Preso, há décadas, a uma agenda do início dos anos 80 no século passado, o movimento negro chapa branca – aquele que vive sob à sombra de partidos e Governos, Fundação Ford e Academia – se desconectou de vez da realidade. Criou uma espécie de realidade paralela e se "move" pela inércia.

No momento em que o Brasil vive a mais grave e aguda crise da sua história recente (é o que todos, rigorosamente todos, estão dizendo), com a perda do emprego e fechamento de postos de trabalho, inflação crescente fugindo ao controle, um ajuste fiscal que, na verdade, é um arrocho sobre os mais pobres (os negros, segundo todos os indicadores), o que mais se vê e ouve são anúncios de marchas e contra-marchas.

Marcha das Mulheres, marcha dos homens, marcha disso, marcha daquilo. Algum desavisado poderá pensar: claro, marcha para exigir o fim do arrocho fiscal; marcha para exigir que o Estado pare com a matança dos jovens e puna os responsáveis pelos crimes; marcha contra a política econômica que penaliza justamente os mais pobres em benefício dos grande banqueiros que continuam com sua saúde financeira em dia e passam muito bem obrigado; marcha para exigir a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte para zerar o jogo e colocar na ordem do dia as reformas que vem sendo adiadas desde a Abolição por uma classe dominante herdeira da Casa Grande.

Nada disso. Lançados ao território do simbólico, o único em que sua presença é tolerada, os negros brasileiros, representados por um sem número de “organizações”, “conselhos”, “entidades”, não se manifestam sobre temas que dizem respeito à realidade do dia a dia do povo brasileiro. Tampouco tem algo a dizer a respeito da crise que nos afeta a todos.

Seus intelectuais e suas autoproclamadas lideranças – na sua esmagadora maioria reféns de interesses corporativos ou agendas dos partidos a quem servem sem objeções de olho em algum carguinho que lhes garanta vida menos dura – muito menos.

Mundo paralelo

Vivem numa espécie de realidade paralela, um mundo da fantasia em que dizem combater o racismo (assim mesmo no abstrato) – um dos elementos estruturantes da desigualdade e da miséria social brasileiras. Com se essa postura fosse algo separado da vida real – alguma coisa parecida com a pessoa que perguntada numa consulta pelo médico se bebe ou fuma, responde: “só socialmente”.

Basta a manifestação esporádica de boas intenções, cumprir a agenda de eventos que – uma semana, sim, outra também -, lhes ocupa o tempo, e pronto. “Socialmente…”

Diante das manifestações de intolerância e ódio, cada vez mais frequentes nesses tempos de ódio e intolerâncias explícitas, respondem pelas redes sociais ecoando a campanha “fofa” da Globo. “Somos todos Maju!”, repetem William Bonner no Jornal Nacional, e vão dormir com a consciência tranquila. Ficar no plano do simbólico basta, porque também para o racismo brasileiro, negro não é uma pessoa real com virtudes e defeitos, com necessidades e demandas. Não passa de um símbolo (inclusive, quando colocado na posição de vítima), incômodo, claro, daquilo que somos. Seu espaço próprio é, via de regra, nos campos do futebol, no carnaval, na roda de samba, no lúdico, no entretenimento.

A velha geração de negros acomodada nos carguinhos ou na fama que alguns adquiriram à custa de retórica em ambientes acadêmicos, é hoje acompanhada por uma juventude despolitizada e igualmente alienada. Nas redes sociais, o que se vê de mais contundente são palavras de ordem como “negro é lindo!”, ou então, “Meu cabelo é bom, o racismo é que é ruim!” e outras bobagens do gênero. Ou ainda, aquela clássica reação que identifica em tudo a presença de “racismo”. Tudo é racismo, assim mesmo, no abstrato. Não existem atores, nem sujeitos, apenas a vítima – do racismo, claro. Como se tudo não passasse de uma abstração.

Alguns chegam a protestar com ar de perplexos diante de manifestações explícitas: “…e ainda dizem que não há racismo, no Brasil!” – assim mesmo com o ar apalermado de quem descobriu a pólvora ou inventou a roda.

Os mais radicais (o que se poderia chamar de vertente revolucionária do antirracismo simbólico), gritam como se estivessem nas barricadas: “Somos contra o genocídio da população negra!”. Alguém se diria a favor?!!!

Alienação

Um marciano que baixasse à terra imaginaria que, no Brasil, os negros estão sendo caçados e mortos nas ruas por brancos homicidas como aconteceu no início do século XX em algumas principais cidades do sul dos Estados Unidos. 

Quem é que vai explicar a tais militantes que o conceito de genocídio técnicamente é inaplicável aos negros brasileiros, e essa bandeira – se tem alguma serventia – só serve como palavra de ordem para ser acenada em manifestações, cujo quórum, não encheria uma kombi? Ou, claro, para extravasar uma radicalidade retórica, desmobilizadora, puro e simples exercício de um grito de resistência que supõe ação, mas é inércia.

Primeiro: genocídio é a matança, a extinção de um grupo étnico (tutsis x hutus em Ruanda, por exemplo); segundo: no Brasil os negros não são um grupo étnico determinado, uma vez que nossos antepassados pertenciam a diferentes culturas e habitavam distintas regiões do continente africano, e aqui se misturaram aos milhões de indígenas de nações e culturas igualmente distintas. Somos o resultado do estupro sistemático de mulheres negras e indígenas praticados por séculos no processo da colonização; terceiro: o fato de em cada 3 jovens mortos, 2 serem negros, é a consequência direta da natureza de uma República em que o Estado e o seu braço armado – a Polícia – é a mesma que se criou no período da escravidão para cassar negros fugidos e castigá-los nos pelourinhos, nas praças públicas. Não porque esteja se praticando genocídio.

Com o mundo e o Brasil à beira do abismo, os autoproclamados representantes da parte que mais sofre com inflação, perda de emprego e arrocho, reagem marchando e com palavras de ordem genéricas, quase abstratas, que passam ao largo dos problemas reais do dia a dia.

Os acontecimentos que hoje ocupam a agenda desse antirracismo simbólico são a Marcha das Mulheres marcada para novembro, que começou a ser preparada no ano passado quando a atual presidente Dilma Rousseff se lançava candidata à reeleição. Dilma ganhou, o Governo começou e acabou e só “Carolina não viu”: a Marcha das Mulheres Negras à Brasília segue firme e agora se anuncia em pré-marchas como a realizada no mês passado no Rio.

Qual a pauta? Não se sabe. Que reivindicações levarão à Brasília e com quem se reunirão e para que? Não se sabe, nem se advinha. O  que se sabe é que marcharão, como de outras vezes. Mais um evento para fotos e selfies que certamente inundarão as redes sociais.

Na próxima semana, dia 12/08, outro grupo marchará para Brasília para pedir a “implementação da Lei 10.639/2010”, que, sancionada pelo ex-presidente Lula, vem sendo solenemente ignorada pelos sistemas de ensino.

Lançada a idéia por ativistas capixabas a marcha pedirá a “implementação” da Lei – que na verdade é uma emenda a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Destaque-se a estranha preferência de certos ativistas por palavras mágicas e ou supostamente radicais: “implementação” e “genocídio” são apenas, as duas de maior ibope. Há outras.

Ora, implementação quer dizer execução e, nesse caso, cumprimento, e se aplicaria a políticas, a programas, a ações em estudo. Nunca a uma Lei. Lei se cumpre ou não se cumpre. E no caso dessa emenda a LDB, que obriga a inclusão do Ensino e da Cultura afro-brasileira nos currículos das escolas de ensino fundamental e médio, simplesmente, não vem sendo cumprida.

Ao invés de marcha à Brasília, acione-se os órgãos do Estado para responsabilizá-los pelo não cumprimento da Lei. Arranque-se de vez a máscara dessa República precária em que “há leis que pegam e há leis que não pegam” – essas últimas, invariavelmente, as que, se aplicadas, significariam conquistas do andar de baixo. Simples, assim.

Terreno do simbólico

Mas, isso a ninguém ocorre porque para esse tipo de militante do antirracismo simbólico, a ação deve ficar apenas, claro, no terreno do simbólico. Deve ser para não incomodar muito o andar de cima, é legítimo supor.

Em novembro, Mês da Consciência, outras marchas ocorrerão por todo o país. Não há nem sinal em qualquer delas, de que sua pauta tenha pé na realidade. Ficarão como sempre no terreno do antirracismo simbólico, na afirmação da presença, como se minorias fôssemos, e não representássemos a imensa maioria da população brasileira – 50,7% de acordo com o Censo do IBGE 2010.

Com esse tipo de militante, o sistema racista brasileiro, parte do sistema de exploração capitalista perverso que vive em crises cuja conta sempre é apresentada aos mais pobres, na sua imensa maioria negros, não precisa realmente se preocupar. 

Esse tipo de antirracismo “fofo”, como diria o meu colega jornalista Rosenildo Ferreira, é o contraponto, é o outro lado do sistema racista. O sistema precisa dele para se manter intacto e ganhar mais alguns séculos de sobrevida.

Dojival Vieira