Li alguns posts nos quais a informação era a de um ladrão adolescente amarrado a um poste. Mas não é nada disso. Parece que a qualificação como "ladrão" se deve a um "detalhe particular" que o rapaz compartilha com muitos brasileiros.

O mesmo detalhe que tem levado a imprensa e a opinião pública a chamar rolezinho de "arrastão". O mesmo detalhe que faz com que algumas marcas excessivamente pretensiosas queiram excluir da sua clientela certo perfil de consumidores.

A cor da pele, o saldo do banco, o local de moradia e a família de origem são grandes impedimentos para esses meninos que são amarrados nos postes, assados em "microondas", emburreccidos nas escolas públicas, aliciados pela vagabundagem e desprezados pelos RH. Mas isso é apenas continuidade. Os pais, os avós, os bisavós, os tataravós também passaram por isso. 

A foto de um menino amarrado pelo pescoço num poste, no Flamengo, é uma grande lição. Mostra que os filhos de hoje continuam fazendo o que os seus tataravós faziam. Pensam e agem da mesma forma. Nas aparências nosso país, essa província, mudou. Mas a essência continua a mesma.

Que vivam Zumbi, Manoel Congo, Marianna Crioula, Carucango, Luísa Mahin e tantos outros que um dia foram acorrentados, supliciados e marginalizados.

Que esse menino viva e consiga encontrar seu caminho na vida com a dignidade que a opinião pública e seus torturadores negaram.

Uma parte da sociedade que nega dignidade a um ser humano não o faz por vingança, pavor, ódio ou desprezo; nega por dissimulação. Não pode conceder o que não tem. E nem poderia conceder.

Dignidade é um direito sagrado que algumas pessoas perdem, outras a jogam no lixo e outras, ainda, não perdem a oportunidade de macular ou destruir a alheia. Mas todos nascemos com ela, da mesma forma como nascemos com o sangue vermelho que rega peles claras e escuras.

Achar que a cor da pele aumenta a dignidade de alguém é um problema cultural que permanece terrível, desde antes de nossos tataravós. Quando essas pessoas vão se libertar desse terrorismo de 500 anos?

Sandro Cajé