Foi também em Dakar que aconteceu a sua primeira edição ainda no ano de 1966, no momento histórico de surgimento de um País independente, com a voz de uma nova África, dona do seu destino. O festival sempre foi palco de diversas manifestações, não só artísticas mas políticas, foi lá que Abdias do Nascimento denunciou o racismo velado do Brasil, a farsa da democracia racial.
O FESMAN cumpre um papel fundamental na luta dos Africanos na sua diáspora, por isso essa 3° edição tem como tema o Renascimento Africano, onde o debate passa pelo Panafricanismo de uma África unida não só no seu continente mas em toda sua diáspora, por isso tem o Brasil como seu convidado de hora.
Desde de meados de 2008 a quando foi anunciado a primeira data do Festival, a sociedade civil brasileira entendo a importância do evento não ficou parada. Foram organizados diversas reuniões e debates em todo o Brasil, e formados diversos Comitês Pró FESMAN em vários Estados, a partir das primeiras iniciativas do movimento negro de Minas Gerais e da Bahia. Aqui na Bahia tivemos inscritos mais de 100 entidades políticas e culturais e pelo menos 120 pessoas entre estudantes, artistas e intelectuais engajados.
Durante a II Conferencia Nacional de Promoção da Igualdade Racial – CONAPIR, em Brasília, foi fundado o Comitê Nacional Pró – FESMAN, do qual participaram 18 Estados. No dia 25 de maio de 2009 no lançamento do Festival em Salvador se fez presente na mesa de abertura, ao lado do Presidente Lula e do Presidente do Senegal Abdulaye Wade, representação deste movimento.
Foram criados dois comitês por decreto governamental, um deles de caráter administrativo de caráter interno do Ministério da Cultura e outro de caráter Interministerial envolvendo outros ministérios ambos comitês destinados a organizar o Festival junto com o Senegal onde o Presidente Lula orientou no lançamento que tivesse um assento da sociedade civil, o que nunca aconteceu, pelo menos no que se refere a única articulação organizada o Comitê Nacional Pró FESMAN, o qual nunca foi convidado a estar nas reuniões.
No dia 10/12/2010 embarcou para Dakar – Senegal a delegação brasileira rumo ao III° FESMAN. Segundo a Fundação Palmares foram 326 pessoas. Entre artistas e intelectuais, estavam presentes Carlinhos Brown, Chico César, Margareth Menezes e a Escola de Samba Império Serrano.
Para além de questionar a representatividade da delegação, o que intriga a todos e todas é o desconhecimento sobre os critérios básicos para formação desta delegação.
O Comitê Nacional Pró FESMAN, desde a sua fundação enviou várias correspondências a então gestora do FESMAN no Brasil, a Fundação Palmares, atenciosamente ao seu Presidente Zulú Araújo, informando dos seus debates e organizações e, acima de tudo, propondo um debate do Renascimento Africano, não só na perspectiva de Dakar, mas no sentido de fazer esse debate aqui no Brasil.
Tivemos algumas reuniões públicas com o próprio Zulú para estabelecer esse debate, e nada foi encaminhado, alem de estabelecer contato direto com a organização do Festival em Dakar e ter várias reuniões com o Embaixador do Senegal no Brasil e o que vemos hoje é uma delegação escolhida a dedo, sem quaisquer debate ou meio democrático de escolha indo contra toda filosofia do Governo Lula.
Qual o objetivo central da atual gestão da Fundação Palmares com essa delegação?
Porque durante todo o período de organização do Festival a Palmares sempre fez questão de excluir a sociedade civil ?
São essas e outras perguntas que o Presidente da Fundação Palmares tem a obrigação de que responder.
Como ilustração a este assunto e dar ciência da dimensão dos erros cometidos, vale dar conhecimento da matéria abaixo publicada no jornal Tribuna da Bahia:
” Tribuna da Bahia
Valdemir Santana
Boa Terra
Publicada: 20/12/2010 00:36| Atualizada: 20/12/2010 10:16
Gil, Brown e balé fora do festival
Carlinhos Brown foi escalado com todas as honras binacionais entre o Brasil e o Senegal para ser uma das estrelas do “Festival Mundial das Artes Negras” o Fesman, que já começou em Dacar. Mas o artista ficou de fora. Gilberto Gil também era convidado e não viajou.
E pior ainda coreógrafo Vavá Botelho, que já participou do evento em Dacar quando era uma das glorias da cultura mundial. Mas agora Vavá e ficou desapontado com os problemas para viajar. Deveria levar um elenco de 33 artistas do “Balé Folclórico da Bahia” e também ficou de fora.
A queixa geral é que os acordos entre o Brasil e o Senegal para a viagem e hospedagem dos artistas estão muito confusos e ninguém se entende. “Recebemos a informação pelo coreógrafo Zebrinha de que iríamos ficar hospedados na Embaixada do Brasil no Senegal. Mas em que lugar da embaixada ninguém sabia, seria que iríamos para os jardins?” desabafa Vavá Botelho que é o coreógrafo brasileiro com maior agenda de espetáculos de dança no exterior.
José Carlos Arandiba, que assina os trabalhos artísticos como Zebrinha, está em Dacar, mas ninguém consegue falar com ele, se queixa Botelho. Enquanto isto a mídia internacional noticia a participação brasileira como se quase tudo estivesse sob controle. “O Brasil é o convidado de honra da terceira edição do Festival Mundial das Artes Negras que começou em Dacar” diz, por exemplo, a manchete da edição em português, do site da RFI, a “Radio França Internacional”.
A Fundação Palmares, como o FESMAN e a SEPPIR, são luta do Povo negro, e não podem ser usadas como quintal de politicagens de um ou de outro grupo ou pessoal.
Nesse novo período pedimos a Palmares de novo para o Povo Negro!!!
*O título original do artigo é “O FESMAN de Zulú Araújo – Ainda Presidente da Fundação Cultural Palmares”

Cristiano Lima