Desde a semana anterior, outros segmentos da mídia nacional vinham fazendo o mesmo. Via internet, eu pude ler a matéria intitulada “As falácias da política das cotas raciais na análise de Ali Kamel”, a partir da chamada: “Contra o mito da ‘nação bicolor’”, assinada por Jerônimo Teixeira, cuja ilustração era o belíssimo quadro de Tarsila do Amaral – Os operários -, que registra o nosso processo de mestiçagem. Afinal, o diretor de jornalismo da Rede Globo, cujo nome aparece nos créditos do Jornal Nacional, todos os dias, é notícia!
O entrevistador, o jornalista d´O Estado de Minas, João Paulo, não poupou elogios ao autor: “Jornalista com formação em ciências sociais, Ali Kamel (…) entrou no debate com série de artigos sobre a questão das cotas nas universidades. O olhar do repórter veio, assim, marcado pela sensibilidade do pesquisador, que viu nas estatísticas brasileiras uma manipulação niveladora, ao impedir que se desse visibilidade às gradações de cores da população”. Na foto, um homem jovem e bonito! Pude, então, conhecer o rosto do responsável por tantos textos sobre o tema tão polêmico.
O efeito causado não é incomum: as idéias e a escrita me fizeram imaginar outra aparência. Há anos, um militante negro, quando teve a oportunidade de me conhecer, depois de ler um livro que escrevi sobre relações raciais no Brasil, disse ter pensado que eu era uma mulher de “dois metros de altura, por dois de largura”. Havia decepção no tom de sua voz, por estar frente a frente com uma pessoa miúda… Achei aquela reação muito divertida.
Para as pessoas menos familiarizadas com o conhecimento acumulado sobre as relações entre negros e brancos no país, não importando o retrato do escritor, tem sido poderoso o efeito dos argumentos de Ali Kamel. Dificilmente haverá desacordo com as suas idéias, expostas com competência em artigos claros, objetivos, sem muitos adjetivos, como recomenda ser a escrita jornalística. Sua eficácia é maior junto ao público que gosta de reconhecer nesses textos sua própria opinião.
O senso comum não necessariamente professa idéias erradas ou equivocadas. Possui um núcleo de bom senso, mas é marcado pela heterogeneidade. Falta-lhe, em geral, a capacidade de colocar sob crítica os seus próprios argumentos; de fazer um acerto de contas com a própria formação, que tem natureza histórica. Falta-lhe a percepção da complexidade da realidade social.
Na entrevista, ao comparar negros e brancos com o mesmo número de anos de estudo, Ali Kamel indaga: “(…) mas quem teve o melhor ensino? Os brancos, mas não por racismo, e sim por renda”. O pesquisador sensível esqueceu de novamente questionar-se porque a renda de negros é menor do que a dos brancos. Imaginar que apenas as estatísticas possam comprovar a existência do racismo é um equívoco já apontado por especialistas.
Como “árabe-descendente” Ali Kamel deve conhecer e até mesmo ter experimentado, de passagem ou não, o que sua herança provoca nos países europeus e, mais do que nunca, nos Estados Unidos. Ali as desigualdades são também flagrantes e os números não irão evidenciar que se trata de manifestações de racismo. O autor partilha a mesma condição com meus filhos, descendentes de árabes, por parte de pai – mas também produto da mestiçagem negra em linha materna, como não raro acontece no Brasil – que, na Europa, em tenra idade, sentiram a força do que as estatísticas são incapazes de medir. Uma divagação: não seria o nosso “racismo cordial”, capaz de minimizar ou liquidar os riscos da ‘nação bicolor’?
Por vezes é salutar tentar compreender o que acontece em outros países, como se propõe Ali Kamel. Entretanto, isso deve ser feito para além de questões tão pontuais como a política de cotas, que não é panacéia. Há muito já se discutiu que as relações entre negros e brancos no Brasil são questão social, hegemônica numa sociedade de classes, e (grifo meu) questão de “raça”, no tocante ao construto social balizado no fenótipo. Em outros termos, a linha de classe se confunde com a linha de cor neste país. Nada de “ou isto ou aquilo”, numa forma positivista de pensar, que não cabe nem mesmo para quem tem as credenciais da Globo, e só aceitável no poema dedicado ao público infantil escrito por Cecília Meireles.

Ana Lúcia Valente