A bola vai rolar para a arquibancada.

Friedrich Engels, o parceiro de Karl Marx, sempre foi relegado ao segundo plano. Mas agora ele está sendo considerado – pelo menos no ramo da Epigenética, que estuda as influências ambientais no genoma – como aquele que melhor descreveu, segundo Hélio Schwartsman em sua coluna “Genoma profundo” na Folha de domingo (22), o papel das ferramentas na trajetória do Homo Sapiens

A Primeira Revolução Industrial mostrou, de forma dramática, a sua importância – caso da máquina a vapor – na mudança da nossa organização social. Pesquisas recentes, mencionadas por Schwartsman, no chamado DNA Lixo, que até recentemente parecia não ter uma função relevante, concluíram que esses componentes da dupla hélice são extremamente complexos e comprovam a importância central dessas inovações na evolução da espécie humana.  

Se a máquina a vapor deu início àquilo tudo, até onde poderemos chegar com o computador, a Internet e a Inteligência Artificial? Este novo momento – denominado por Klaus Schwab de Quarta Revolução Industrial – está ao nosso alcance. Já podemos vislumbrar como se afigura a nova organização social que está surgindo a partir dessas ferramentas.

Essa história começa na época da Guerra Fria, em meados do século passado. O Pentágono tinha, no sistema de comunicação, principalmente com a poderosa e globalmente atuante frota americana, o seu calcanhar de Aquiles. Caso uma bomba caísse no QG americano, suas belonaves ficariam vagando como baratas tontas, sem comando central. Solicitaram então à Rand Corporation – um centro de excelência e pesquisa – que lhes apresentassem uma solução. O resultado entrou para a História.

Até então eram conhecidos apenas dois tipos de rede, a centralizada e a descentralizada. Ambas tinham problemas: a centralizada, se fosse eliminado o nódulo central e a descentralizada, se isso ocorresse com alguns dos seus. Em ambos os casos, a comunicação ficaria comprometida.

A solução foi dada pelo engenheiro da Rand Paul Baran, que criou um novo tipo de rede, a Rede Distribuída, na qual todas as informações passam por todos os nódulos, de modo que mesmo tendo sido destruída em boa parte, o restante da teia continuaria operativo. Vem daí a ARPANET, a rede interna das Forças Armadas americana, que usava computadores de válvulas e que deu origem à Internet. Com a invenção do chip, a compactação da mensagem – que permitia como que enviar uma manada de mamutes em filés – e a popularização do PC, surgiu a rede atual, que conecta hoje quase 3,5 bilhões de pessoas e já se tornou portável, graças ao smart phone.

Ou seja, se as invenções humanas são determinantes na mudança da forma como nos organizamos socialmente, o que já se sabia, chegando, como se sabe atualmente, a ser determinante na nossa evolução genética, estamos frente a uma mudança de paradigma de proporções jamais sequer imaginadas.

No decorrer da História passamos pelas fases da rede centralizada, na qual um indivíduo detém o poder (o rei); descentralizada, em que o poder é compartilhado por um certo número de players (presidente ou primeiro ministro, parlamento, judiciário, exército, mídia, grandes empresas e sindicatos, chefes religiosos, etc.)  e estamos agora na transição dessa para a rede distribuída,  na qual os detentores do  poder formal se mostram fragilizados, ou como disse o jornalista Moisés Naim, em seu artigo O fim do poder (revista Exame 27/5): A degradação do poder é uma tendência que tem aberto espaços para novas estruturas, novos empreendimentos e, pelo mundo todo, novas vozes e mais oportunidades. Naim conclui com uma advertência: Mas suas consequências para a estabilidade são cheias de perigos.

A cúpula do poder no Brasil que o diga. Sem que fosse preciso recorrer à caserna, a histórica “solução” para os conflitos sociais em nosso País, o partido que detinha o comando da Nação por 13 anos foi defenestrado em razão do novo micro poder das pessoas, que se juntaram, sem que houvesse a participação de partidos, sindicatos ou outras entidades da rede descentralizada, em manifestações colossais, as maiores da nossa História, mostrando uma capacidade de auto-organização somente possível numa sociedade que se organiza em rede distribuída. E não parou aí: na sequência, o novo mandatário se viu obrigado a recuar de várias decisões, tendo sido inclusive obrigado a afastar um ministro que lhe era muito próximo, pelo mesmo motivo.

Eis a nova organização social da nossa colmeia. Teremos no futuro uma espécie de Ágora – nome da praça onde os gregos, que criaram a democracia, se reuniam para tomar, em conjunto, as decisões – planetário, um lugar de encontro da Humanidade, onde todos poderão ter voz e conversar uns com os outros, mesmo que este fale Urdu e aquele Maxacali, pois a tradução se dará em tempo real. Como tantas outras relíquias do passado, a Torre de Babel foi implodida. É como se, de repente, todos nós pudéssemos a falar a mesma língua.

Ou seja: o que está acontecendo (o momento nacional espelha isso) não cabe mais no modelo tradicional, de conflito entre a esquerda e a direita. Como tudo, a própria urdidura do poder, cada vez mais aflora, em tempo real, à vista de uma plateia emponderada, pode-se dizer que o diferencial seria a capacidade dos governantes de manterem-se na linha, e fazerem ou não as coisas funcionarem, progredirem, de forma a melhorar efetivamente, de forma confiável e continuada, a vida das pessoas.   

Teremos, enfim, a tão sonhada radicalização da democracia. Lembro-me do Montoro, um visionário, dizendo que, para avançarmos, teríamos de passar da democracia representativa para a democracia participativa.

Então, onde está o perigo?  Indo ao encontro do receio de Naim, Umberto Eco já havia dito que receava que a Internet, dando voz a todos, daria voz também aos imbecis. Que existem, ele arremata. E olha que ele disse isso antes do fenômeno Trump.

Talvez a única coisa certa é que nunca deixaremos de ter problemas…

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 

 

Carlos Figueiredo