O episódio de prisão arbitrária ocorrido com o psicólogo, vendedor de roupas e figurante de novela, Vinícius Romão, é a prova material de que vivemos em um país racista. Para a sorte deste jovem carioca, sua rede de amigos e parentes moveu-se com agilidade, pressionando o aparelho policial de modo a conseguir sua liberdade. Dezenas de casos semelhantes pululam no sistema prisional brasileiro sem a mesma atenção. Deste crime de Estado, retira-se a oportunidade de debatermos abertamente o problema do racismo estruturante.

O tema da dominação racial remonta à estratégia da supremacia, onde ao mesmo tempo em que se coloca parte considerável da população brasileira sob suspeita, integra-se – de forma subordinada – a esta maioria. A história nos traz exemplos como: a política de Estado visando à europeização da cidadania; a negação do debate sobre os horrores da escravidão; o antigo crime de vadiagem; até chegarmos a situações estruturantes como a violência policial que atravessa o aparelho de segurança das metrópoles, sendo a polícia fluminense campeã neste quesito.

Através do mito da democracia racial, reproduzimos o estilo assimilado do colonialismo lusitano na África, sem admitir o debate básico de reparações ou promoção da igualdade racial. O senso comum supõe que se somos todos iguais, porque “discriminar ou subestimar” os afro-descendentes com a política de cotas?  

Como diz o antropólogo e professor universitário Kabengele Munanga (em entrevista para o portal da revista Fórum, em 09/02/2012), o racismo brasileiro “é um crime perfeito”. Como o modelo não é explícito, logo o tema não vem à tona, necessitando de janelas de visibilidade para este debate. A cada tragédia divulgada, eis a chance.

No cotidiano, seguimos com mais do mesmo: o aparelho de Estado discriminando; a elite dirigente produz alguns paliativos; a classe dominante contenta-se em ser a periferia do Ocidente; já as matrizes culturais brasileiras, majoritariamente de origem africana, são apresentadas como “nacionais”. Isto sem falar na perseguição covarde contra as religiões de matriz africana, genocídio cultural promovido por “pastores” que são base de apoio da bancada neopentecostal.  

Temos a segunda maior população de origem africana do planeta e não por acaso promovemos uma manifestação cultural da envergadura do carnaval. Mas, enquanto o país não condenar a vergonha do passado escravagista e genocida, episódios absurdos como o de Vinícius Romão – e dezenas de outros – irão se repetir.

 

 

Bruno Lima Rocha