Meu caro Amigo,

Li o seu editorial sobre Mandela. Foi provavelmente o melhor editorial/tributo de entre os vários que li sobre o gigante que foi o ex-presidente sul-africano. A mim também enojou-me o círculo de cinismo e hipocrisia que se montou em redor do seu passamento físico, principalmente, por parte daqueles que vetavam sua libertação ou silenciaram com a sua prisão.

Pretendeu-se tornar o grande revolucionário que foi Mandela numa espécie de celebridade maior reduzida apenas ao humanismo pacifista. Pretendeu-se, no fundo, roubar Mandela a quem ele realmente pertence: os revolucionários, os explorados, os oprimidos, os justos e solidários de todo o mundo. A grande mídia ocidental, nos seus editoriais e opiniões, não explicaram as razões pelas quais Raul Castro foi um dos poucos líderes privilegiados escolhidos para discursar no grande cerimonial público de adeus a Nelson Mandela.

Omitiu-se a grande admiração, amizade e respeito, mútuos, que tinha por Fidel Castro (a quem tratava por irmão e camarada) por Che Guevara e pela Revolução Cubana que em muito o inspiraram. Omitiu-se que a sua libertação teve como fator decisivo, para além da resistência do ANC e do povo negro sul-africano, a epopéica intervenção cubana em Angola (Agostinho Neto dizia na altura que ''Na Namíbia e na África do Sul está a continuação da nossa luta''), fundamental para a manutenção da soberania e integridade territorial angolanas e que culminou na independência da Namíbia e no fim do odioso regime do apartheid.

Uma epopéia em que milhares de combatentes angolanos e cubanos deram as suas vidas. Omitiu-se que Angola e Cuba foram dos primeiros países que ele visitou assim que liberto e que nenhum líder mundial teve recepção tão calorosa no parlamento sul-africano do pós-apartheid, como Fidel Castro.

Omitiu-se que ele se manteve sempre fiel aos que foram amigos e apoiadores verdadeiros na luta contra o apartheid, como Kadafi. Tanto respeito e admiração, tanta declaração de amor por Mandela, pelos seus exemplos de humanismo, tolerância, diálogo e reconciliação, por parte dos donos do mundo!

Mas Mandela, para eles, contou zero quando da invasão e destruição do Iraque, da Líbia etc. Eles roubam-nos tudo. Desde a nossa carne passando pela nossa cultura e, agora, os nossos heróis. Perante esse quadro o melhor tributo seria mesmo um silêncio por Mandela.

Grande Abraço,

Alberto

Alberto Castro