Alguém aí sabe quantas linhas os jornalões como Folha de S. Paulo, Estadão, Globo, Jornal do Brasil e outros, dedicaram a 1ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, realizada em Brasília com a participação de mais de mil delegados – negros, indígenas, judeus, árabes, palestinos, ciganos e delegações de vários países da África, América Latina e Caribe? Eu respondo: NENHUMA.
A invisibilidade a que fomos condenados – já houve quem dissesse que nos escondem até mesmo quando nos mostram – faz parte da perversa modalidade de racismo que se pratica do lado debaixo do Equador e é a outra face da moeda da exclusão a que metade da população brasileira – pobre e negra – vem sendo historicamente relegada.
O Plano de Comunicação de Durban já havia tocado no assunto, ao “acolher a contribuição positiva feita pelas novas tecnologias de informação e comunicação, incluindo a Internet, no combate ao racismo através de uma comunicação rápida e de grande alcance”. Igualmente propõe “o incentivo a representação da diversidade da sociedade entre o pessoal das organizações de mídia e das novas formas de informação e tecnologias de comunicação, tais como a Internet, através da promoção adequada da representação de diferentes segmentos dentro das sociedades em todos os níveis de sua estrutura organizacional.”.
Por uma variada gama de razões não demos muita importância a isso e tratamos à comunicação como supérfluo, perfumaria. O resultado é que, por ora, estamos perdendo a batalha. A Rede, ao invés de um poderoso instrumento de combate à desigualdade racial, tornou-se campo fértil para o racismo mais virulento, que desfila sua arrogância raivosa em sites com títulos sugestivos da sua ideologia e do culto à intolerância – “Eu Odeio Negros”, “Eu odeio pretos”, e coisas desse nível. Nós já fomos alvos e vítimas desse tipo de gente quando, há menos de um mês conseguiram retirar a Afropress do ar por mais de uma semana.
Nossa proposta é ocupar esse vazio. Fazer jornalismo sério, crítico e ético, comprometido com a verdade e com a Causa do combate ao Racismo. Acreditamos que é possível, a partir da Internet, influenciar as demais mídias – Rádio, Jornal e TV – e temos, na prática, demonstrado isso, quando um tema que começou a ser levantado por nós – a onda de racismo na Rede – foi alvo de matéria com entrevista do promotor Christiano Jorge Santos, do Ministério Público de S. Paulo, no New York Times.
Queremos, no espírito do Plano de Comunicação de Durban, com a ênfase necessária à população negra, sobrevivente do escravismo e alvo cotidiano do racismo que provoca seqüelas e mata, nos abrir para os povos indígenas, estes sobreviventes do genocídio que continua a ser praticado diuturnamente. Também teremos os olhos bem abertos para as peculiaridades dos povos marcados por preconceitos e estigmas seculares, como judeus, ciganos, palestinos, árabes.
Fazer jornalismo, mantendo uma postura crítica, não é tarefa fácil, nem tranqüila. Muito menos no terreno minado em que pisamos. Porém, temos a coragem pra ousar. O silêncio seria mais cômodo. O jornalismo/panfleto ou correia de transmissão de organizações partidárias, seria mais cômodo, renderia mais dividendos, quem sabe, mais glória. Esse, entretanto, não é o nosso caminho: deixemos aos mortos à paz dos cemitérios.
A primeira polêmica que estamos abertos a enfrentar está relacionada às dificuldades do Movimento Negro brasileiro – o mais antigo movimento de luta por justiça e liberdade no país – de unir-se, até mesmo em torno de uma única data para a Marcha Zumbi + 10 – a maior manifestação da população negra por Cidadania e Direitos, agendada para este início de século.
Vamos nos abrir para este debate. Ouvir as distintas posições – quem é contra, quem é a favor, quem ainda está se informando; exercitar a prática democrática de amplificar a voz a quem a mídia convencional cala e, quando nota, é para estigmatizar com estereótipos. Em poucos dias, haverá uma Tribuna do Leitor, espaço plural para a livre expressão e manifestação das opiniões. Temos a nossa própria e a manifestaremos no momento oportuno, neste espaço editorial.
Contudo, no momento, 80 milhões de afrodescendentes – a maioria dos quais não milita em Partidos, nem organizações, não participou jamais de nenhuma manifestação, vê com certa distância e reticência os discursos dos “politizados”, desconfia de certas práticas – quer ter algo que vem faltando: informação.
A mais imparcial possível. Ninguém está fazendo o culto da objetividade absoluta, muito menos da neutralidade ou do silêncio conveniente – este mesmo, recém adotado por certos intelectuais, alguns dos quais, calam, não por que não tenham o que dizer, mas, por pura covardia e cumplicidade com o malfeito.
Informar é ouvir os dois lados; é abster-se de opinar, mesmo quando o sofisma e a fraude saltam aos olhos; é deixar que outros tenham a possibilidade de chegar a esta mesma conclusão, mesmo tendo de fazer escala em ilusões e equívocos. É acima de tudo: deixar que uns vejam com os seus próprios olhos, aquilo que, para outros, parece óbvio. É um risco? Sim, é um risco. Pode-se fortalecer os que acham que ganham só por que tem capacidade de gritar mais alto? Sim, é possível. Mas, este é o risco de quem acredita que o Brasil só pode avançar para uma sociedade mais justa, com oportunidades para todos, sem Racismo e sem discriminações de quaisquer espécies, quando a maioria dos cidadãos e cidadãs adquirir a capacidade de decidir com autonomia, liberdade e discernimento.