Os estudiosos do caso caboverdiano parecem concordar no juízo segundo o qual a emigração constitui um traço idiossincrático fundamental do povo das ilhas.
Iniciada no século XVII e tendo, segundo a palavra muito credível e respeitada de António Carreira, como destino primeiro a América do Norte, a emigração vem-se perfilando como um dos principais meios de busca de vida por parte dos caboverdianos, isto é, como uma das principais formas de escape às calamidades climatéricas, económicas e históricas que, secularmente, têm assolado o nosso Sahel insular.
Nessa óptica, a abertura ou o fechamento dessa porta de salvação têm condicionado de forma persistente o destino do povo das ilhas, do mesmo modo que se têm repercutido nas mentalidades dos ilhéus, tanto na cultura popular como na palavra pensada e impressa das elites letradas.
Relembre-se, a este propósito, que três das criações mais emblemáticas da música caboverdiana contemporânea são o funaná Fomi 47, de Codé di Dona, magistralmente interpretada pelos Bulimundo e pelo rei do funaná, Zeca di Nha Reinalda, bem como as mornas Camin di San Tomé, de Abílio Duarte, e Sodade, de António Zeferino Soares, interpretada pela voz grave e antiga de Bonga e, nos tempos mais recentes e por forma decisiva, tornada mundialmente conhecida pela voz suave e dolente da diva de pés descalços, Cesária Évora.
A emigração mereceu atenção redobrada tanto dos nativistas e claridosos, como também da geração nacionalista da nova largada da literatura caboverdiana nos anos cinquenta e sessenta do século passado.
Essa atenção desdobrou-se quer pela reflexão ensaística e pela frequente virulência da palavra jornalística quer, ainda, pela sentida meditação da poesia e da ficção literária.
Nas circunstâncias históricas, ecológicas e económicas muito específicas de Cabo Verde, a importância da emigração é de tal monta que, conjuntamente com a instrução, tem sido uma das principais alavancas da promoção social das criaturas das ilhas, ou, para utilizar uma expressão que seria certamente da preferência dos claridosos, da ascensão social, económica e cultural do negro e do mulato caboverdianos e, assim, do estabelecimento de uma almejada democracia económica, social e cultural no solo madrasto e amado das nossas ilhas.
Por tal forma foi crucial o papel dos embarcados que Teixeira de Sousa ficcionou emigrantes retornados da América (como, por exemplo, Frank Peito de Ouro e Antoninho Barato) reservando-lhes, enquanto personagens da sua obra romanesca, o papel de coveiros privilegiados do poder da aristocracia branca foguense e do seu correlativo racismo.
Relembre-se, nesta circunstância que é ao americano Benjamim que cabe, enquanto personagem central do romance Xaguate, o papel de um dos símbolos da definitiva vitória do preto e do mulato caboverdianos e, assim, de cabouqueiro dos alicerces de um Cabo Verde pós-colonial, novo e prenhe de esperanças, mas também grávido de dilemas identitários, políticos e desenvolvimentistas.
A relevância da emigração na modelação da arquitectura do edifício social caboverdiano ficou também atestada no facto de o destino das diversas correntes migratórias ter servido como traço emblemático da distinção social e da hierarquização sócio-racial então vigente em algumas das nossa ilhas, com destaque para a ilha da Fogo. É assim que, segundo Teixeira de Sousa e António Carreira, os brancos da ilha do funco, da loja e do sobrado escolhiam a metrópole colonial e as demais províncias ultramarinas portuguesas para se evadirem de uma ilha, onde os sobrados e o poder neles radicado soçobravam irreversivelmente, e, assim, puderem enveredar por uma carreira militar, judicial ou administrativa, enquanto que os negros e os mulatos escolhiam os caminhos marítimos para os Estados Unidos da América na sua busca de uma vida mais digna.
Caminhos da América, aliás, muito louvados tanto na pena poética e/ou jornalística, tão esplendorosa quanto cáustica, de Eugénio Tavares, Luís Loff de Vasconcelos e Pedro Cardoso, como também na mais comedida e compromissória avaliação de Teixeira de Sousa e Baltasar Lopes das Silva.
2
A inegável importância da emigração reflecte-se, igualmente, na circunstância de o modo literário e ensaístico do seu tratamento ter sido um importante lugar de disputa e de controvérsias políticas e ideológicas entre as diferentes correntes e gerações político-culturais caboverdianas com diferentes e, por vezes, antagónicas motivações.
Evasionismo, anti-evasionismo, pasargadismo, anti-pasargadismo, terralongismo e anti-terralongismo tornaram-se expressões corriqueiras nos estudos sobre a literatura caboverdiana e, por isso, familiares a qualquer estudante do ensino secundário radicado nas ilhas.
É exactamente no modo literário de tratamento dessa problemática que avulta a importância da emigração para S. Tomé e Príncipe.
É assim que em todos os escritores e pensadores acima mencionados (Eugénio Tavares, Luís Loff de Vasconcelos, Pedro Cardoso, Baltasar Lopes da Silva, Teixeira de Sousa, António Carreira) o inferno equatorial do Sul se divisa como alternativa de todo em todo indesejável e, por isso, muito causticada.
Deste modo, a opção santomense surge, sempre, como muito desqualificada, aliás, em exaltado contraste com a alternativa representada pelos lugares prósperos do El Dorado, situados no espaço territorial da grande nação americana, isto é, a nor-noroeste do sonho e da ânsia terralongistas de um Chiquinho, já detentor dos saberes liceais, mas psicologicamente exaurido pelas mortíferas devastações das secas, ilustradas, de forma paradigmática, no encerramento da escola onde leccionava em virtude da morte por inanição das grande maioria dos seus jovens alunos.
Assim, pode-se concluir que, em clamorosa alternativa à emigração forçada para S. Tomé e Príncipe, os caminhos para a América eram enaltecidos e louvados como altamente recomendáveis, porque propiciadores de civilização, de vivência de liberdade e de bem-estar material e espiritual para quem lograva percorrê-los.
Desde sempre desqualificada como perniciosa à saúde física e espiritual dos caboverdianos, a emigração para S. Tomé e Príncipe constituiu-se, assim, como um importante lugar da consciencialização política dos caboverdianos e das suas elites, quer num sentido contestatário e sumamente nacionalista anti-colonial, quer tão-somente no sentido de um posicionamento cívico, assaz crítico em relação ao descaso, à incúria, ao abandono e a outras mazelas coloniais.
Determinante nessa tomada de consciência cívica e política foram os seguintes factores: i) A vivenciação das ilhas equatoriais por parte dos secos habitantes do Sahel insular para aí conduzidos como um inextrincável e obscuro espaço de doenças, bichos mortíferos e chuvas excessivamente diluvianas;
ii) A sua representação como um autêntico Sul-Abaixo, isto é, a sua percepção como um espaço de aviltamento humano, de degradação civilizacional e de engendramento das gentes gentios que comem gente de Pedro Corsino de Azevedo e do geral imaginário popular caboverdiano.
Relembre-se, neste contexto, que é referindo-se à emigração para S. Tomé e Príncipe que o autor (ou os autores) da anti-claridosa Consciencialização na Literatura Cabo-Verdiana (Casa dos Estudanttes do Império, Lisboa, 1963) vituperara(m) o que era tido por postura evasionista e escapista dos claridosos e que estaria profusamente ilustrada no denominado ultra-evasionismo do sacrossanto Jorge Barbosa.
Considerava(m) o(s) mesmo(s) autor(es) que os claridosos se teriam furtado ao seu dever cívico de caboverdianos e de literatos por não terem denunciado, com a suficiente veemência e a necessária pregnância, o ultrajante contrato para S. Tomé e Príncipe.
Ademais, alegou-se – sempre em desfavor dos claridosos – que os mesmos teriam adoptado uma postura escessivamente resignativa quando, apesar de tudo, se viram obrigados a abordar a temática da emigração forçada para o Sul.
Nesta óptica, pretendeu-se que o ciclo poemático “Cancioneiro de S. Tomé”, de Osvaldo Alcântara, seria paradigmático da acima referida postura resignativa, assaz conformista dos claridosos.
Da demissão cívica de que foram acusados os claridosos somente se excepcionaria o ensaísta, contista e médico Henrique Teixeira de Sousa, por ter efectivamente analisado as devastadoras consequências nosológicas e psicossociais da emigração para S. Tomé e Príncipe, tanto no desenvolvimento das suas actividades como médico e investigador, como também na prossecução do seu labor ficcional, por exemplo, no conto “A Raiva”.
Mesmo se, nesses tempos de “colaboracionismo rebelde” com a administração colonial vigente nas ilhas, o reputado clínico e nutricionista foguense tenha contestado a qualificação da mesma emigração como sendo forçada, como, aliás, expressamente deixa entender António Carreira em citação constante do livro Migrações nas Ilhas de Cabo Verde (ICL, Praia, 1983).
Anote-se, entre parêntesis, que, no período pós-colonial, o escritor neo-realista e neo-claridoso – que, como é sabido, foi militante da Juventude Comunista e compagnon de route do Partido Comunista Português durante a sua mocidade estudantil lisboeta – denuncia as condições, muito contaminadas pelo logro e pela fraude, nas quais se processava o recrutamento dos acossados pelas secas para as roças do Sul. Avultam nessa ficção pós-colonial, vazada primacialmente no celebrado primeiro romance Ilhéu de Contenda, o desvelamento da torpe ganância tanto do negro e novo rico Soares como do branco desqualificado Felisberto, ambos ao serviço da famigerada SOEMI, o primeiro como comerciante e contratador com escritório montado, o segundo como homem de expedientes vários e escusos, ora empregado como agente do primeiro, encarregado do recrutamento das gentes esfaimadas e induzidas ao contrato, cativadas e seduzidas, isto é, enganadas com o verde paraíso das plantações e das fazendas do Sul, sistematicamente prometido pelos agentes e contratadores da SOEMI, e para lá conduzidas, em grandes levas amontoadas na promiscuidade dos porões, bastas vezes insalubres e infectos de desumanidade.
Ressaltam ainda na trama romanesca neo-realista de Teixeira de Sousa quer o posicionamento crítico do Dr. Vicente Spencer, médico mulato e alter-ego do próprio Teixeira de Sousa, quer ainda a rebeldia, politicamente contestatária, de Ovídio Soares, filho do comerciante negro e novo-rico, acima referido, que recusa o financiamento dos seus estudos por dinheiro sujo, porque angariado com a exploração da situação de miséria e abandono dos contratados.
De muito interesse para a história social bem como para a socio-musicologia das ilhas é a incursão à vida do trovador popular Príncipe de Ximento e à sua postura satírica em relação às autoridades administrativas coloniais, aliás, testemunhada pela canção homónima. Celebrizada pela voz de Frank Mimita, a mesma canção afirma o rebelde anti-evasionismo de Príncipe de Ximento, narra a saga da estadia dos contratados caboverdianos nas plantações do Sul-Abaixo e discorre, de forma contundente, sobre as injustiças experimentadas e os abusos presenciados nas ilhas do Golfo da Guiné.
Feito o parêntese, convém esclarecer: é verdade que a geração que não vai para pasárgada produziu, em tempo politicamente útil, textos sobre a degradação humana e social dos contratados para S. Tomé e Príncipe, arrojados e comoventes o suficiente para suscitar a revolta bem como uma indignação de contornos anti-coloniais.
É o que comprovam o ciclo poemático Caminho de Perdição (constante do livro Gritarei, Berrarei, Matarei, Não Vou para Pasárgada – 100 Poemas), de Ovídio Martins, os poemas “Caminho Longe” e “Comissário Ad-Hoc”, de Gabriel Mariano, alguns poemas do livro Noti, de Kaoberdiano Dambará, bem assim o conto “Toda a Gente fala: Sim senhor”, de Onésimo Silveira, igualmente autor do mais recente romance de parcial temática santomense As Sagas das As-Secas e das Graças de Nossenhor e um dos poucos intelectuais caboverdianos que esteve em S. Tomé e Príncipe (aliás, tal como Gabriel Mariano e o comissário ad-hoc Jorge Barbosa) e pôde, por isso, efectivamente testemunhar as difíceis condições de vida e de trabalho dos serviçais caboverdianos.
Todavia, ninguém denunciou de forma tão tocante e contundente o contrato para as ilhas do Golfo da Guiné como o fez Jorge Barbosa no longo poema em duas versões intitulado “Memorial de S. Tomé”, escrito em 1966, clandestinamente recitado em restrito círculo de amigos e confidentes e, finalmente, dado à estampa na sua póstuma Poesia Dispersa e Inédita (ALAC, Lisboa, 1993), organizada e introduzida por Elsa Rodrigues dos Santos bem como na sua também póstuma Poesia Completa (Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Lisboa, 2005), organizada por Arnaldo França e também prefaciada por Elsa Rodrigues dos Santos.
Essa constatação, apesar de tardia, é tanto mais importante e ajustada às circunstâncias quanto o poema de Jorge Barbosa se nos afigura como uma muito conseguida versão em verso da temática tratada por Henrique Teixeira de Sousa e António Carreira (por exemplo, no livro Migrações nas Ilhas de Cabo Verde), bem como nos vários livros de Augusto Nascimento sobre a mesma problemática.
II
O fim do caminho longe?
1
Considerado por Jill Dias como o mais abalizado investigador português sobre a problemática do trabalho serviçal nas plantações de S. Tomé e Príncipe (vide o Prefácio dessa reputada investigadora a Poderes e Quotidiano nas Roças de S. Tomé e Príncipe – De Finais de Oitocentos a Meados de Novecentos, a edição em livro da dissertação de doutoramento de Augusto Nascimento), este estudioso da Junta de Investigação Científica e Tropical teve já o ensejo de, nos tempos mais recentes, nos ter brindado com dois livros memoráveis: O Sul da Diáspora – Trabalhadores Cabo-Verdianos nas Plantações de S. Tomé e Príncipe e Moçambique e O Fim do Caminhu Longi, ora em apresentação.
A essas obras acrescem dois ensaios, igualmente recentes:
a) “Cabo-verdianos em S. Tomé e Príncipe: os contornos da consciência de segundos europeus”, o qual pode ser consultado em htp//www.antrologianet/publicacoes/actas/actascongresso2006/cap2/AugustoNascimentoVF.pdf);
b) “As relações de género entre cabo-verdianos nas roças de S. Tomé e Príncipe”, constante do livro Género e migrações cabo-verdianas, coordenado por Marzia Grassi e Iolanda Évora e editado pelo Instituto das Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Anote-se ainda que, do mesmo investigador, se encontra no prelo da Ilhéu-Editora o livro Vidas de São Tomé segundo Vozes de Soncente.
É sobre o mais recente livro de Augusto Nascimento que nos pretendemos debruçar agora, não sem antes sublinhar o relevante papel que o autor de O Sul da Diáspora tem desempenhado na agitação das águas, aliás muito pantanosas, nas quais muitos dos nossos conterrâneos, ex-serviçais das roças das ilhas do Golfo da Guiné, se encontram, infelizmente, atolados.
Essa agitação intelectual e científica das águas tem feito eco às preocupações de muitos dos nossos concidadãos, ao mesmo tempo que tem tido amplas e visíveis repercussões na interpelação de mais vastas consciências, incluindo daqueles que, em querendo, podem contribuir, e de modo decisivo, para o clareamento e a purificação das mesmas águas, isto é, para a substancial melhoria das condições dos palmilhadores caboverdianos do caminho longe, ainda infindo, para S. Tomé e Príncipe.
O livro O Fim do Caminhu Longi retoma e aprofunda várias questões, anteriormente abordadas no livro O Sul da Diáspora.
É o que ocorre, designadamente, com a caracterização da emigração caboverdiana para S. Tomé e Príncipe e do seu faseamento temporal, bem como das actuais vivências dos ex-serviçais que se quedaram pelas roças das ilhas independentes e soberanas do Golfo da Guiné.
A densidade, a veracidade bem como a autenticidade dessas vivências são atestadas pelos testemunhos/depoimentos dos próprios ex-serviçais, os quais são recolhidos, confrontados e devidamente analisados no livro ora em análise.
No que se refere à caracterização geral da emigração para S. Tomé e Príncipe cremos não laborar em erro se dissermos que o investigador e historiador Augusto Nascimento logram inovar por duas formas:
A primeira inovação ocorre quando introduz o conceito de emigração induzida, em lugar ou em complementação do conceito de emigração forçada constante do livro Migrações nas Ilhas Cabo Verde e recorrentemente utilizado pelo seu autor, o sempre celebrado António Carreira.
Com essa inovação conceptual pretende Augusto Nascimento reflectir tanto a complexidade como a mais lata abrangência das causas e das motivações que levavam as pessoas para a verde, conquanto trágica, opulência das roças do Sul-Abaixo. Sem pretender refutar a pertinência do conceito de emigração forçada – aliás tornada absolutamente premente e iminente nos anos de estiagens por uma extensa regulamentação emanada do conluio entre o poder económico e o poder político, exaustivamente dissecada por António Carreira, e bastas vezes ilustrada na falta de alternativas de quem tinha que dar o nome no contrato e alistar temporariamente para o trabalho semi-escravo das famigeradas roças para, tão simplesmente, não morrer de inanição, endémica no arquipélago da fome que era então Cabo Verde -, o investigador Augusto Nascimento consegue, a seu modo fundamentado, desvendar-nos a ingente complexidade da problemática em pauta, ao trazer à colação outras questões, como, por exemplo:
a)A opção voluntária de muitos caboverdianos pelo contrato para S. Tomé e Príncipe, com o fito de fugir a outras alternativas, consideradas menos remuneradoras, como, por exemplo, o trabalho de aprendiz em oficinas ou a dependência económica em relação a ascendentes.
b)O retorno a S. Tomé para o cumprimento de novos contratos ou a permanência nesse território mesmo depois de findos os tempos da contratação, os quais, como sabido, perfaziam, em regra, um período assaz limitado, muitas vezes determinado pela duração das secas cíclicas em Cabo Verde.
c)A fuga a problemas familiares e passionais, bem como a busca de solução para outros de cariz privado ou de natureza sentimental.
d)O espírito de aventura, enquanto expressão subjectiva da busca de vida e epifenómeno idiossincrático imanente à cultura da emigração, largamente disseminada entre os caboverdianos.
De grande relevância na temática do livro é o faseamento da emigração para S. Tomé e Príncipe, a qual é temporalmente localizada no período posterior à Segunda Grande Guerra e considerada como correlacionada com as grandes mortandades provocadas pelas fomes de quarenta, em especial as de 1947 e de 1949.
Neste contexto, são descritas as atrozes condições da vida dos serviçais caboverdianos nas roças, avultando sobremaneira:
i) O trabalho extenuante e por tal forma prolongado que preenchia quase todo o quotidiano dos serviçais, não lhes restando sequer tempo para uma refeição apaziguada;
ii) O ingente esforço de adaptação a condições climatéricas desconhecidas e muito hostis, sobretudo se levarmos em condição a origem saheliana dos serviçais caboverdianos, aliás, muito propensos ao encantamento com a paradisíaca exuberância do verde e das águas, no inicial contacto com a paisagem das ilhas equatoriais.
iii) A coacção extra-económica, típica e característica do trabalho servil e semi-escravo das economias coloniais e semi-coloniais de plantação.
É neste contexto que Augusto Nascimento procede à sua segunda inovação ao introduzir-nos a alguns momentos conceptuais, fulcrais para a caracterização psicossocial dos serviçais caboverdianos, designadamente:
a) O recurso ao desagravo físico quando os mesmos se sentissem violentados e vítimas de inexplicáveis arbitrariedades e inextrincáveis abusos, considerados desmesurados e desconformes com a ética de trabalho, muito interiorizada e prezada na cultura caboverdiana. Dessa atitude ter-se-ia originado a fama de faquista, habitualmente colada aos caboverdianos como um estigma.
Anote-se que essa atitude de desagravo em face da abusiva perpetração de violência física ou psicológica por roceiros, feitores e capatazes era tanto mais relevante quanto na ética laboral caboverdiana o trabalho bem cumprido era considerado como inerente à condição humana.
Ademais, esclarece-nos o autor que entre os caboverdianos prevalecia uma concepção patriarcal das relações laborais. Em conformidade com essa concepção patriarcal do trabalho, seria admissível, em determinadas circunstâncias, o exercício por parte dos patrões de um musculado poder correctivo em relação aos prevaricadores, considerados malandros ou mandriões, mesmo se esse poder correctivo tivesse que objectivar-se pelo uso de violência física e/ou psicológica. Quanto a isso, as roças tornaram-se, aliás, icónicas, porque muito pródigas na celebrização do chicote, da palmatória, do tronco e da selvajaria verbal dos detentores do poder sobre o corpo, a alma e o tempo dos serviçais sob o seu domínio.
b) O recurso à denominação identitária de segundos europeus.
O recurso a essa denominação estatutária visava a afirmação não só da cidadania portuguesa, de que, aliás, a generalidade dos caboverdianos era ciosa titular, como também uma postulação identitária que, explícita ou implicitamente, almejava aproximar os crioulos caboverdianos dos europeus e visava apartá-los tanto dos outros serviçais, na época denominados cabindas, angolas e moçambiques, como também, e de alguma forma, dos nativos santomenses.
Considerado como um esteio psicossocial de salvação, quase ontológica, o recurso ao putativo estatuto de segundo europeu vincava, outrossim, o permanente combate dos caboverdianos contra a indigenização, entendida -como, aliás, também refere Jorge Barbosa no poema Memorial de S. Tomé – no duplo sentido de degradação da sua condição humana e social e de perda dos seus valores civilizacionais ocidentalizados a favor de uma confusão com os repudiados hábitos (alimentares, etc.) e a tida por rebaixante indumentária de outros serviçais, oriundos da África negra continental ou, mais exactamente, de Cabinda, de Angola e de Moçambique.
2
Um segundo momento chave do livro O Fim do Caminhu Longi é aquele que caracteriza as condições de vida e de trabalho dos contratados quer durante a última fase da emigração para S. Tomé e Príncipe, denominada período de colonialismo tardio, quer na época pós-independência.
Segundo o investigador Augusto Nascimento, a fase final do colonialismo caracterizou-se por uma visível melhoria das condições de vida e de trabalho dos contratados.
Essa melhoria ficou reflectida na rarefacção dos castigos corporais e da coacção extra-económica, bem como na maior autonomia dos serviçais na condução, no período extra-laboral, das respectivas vidas.
A autonomia extra-laboral, acabada de ser referida, viu-se sobremaneira acrescida com a possibilidade, então outorgada de modo informal aos serviçais caboverdianos, de cultivar parcelas de terra, adstritas às roças e chamadas campos ou lavras.
Por outro lado, é a global melhoria da condição dos serviçais caboverdianos, consubstanciada particularmente no acesso – ainda que precário – à posse da terra, que explica o crescente apego dos mesmos serviçais às roças, nas quais labutavam extenuantemente e sob todas as intempéries.
É esta conjuntura laboral tardo-colonial que, igualmente, desnuda as razões das dissensões políticas subsequentes ao 25 de Abril de 1974 e conducentes, imediatamente depois, à independência das ex-colónias portuguesas, incluindo de S. Tomé e Príncipe e de Cabo Verde.
Eventos fatais – a independência de S. Tomé e Príncipe e o seu destino pessoal, pensarão retrospectivamente os serviçais que se quedaram pelas ilhas equatoriais e cujos testemunhos foram recolhidos por Augusto Nascimento no livro O Fim do Caminhu Longi.
Filhos das roças e sustentáculos principais da economia burocrático-capitalista de plantação, na qual se baseou, no imediato pós-independência, a renda do Estado santomense, os serviçais caboverdianos teriam sido induzidos a permanecer nas ilhas equatoriais por várias razões, de entre as quais o autor salienta:
i) Dilemas e indecisões emergentes da dificuldade em lidar com as incertezas correlacionadas com um eventual e imediato recomeço de vida em Cabo Verde;
ii) Apego às roças e, daí, à esperança de acederem à posse ou ao usufruto da terra e, assim, de se transformarem em pequenos empresários ou cultivadores agrícolas autónomos, ainda que semi-dependentes dos parcos salários que auferiam como assalariados adstritos às roças, depois denominadas empresas públicas agrícolas.
iii) Solidariedade anti-colonialista e aliança fraternitária entre o MLSTP (Movimento de Libertação de S.Tomé e Príncipe) e o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde), que os teriam sucessivamente convencido a ficar, a permanecer nas ilhas, doravante tidas por irmãs. É assim que o prometido barco que os deveria levar de volta às suas áridas, mas renascidas, ilhas natais nunca chegaria.
Esquecidos pela ex-mãe-pátria portuguesa, ignorados pela mãe-terra caboverdiana, localmente marginalizados por mor da sua apatridia equatorial e tendo a seu cargo a responsabilidade da criação de filhos e de outros descendentes, nascidos nas ilhas do Golfo da Guiné (por vezes em resultado de uniões com serviçais provenientes de outros países), os ex-contratados caboverdianos assistiram, impotentes e expectantes, ao decurso da História.
História que, como um destino inelutável, sobre eles caiu e se corporizou nos seguintes eventos e circunstâncias:
i) A nacionalização das roças e a correlativa saída inopinada dos roceiros, dos feitores, dos capatazes e de outros funcionários brancos, à sequente chegada dos donos nativos da terra, à paulatina degradação e à irreversível falência das roças e, assim, ao esvaimento das bases económico-sociais sobre as quais sustentavam as suas vidas, as suas rotinas e a perscrutação dos seus destinos.
ii) O temporário apaziguamento e o transitório renascimento das suas esperanças na sequência da possibilidade de acesso à posse de parcelas de terra. Elucida-nos o autor que essa possibilidade lhes foi outorgada nos tempos unipartidários, mas de relativa abertura económica, do Presidente Manuel Pinto da Costa, com vista a abastecer com produtos hortícolas o depauperado mercado santomense.
Como constatou Augusto Nascimento, será essa razão, acrescida de outras – sempre correlacionadas com os apoios recebidos de Pinto da Costa, inclusive para a celebração da sua caboverdianidade – que explicam o grande apreço que os ex-serviçais caboverdianos ainda nutrem pelo antigo Presidente de S. Tomé e Príncipe.
iii) A irrupção democrática e neo-liberalizante de 1991 e a sequente privatização da gestão das roças, que, se indubitavelmente lhes garantiram o direito formal à liberdade de expressão e lhes possibilitaram, a eles e a alguns dos seus descendentes, o precário acesso às terras – cuja distribuição ficou, aliás, devidamente marcada pelo clientelismo neo-patrimonialista então reinante -, lhes limitaram, em contraponto, o acesso às lavras, tradicionalmente cultivadas por eles e das quais foram, por vezes, expulsos com a chegada dos novos titulares privados.
De todo o modo, argumentavam os directamente interessados que era difícil voltarem a trabalhar as terras, alegadamente por serem demasiado velhos e, por isso, notoriamente incapazes de as cultivar e explorar na forma devida e desejada.
Sentindo-se abandonados e, ademais, suplantados por quem, embora filho e dono da terra, mantinha muito escassas e precárias ligações com a realidade das roças e, por isso, detinha poucos e esparsos conhecimentos técnicos e sociológicos sobre as problemáticas de gestão a elas atinentes, os ex-serviçais caboverdianos, para mais acossados na sua grande maioria pela sua condição de idosos, foram-se quedando nas ilhas, onde, segundo reiterados e muito sentidos testemunhos, amiúde se massacraram pelo trabalho.
É nestas terras, exaustas de verde e saturadas de memórias, marcantes das suas vidas e marcadas pelas suas vidas, que os ex-serviçais caboverdianos permanecem à espera.
À espera da morte, perdida que foi – e quase que definitivamente – a esperança de regresso à pátria caboverdiana, muito mitificada mas nem sempre passível de ser condignamente celebrada por ocasião do Cinco de Julho e de outras festas comemorativas e de ser compartilhada, no seu património de vivências passadas de dor infinda e trabalho massacrado, pelos seus descendentes, comum e tradicionalmente chamados tongas pelos forros e outros santomenses, igualmente nativos mais antigos das ilhas de S. Tomé e Príncipe.
Salienta o autor que, compreensivelmente, a grande maioria dos descendentes dos ex-serviçais caboverdianos se encontra muito enredada no entretecimento de laços e na quotidiana interacção com os forros e com outros filhos da terra santomense, também seus patrícios e concidadãos.
A este propósito opina o autor que o temporário arredamento de uma caboverdianidade mais ostensivamente explícita por parte dos descendentes santomenses (ou naturais de S. Tomé e Príncipe) dos ex-serviçais caboverdianos teria como motivações imediatas as condições sumamente degradantes em que vivem os seus ascendentes sahelo-crioulos (a expressão é da nossa responsabilidade), aliada a uma inadiável estratégia de integração na sociedade equatorial – aliás, ela também crioula, ainda que por outros modos – em todas as oportunidades que ela possa propiciar.
Porém e segundo reitera Augusto Nascimento, tal arredamento não seria de todo em todo irreversível, dependendo o seu desfecho do ulterior desenvolvimento da nação e do país caboverdianos.
Nesta óptica, o autor deixa entender que, em se divisando como útil para as suas estratégias de promoção social, económica e cultural, esses santomenses caboverdiano-descendentes não deixarão de tomar o pulso à sua dupla pertença identitária e de proceder à pertinente funcionalização cívico-política e económico-social do seu legado identitário caboverdiano e da sua radicação santomense.
Como é sabido, os recursos propiciados pela funcionalização identitária de uma putativa ou efectiva dupla pertença foram assaz produtivos durante a secular história da emancipação social do povo das ilhas sahelianas e afro-atlânticas e das suas elites nativistas, regionalistas e nacionalistas, sendo os casos de Eugénio Tavares, Baltasar Lopes da Silva, Amílcar Cabral e dos respectivos correligionários aqueles que tiveram mais duradouras repercussões.
A mesma funcionalização identitária vem-se tornando recorrente no conjunto globalizado das diásporas caboverdianas, amiúde consubstanciando-se em recorrentes reivindicações das novas gerações de caboverdiano-descendentes relativas à obtenção da plena cidadania económica, social, cultural e política nas suas duplas e diversas pátrias, quer das regressadas, de forma definitiva ou temporária, à mãe-pátria caboverdiana, quer das sedentarizadas nas suas pátrias natais de acolhimento.
Consideramos que, para além de possíveis, são sempre desejáveis formas variadas e suficientemente maleáveis de hibridismo identitário, ancoradas, a um tempo, tanto na conjugação entre cidadania política e herança identitária, como, de forma mais lata, na dupla pertença política e cultural.
Neste contexto, um tanto indefinido para o caso em observação, o autor Augusto Nascimento alvitra o reforço do associativismo entre as comunidades caboverdianas radicadas em S. Tomé e Príncipe, sem descurar a premente necessidade da emergência de elites caboverdiano-descendentes devidamente apetrechadas de recursos políticos, culturais, económicos, sociais e identitários e plenamente integradas nas ilhas que são também as suas.
Caboverdianos irredutíveis; ainda rememorados segundos europeus em reafirmação e luta permanentes contra a estigmatização veiculada tanto pela abjecta denominação gabão como também pela marginalização social; criaturas fragilizadas pelo isolamento em relação às instituições públicas, pela ausência de associativismo e por dificuldades de vária ordem no processamento da funcionalização política da sua pugna identitária; seres arredados e relativamente apartados da nação diaspórica caboverdiana: eis o auto-retrato que os ex-serviçais caboverdianos fazem de si próprios e deixam emoldurar no notável livro que ora intentamos dissecar.
Por tudo isso e segundo a (in)feliz expressão de Augusto Nascimento, esses filhos das roças jazem à espera…
À espera da nação global caboverdiana, mas também daqueles que, na época colonial e no período pós-independência, lhes teceram o inescrutável do destino que lhes coube, em escolhido infortúnio, em contraste com a sorte de outros compatriotas que se encaminharam para outros, mais afortunados e auspiciosos destinos emigratórios e diaspóricos…
É o que, com comovida e compassiva pungência, vem reiterar Augusto Nascimento no seu O Fim do Caminhu Longi.
Nessa partilha de memórias, de vivências e de experiências, o autor não deixa, todavia, de nos acautelar para a circunstância de a sua nacionalidade portuguesa e o facto de ser originário da pátria natal dos antigos roceiros, administradores e feitores coloniais poderem ter influído numa relativa moderação verbal bem como numa eventual inflação do saudosismo da maioria dos ex-serviçais contactados em relação aos revolutos e igualmente infelizes tempos das roças coloniais.
Todavia, tomado de compaixão e habitado por uma inexaurível e irrenunciável solidariedade com essas ruínas, imensa e ostensivamente humanas e moradoras das ruínas socio-económicas que são, actualmente, as roças, os seus equipamentos produtivos, as suas esqueléticas sanzalas -porque destituídas de todo o conforto e de todas as infra-estruturas susceptíveis de propiciar uma vida com um mínimo de dignidade -, Augusto Nascimento depõe essa compassiva solidariedade nas vozes, doravante plenamente audíveis, dos ex-serviçais das roças das ilhas do Golfo da Guiné.
Tal deposição tornou-se tanto mais premente se, ademais, considerarmos a impiedosa desvalorização das vivências passadas e da vida massacrada dos ex-serviçais caboverdianos, integralmente dedicada à prosperidade das roças e, assim, da economia santomense e dos seus sucessivos donos.
Ex-serviçais que, não obstante o acumular das agruras e das frustrações e sempre ensombrados pelo sombrio das rememorações, teimam em permanecer de pé.
III
Notas finais e conclusivas sobre o fim do caminho longe
Sabemo-lo porém, e o livro é muito elucidativo a este propósito: esses Cristos que teimam em, quotidianamente, soerguer-se da letargia, da solidão, do abandono e da desconsideração de quem tanto lhes deve encontram-se no fim, retesados agonizantes na cruz do caminho longe ou, pelo menos, dos seus resquícios e dos seus estigmas mais aviltantes.
Resquícios e estigmas desse caminho longe que não devia ter sangue/ não devia/ mas tem, desse caminho da perdição, inundado do suor lavrado e, inevitavelmente devorado por alguns selectos moradores dos palacetes do Estoril e frequentadores assíduos dos casinos de Monte Carlo, pelos Cains da nossa secular tragédia como, pertinente e desassombradamente, vituperaram em tempos do colonial antanho poetas como: Gabriel Mariano, o icónico vate da negra bandeira da fome; Ovídio Martins, temível anti-terralongista, celebrado anti-evasionista e, igualmente, construtor paciente da utopia de um país redimido, “ilha a ilha/ dor a dor/amor a amor”; Jorge Barbosa, cultor de uma poesia levedadora dos pequenos dramas da nossa terra, mas, depois, por demais saturado da resignação e da fininha e silenciosa revolta melancólica que enchiam a cautelosa paz burocrática de alguns integrantes das elites letradas da província ultramarina; Osvaldo Alcântara, o caçador de heranças que, na expectativa de uma outra, nova e regeneradora jornada, no ciclo poético “Romanceiro de S. Tomé” oferece o catre solidário da mãe-terra caboverdiana ao corpo alquebrado, doente e exausto de Nicolau. Nicolau que, apesar de exaurido, lograra regressar das roças, ao contrário da pior fortuna e do infausto destino de Teteia e de outros que se foram para nunca mais para a terra longe de S. Tomé. É o que clamam Onésimo Silveira e Arménio Vieira aos que, tais Príncipes de Ximento e Joões Cabafumes, são interpelados a sobreviver, a resistir e a abrir os corações, as mentes e as mãos a um canto com alma mas sem ser magoado, como no poema de Arménio Vieira (kanta ku alma sen ser maguadu) e na canção homónima, musicada por Pedro Rodrigues, orquestrada por Paulino Vieira e os novos Voz de Cabo Verde e cantada por Bana.
Como nos elucidam O Fim do Caminhu Longi e outros livros, designadamente Migrações nas Ilhas de Cabo Verde, de António Carreira, e Imigrantes em Terra de Emigrantes (IBNL, Praia, 2007), de João Lopes Filho, os contratos para S. Tomé e Príncipe deixaram de ser “celebrados” ainda antes do 25 de Abril de 1974, mais precisamente nos primeiros anos dos anos setenta do século passado.
A interrupção da corrente migratória para as ilhas do Sul-Abaixo ocorreu quando os flagelados do vento leste se puseram a caminho de outras, novas terras-longe, designadamente as propiciadas pelas políticas assistencialistas de Marcelo Caetano de incentivo da emigração caboverdiana em direcção a Portugal. As mesmas políticas assistencialistas foram adoptadas na sequência das repercussões várias da guerra colonial (ou de libertação nacional) no antigo Ultramar português e foram aceleradas nos anos sequentes à catástrofe ecológica despoletada pelas prolongadas secas sahelianas, ocorridas a partir de 1968. Como é sabido, a adopção das mesmas políticas também visava responder à crescente precisão de mão-de-obra barata por parte da CUF, da LISNAVE, da J. Pimenta e de outras empresas portuguesas, em parte nomeadas por Renato Cardoso na balada Na altu kutelu, imortalizada pelo conjunto Os Tubarões e pela voz de Ildo Lobo.
Como é sabido, a precisão de mão-de-obra de origem caboverdiana tornara-se cada vez mais premente em consideração tanto do relativo crescimento económico verificado nos anos sessenta e inícios dos anos setenta em alguns sectores da economia metropolitana, como a construção civil, a extracção mineira e a construção e reparação navais, como também do crescente êxodo de jovem mão-de-obra portuguesa, em fuga da mobilização para a desastrosa guerra colonial e/ou em busca de melhores salários e condições de vida na Europa além-Piréneus.
Como é do conhecimento geral, essas novas rotas, lisboetas, vieram complementar outros destinos europeus da emigração caboverdiana, como o holandês, o francês e o luxemburguês, procurados e encetados depois da Segunda Guerra Mundial, aliás, tal como o período coberto pelo destino santomense tratado no livro ora em análise.
Neste sentido, a abertura, nas vésperas do 25 de Abril de 1974, desses novos e amplos caminhos lisboetas também representou o requiem, o canto do cisne, o fim fatal do outrora inelutável caminho longe para S.Tomé e Príncipe.
Mas, foi mesmo o fim do caminho longe de S. Tomé e Príncipe?
É o próprio livro O Fim do Caminhu Longi e o seu rol de mágoas, ressentimentos e desesperanças, recolhidos das bocas e das memórias revisitadas, agora petrificados em forma de depoimentos dos ex-serviçais caboverdianos, a alimentar as dúvidas e as interrogações, diríamos, até, a sustentar a necessária interrogação a aditar, eventualmente, ao título do livro.
Esperemos que a visita recentemente efectuada pelo Primeiro-Ministro da República de Cabo Verde à República de S. Tomé e Príncipe e os importantes acordos firmados, nessa ocasião, com o Governo desse país afro-lusófono, terra anfitriã dos ex-serviçais caboverdianos e pátria natal de acolhimento de muitos dos seus descendentes, também nossos compatriotas, sejam um sinal claro do termo, se não do caminho longe, pelo menos da cruz que se erige como um pelourinho, insuportável porque triturador de criaturas ainda conformadas com o destino de alegados párias da sorte, resignadamente especadas à espera da morte.
Estamos em crer que são disso indício seguro a inscrição nos entendimentos subjacentes a esses acordos intergovernamentais tanto da dupla responsabilidade – histórica e política – da ex-potência colonial e do Estado santomense pela desventura de quem ora se fala, como também das obrigações específicas que incumbem ao Estado caboverdiano na protecção e na defesa dos interesses dos seus cidadãos, por quem, aliás, ainda muito se chora.
Tornou-se, por isso, inadiável a prática concretização dessa urgente exigência do tempo, do direito, da justiça, da moral e da consciência ética humanista de todas as pessoas de boa-vontade: a aliança e a lusófona irmandade entre os nossos países, secularmente sedimentadas na história comum – aliás largamente nutrida, também ela, pelo suor anónimo dos ex-serviçais caboverdianos – deve, de ora em diante, poder jorrar, de modo mais efectivo e cristalino, a solidária fraternidade para com esses nossos humildes e anónimos irmãos, tornados desgraçados e involuntários protagonistas das abjectas e revolutas divisão e especialização coloniais do trabalho.
Tanto mais quanto esses nossos concidadãos são credores privilegiados de uma dívida de inadiável e pleno reconhecimento da sua inalienável dignidade de seres humanos.
Em razão da espoliação de que foram vítimas a sua energia e a sua força de trabalho, eles tornaram-se legítimos titulares do imprescritível direito ao devido e justo ressarcimento, como, aliás, ficou convincentemente comprovado no livro O Fim do Caminhu Longi.
As feridas que, ainda incicatrizadas, persistem em cobrir a sofrida austeridade das vidas abandonadas dos ex-serviçais caboverdianos, bem como o sepulcral e húmido silêncio que persiste em rodeá-las foram e continuam a ser eloquentes testemunhas, (in)silenciados testemunhos da espoliação do seu corpo e da sua alma, a que acima se fez referência.
Testemunhas, testemunhos, que, tendo também ecoados em poemas vários do livro O Útero da Casa, da poetisa santomense Conceição Lima, podemos agora escutar no livro O Fim do Caminhu Longi, de Augusto Nascimento.
Nota do autor: Constitui o presente texto uma versão desenvolvida da alocução de apresentação pública do livro “O Fim do Caminhu Longi”, de Augusto Nascimento, ocorrida a 19 de Setembro de 2007, na Casa Fernando Pessoa, em Campo de Ourique, Lisboa, e transmitida em directo pela RDP-África.
Por ocasião do lançamento do livro, o qual contou com a presença da directora da Ilhéu Editora de Cabo Verde, Ana Cordeiro, realizou-se um recital de poesia com base em poemas de Jorge Barbosa, Ovídio Martins, Gabriel Mariano e Arménio Vieira, ditos por Celina Pereira, Mito Elias bem como pelo autor do presente texto.

José Luís Hopffer C. Almada