O fracasso das políticas de branqueamento levadas a efeito no final do século XIX e início do século XX pelo Estado, já sob a República, a partir da visão de um racismo científico forjado na mentalidade positivista que até hoje se mantém na bandeira sob o lema “Ordem e Progresso”, não autoriza nem legitima o surgimento, em pleno século XXI, de políticas de "empretecimento", base de um racialismo tosco que vem ganhando espaço não apenas no debate acadêmico, mas na formação de uma nova geração de negros.

A ideia de que o país se divide em dois – de um lado, negros, de outro, não negros – a partir de indicadores sócio-econômicos, que colocam o primeiro grupo em desvantagem, é tão estúpida quanto nefasta.

Primeiro, porque é falsa, apesar do sucesso crescente que vem fazendo em plateias para quem esse reducionismo de botequim faz sentido por dar sentido de pertencimento, substituindo a contradição fundamental em qualquer sociedade capitalista: a contradição de classe.

Como é óbvio para todos os que não caíram no conto da sereia do racialismo, a sociedade brasileira é bem mais complexa: não se divide em negros, de um lado, não negros de outro. Mas, entre os que detém o capital, os meios de produção, os capitalistas, e os que só detém a força de trabalho, a grande e imensa massa de assalariados – constituída por negros e não negros – e na qual, estes últimos, são a parcela mais vulnerável por conta das mazelas de quase 400 anos de escravidão.

Para se chegar a essa conclusão não é necessário ser marxista, concordar em tudo com as teses de Marx ou com suas distintas reeleituras e interpretações. Até mesmo liberais, defensores do “deus” mercado – anti-marxistas por convicção e opção – concordam nesse ponto.

Segundo porque, ao substituir a contradição fundamental existente em qualquer sociedade de classe pela divisão das pessoas a partir da raça – o racialismo assume a sua verdadeira face: é reacionário e regressivo e contribui para lançar os milhões de negros, alvos e vítimas dessa modalidade de racismo por aqui praticado, em linha auxiliar do próprio sistema racista, peça fundamental – mas, não principal – do sistema de exploração capitalista.

Como se dá essa operação sofisticada em que os extremos se tocam e o inimigo se torna involuntáriamente parceiro? É simples: a divisão pelo pertencimento racial (raças, a ciência já demonstrou não existem, mas apenas uma, a raça humana) confunde milhões de pessoas e as joga imediatamente no lado oposto apenas pela condição biológica. Por não serem negras, são compelidas a assumir um lado – falso, diga-se, – simplesmente pelo fato de terem nascido com menos melanina, ignorando-se que, no Brasil, a despeito das políticas de branqueamento e da onda massiva de imigração (especialmente de italianos e alemães, no final do século XIX, início do século XX), a imensa maioria – mesmo as que tem pele clara – tem na sua árvore genealógica, brancos, negros e indígenas.

Os adeptos dessa nova modalidade de pureza racial (vejam até onde estamos chegando!), acabam de vocalizar sua visão míope e retrógrada pela boca do Frei David Raimundo dos Santos, da Educafro, ao defender mudanças na Lei de Cotas. A manifestação, amplamente divulgada pelor jornais, ocorreu em resposta a polêmica provocada pelo caso do médico Bruno Ouriques, que tem a pele clara mas, ainda assim, se inscreveu e passou pelo sistema de cotas no concurso do Instituto Nacional do Câncer, do Rio.

Para o controverso frade – que costuma se utilizar da batina da Ordem franciscana para dar mais peso as suas falas pautadas pela confusão política e ideológica que o caracteriza – é necessário que, nos concursos públicos o candidato, para ser declarado afrodescendente, doravante deva preencher duas condições: "ser visivelmente negro ou ter pais negros". “Jamais imaginávamos que haveria um branco sequer que desenterraria a bisavó para poder conseguir cotas”, lamenta, sem lhe ocorrer que o médico não precisaria “desenterrar sua bisavó”, uma vez que o critério adotado pelo IBGE é a autodeclaração.

Logo, se Ouriques se identifica e se sente negro, negro é e, portanto, legítimo o seu direito.

Contudo, a lógica que preside esse tipo de raciocínio – tortuoso e equivocado – é a seguinte: se o termômetro não acusa a febre no paciente, quebre-se o termômetro. Se a Lei de cotas – demanda que se inscreve como parte de políticas públicas de ação afirmativa, que não dispensam nem excluem as políticas universalistas, ao contrário, delas são complementares – atinge alguém com menos melanina, mude-se a Lei.

Nem é preciso lembrar a estupidez do uso do conceito afrodescendente como afirmação de identidade. Por esse conceito – obviamente importado do movimento negro norte-americano – negros brasileiros abdicam da condição majoritária de povo brasileiro, constituída na sua formação biológica, sociológica e histórica também por milhões de indígenas vítimas de um genocídio iniciado por aqui com a chegada de Cabral, e que sequer são lembrados como parte constitutiva do todo que somos, para se tornarem apenas, um “gueto”, “uma comunidade”. O homo sapiens surgiu na África há milhões de anos e sobre isso parece não haver dúvidas para qualquer pessoa razoavelmente bem informada. Afrodescendente, portanto, a humanidade é.

O controverso frei, contudo, como muitos dos seus adeptos, em um surto de racialismo delirante, agora pretende que a Lei decida quem é negro e quem não é negro. E, claro, serão os filtros dos seus olhos e dos seus seguidores, os responsáveis pela decisão, numa evidente usurpação do direito de cada um de se sentir e se assumir como é.

Sem fazer qualquer comparação, nem com personagens, nem com situações, nunca é demais lembrar: já vimos esse filme antes.

 

 

Dojival Vieira