Estamos diante do pior tipo de ódio, àquele que mistura condição social (ela é uma assentada de reforma agrária), cor da pele (ela é uma negra), sexo (ela é uma mulher), e por fim o preconceito religioso (ela é do Candomblé).
A um só tempo, a polícia do Estado da Bahia afrontou todas as pessoas do Axé, todos os Afro-descendentes, todos os Assentados de Reforma Agrária, todas as mulheres e todos os cidadãos de bem.
Penso que houve íntegro desrespeito aos direitos humanos, com flagrante ofensa, não somente ao Princípio da dignidade da Pessoa Humana que não tem limites de cor, raça, sexo ou crença, mas também a garantia constitucional de que ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante, sobretudo, com a certeza de que a liberdade de Consciência e de Crença e a proteção aos locais de culto e suas liturgias serão preservadas, sem qualquer intolerância religiosa.
Assim, o crime de racismo foi a pedra de toque dos Agentes Estatais, pessoas que demonstraram ser desprovidas de qualquer generosidade ou valores, isto porque, é uma prática discriminatória racial, independente da cor da pele, sendo que qualquer atitude discriminatória ou apologia preconceituosa contra uma determinada parcela de seres humanos, de forma coletiva, sem nenhuma individualização da vítima, pode ser considerada crime de racismo
Embora Bernadete, tenha sofrido o crime de tortura, tenha sofrido violência contra a mulher, tenha sido ferida na sua honra subjetiva e objetiva e tenha tido vilipendiado todos os sentimentos religiosos que possui, inclusive ao Orixá que a protege, Oxóssi, que é uma das Divindades do Candomblé, o sr. da Floresta, o Deus caçador.
No caso concreto, não houve a individualização da vítima, porque todos os crimes perpetrados foram contra a coletividade, contra àquela parcela de seres humanos que acredita que os Deuses podem baixar entre os homens: Nós da religião Africana.
Houve ofensa ao Direito Divino, Democrático e Constitucional de acreditar na força do trovão, dos mares, do vento e da chuva…sentimento que não será compensado por meio de nenhum processo judicial muito menos na eternidade.
Quem tem Santo é quem entende!
*O artigo foi escrito originalmente para ser publicado pelo Jornal Correio da Bahia.

Adalyce Pereira Gonçalves