A Bíblia tem alguns textos que me deixam intrigado quando colocados no contexto histórico brasileiro. Este texto é muito interessante, e ao mesmo tempo preocupante se o situarmos dentro da realidade brasileira.
O texto é a citação do primeiro homicídio na história humana. Caim conduz seu irmão ao campo e ali, de maneira traiçoeira, covarde, o mata. No desenrolar do texto bíblico, vemos um diálogo revelador entre o homem Caim e Deus, o criador da humanidade.
Deus inquiriu Caim sobre a localização de seu irmão. Deus deseja saber: “onde está Abel?” Como pode ser isto? Um Deus que, em suma, é onisciente, ou seja, sabe de todas as coisas, como não sabia onde estava ou o que tinha acontecido com Abel? Obviamente, Deus não tinha perdido nenhum dos seus poderes ou deixado alguma de suas características naturais. O que o texto sugere é que Deus deseja fazer, neste diálogo, com que Caim perceba que o que tinha feito era tão catastrófico que havia causado estranheza no próprio Deus. Sim, porque matar um irmão causa repúdio a todo o universo e atinge a Deus. Caim por sua vez, demonstra total indiferença em relação à situação do seu irmão. Assim também acontece aos opressores, eles são indiferentes às dores dos oprimidos.
Entretanto, o que mais salta aos olhos neste texto é a reação de Deus e sua revelação surpreendente. Deus pergunta, como se não soubesse, o que Caim havia feito e ainda pede para que Caim escute com atenção, pois o sangue de Abel estava clamando da terra. Isso deveria nos deixar estupefatos: o sangue dos oprimidos clama diante de Deus!
Quando penso nesse texto e nessa expressão em particular: “Da terra o sangue do teu irmão está clamando”, levo a minha mente para aquilo que toda sociedade não pode esquecer, que são os quase 400 anos de escravidão no Brasil. Imagine a quantidade de sangue derramado nesta nação. Sangue de negros e negras que foram escravizados, molestados, violentados, e tudo só para suprir uma economia perversa que favorecia os poderosos da época. Quanto sangue derramado nas fazendas, nas grandes cidades para manutenção de um status quo que tinha escravos e escravas como motores? Quantas mulheres violentadas para satisfazerem homens violentos, incapazes da conquista feminina? Quantas crianças que sem esperança foram amordaçadas em suas fantasias e sonhos, agredidas e separadas de seus pais?
O que vejo no texto bíblico e que proponho como uma das bases para políticas de ações afirmativas é que Deus está ouvindo o clamor do sangue, e muito sangue, que foi derramado nesta nação. Pois se Deus ouviu o clamor do sangue de um homem, certamente, ouviu o clamor dos nossos ancestrais que sofreram os horrores de uma escravidão sangrenta.
Mas a Bíblia, na fala de Deus, traz à sociedade brasileira uma responsabilidade. Deus diz a todos nós hoje: “Escute”. Sim, como disse para Caim, diz para a sociedade, governos, políticos, religiosos, ateus, homens e mulheres: “Escutem o clamor do sangue dos oprimidos, dos escravizados, dos vendidos como coisa. Escutem o clamor daqueles que morreram no passado por causa da maldade dos homens que detinham o poder. Sim, vocês são os responsáveis. Não adianta serem indiferentes dizendo: ‘Não sabemos onde eles estão. ’ Vocês sabem o que fizeram e precisam reparar com ações que amenizem o clamor de todo um povo”.
Às vezes, fico a pensar se o Brasil não está sob o juízo de Deus. E Deus só vai derramar o Seu perdão neste país quando houver reparação ao povo negro que antes sofreu a escravidão e agora, a exclusão social. O juízo de Deus será aplacado quando junto com pedido de perdão, houver justiça reparadora à população negra do Brasil.

Pr. Marco Davi de Oliveira