diáspora Africana – são mesclados às batidas produzidas eletronicamente. Essa soma é executada pelo DJ (Disc-Jóquei). Em cima dela, os MC´s (Mestres de Cerimônia) declamam sua poesia ou o seu “canto-falado”, formando o Rap (tradução do inglês para Ritmo e Poesia).
Hip Hop
O DJ e o MC são dois dos elementos que integram o movimento cultural de rua conhecido como Hip Hop, arte que se originou nos guetos de Nova Iorque do encontro entre jamaicanos, afronorte-americanos e latinos na década de 70 e que é consumida há mais de 20 anos aqui no Brasil, como lembra Bank´s, um dos entrevistados da matéria que integra a “família” Z´África Brasil/Elemental.
Ao lado desses elementos, estão o grafite (a arte gráfica que narra visualmente os temas tratados pela cultura Hip Hop diaspórica) e a dança de rua, compondo os quatro elementos, “integrados” pelo conhecimento. Como nas culturas tradicionais africanas, no Hip Hop, a palavra é de importância fundamental, a imagem gráfica constitui o seu alfabeto visual (na África, há a estatuária) e música e dança caminham junto com o conhecimento, vivido corporalmente.
Festa e arte na periferia
Em 2002, o palco era a rua. No ano seguinte, em cima de uma laje. O público crescia e, quando a iniciativa se tornou mais popular, o endereço virou o campo de futebol da Prefeitura de Taboão da Serra, região Sul da Grande São Paulo. Essa é a trajetória de uma iniciativa social abraçada pela comunidade do Jardim Leme e que, no ano passado, reuniu mais de dez mil pessoas – além de resultar na distribuição de sete mil brinquedos e três mil livros de história para as crianças.
Trata-se da festa da Ponte Preta, que ocorre todos os dias 12 de outubro, a partir de uma proposta dos integrantes do grupo Z´África Brasil. Neste mesmo dia, comemora-se também no Jardim Leme o aniversário da Ponte Preta, um dos 12 clubes de futebol da área. Não por acaso, “A Firma” – torcida organizada do time – também promove o evento. “A Firma” é sigla para Associação Favela, Igualdade e Respeito ao Menor e ao Adolescente e, como explica o MC Funk Buia, “foi criada pra falar o que tá acontecendo na quebrada, o que gente pode fazer pra melhorar, o que a gente não pode. E começou a fazer um trabalho de associação de juntar o pessoal, bater na porta da Prefeitura”.
Hoje, também estão na organização da festa a Prefeitura de Taboão e a Cooperativa de Poetas da Periferia (Cooperifa), outra ação social na periferia paulistana já com cinco anos de história (veja texto ao lado). Gaspar é um dos poetas da Cooperifa. Aos saraus, ele credita o aprendizado que lhe permitiu aperfeiçoar rima e métrica em sua poesia.
Além dessa festa, o grupo Z´África Brasil – que já participou de um festival de hip hop no acampamento Chico Mendes, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) – realiza outras iniciativas sócio-culturais, como as oficinas educativas com os elementos da cultura Hip Hop, como o projeto “Hip Hop Quilombola”.
Outra ação é a proposta de realizar uma coletânea com raps de outros grupos da “quebrada”, que têm dificuldades para gravar e, conseqüentemente, de atuar no cenário musical. Isso faz com que muitos deles se desmobilizem. O trabalho vai ser encampado pela Elemental, selo e editora do Z´África. “Tudo isso é uma estrutura que estamos aprendendo. A idéia da gente de se organizar (com o selo) foi no sentido de mudar isso, de que tudo ficava na mão dos outros”, informa o MC Gaspar. E, com essa articulação, ajudar a “mudar o rumo da história”, como na letra de “Tem Cor Age”.
Cooperifa, um “quilombo cultural”
Em outubro de 2001, surgia a Cooperativa de Poetas da Periferia (Cooperifa). Nessa época, os saraus de poesia eram realizados no Garajão, em Taboão da Serra. Foi de três anos pra cá que as reuniões semanais voltadas à declamação de poesias passaram a acontecer no Bar do Zé Batidão, no Jardim São Luís (zona sul de São Paulo). É lá que, às quartasfeiras, cerca de 300 pessoas se reúnem para declamar textos próprios e alheios. Nas palavras de Sérgio Vaz, um dos idealizadores do Sarau da Cooperifa ao lado de Marco Pezão, “é um quilombo cultural, onde as pessoas não precisam limpar o pé pra entrar. E não são tiradas por aquilo que pensam. É o movimento dos sem palco”.
Vigilantes, donas-de-casa, metalúrgicos… São muitas as ocupações dos que freqüentam a Cooperifa. Gente de várias as idades. E qual a importância da Cooperifa para quem faz rap? “A partir do momento que (os jovens) começam a falar poesia, passam a construir uma poesia mais elaborada. Não em relação à informação, que já é contundente, mas em relação à estética”, afirma Vaz, que acaba de lançar o livro “O colecionador de pedras”, inspirado nos saraus da Cooperativa premiada na categoria “Ciência e Conhecimento” em novembro naquele que é o mais importante evento de hip-hop da América Latina, o Hutuz (Rio de Janeiro).
A votação veio do público, comprovando que a parceria hiphop e poesia tem estrada longa. Vários grupos de rap que freqüentam a Cooperifa já lançaram CD. Na mesma pegada, rappers estão se lançando como escritores. É o caso de Dugueto Shabazz, MC do grupo Clãnordestino, que em setembro lançou “Notícias Jugulares: contos, crônicas e poesias dugueto”.
Para Vaz, a grande contribuição do sarau literário do bairro vizinho ao Capão Redondo é para a auto-estima de seus freqüentadores. Isso é atestado pelo surgimento de outros saraus na região. Entre eles, o sarau do Binho, que acontece às segundas-feiras no bairro do Campo Limpo. Vaz, no entanto, alerta para a banalização dos saraus literários por quem se utiliza dessa nomenclatura em eventos com intenção de “chamar público”. “O sarau da Cooperifa é voltado para a poesia, não é festa. Tem boy que quer fazer festa e chama de sarau, porque virou forma de atrair o povo. Da Cooperifa já saíram um livro com escritos de 43 autores do Sarau (“Rastilho de pólvora – antologia poética do sarau da Cooperifa, 2005) e o CD “Sarau da Cooperifa”, pelo Instituto Cultural Itaú, que conta com a participação de 26 poetas.
*Este texto foi originalmente publicado no Jornal Brasil de Fato

Foto do Grupo “Z’África Brasil” – Texto: Liliane Braga – Foto: Marcos Hermes