Vestidos de preto e toucas ninjas, os milicianos utilizaram-se de táticas militares para intimidar e avançar na conquista do território inimigo. O “Caveirão”, veículo pago com o dinheiro dos impostos de toda a população fluminense, foi usado para abrir o caminho para o comboio de dezenas de veículos.
O saldo do confronto: nem as vítimas podem contabilizar. Mas, é certo que familiares e amigos do motoboy Fábio Fernandes Rocha, 29 anos, nunca mais esquecerão a noite de terror. Fábio foi algemado, torturado – apanhou com pá, queimado com velas, levou tapas no rosto e tiros. Moradores foram humilhados e espancados. Havia roupas rasgadas, rastros de sangue, cápsulas de fuzil 762 e pistola 40, dezenas de garras de cerveja e uísque e pontas de cigarro. Portões foram arrombados pelos milicianos. Casas invadidas. Comércio roubado. Senhoras e jovens foram humilhadas na frente de seus parentes e amigos. Pais apanharam diante dos filhos. Adolescentes tiveram que desfilar com roupas íntimas para diversão dos milicianos. Acabada a festa, eles foram embora, deixando toda a região revoltada e em pânico.
Ainda segundo o noticiário, as investigações estão em andamento envolvendo o Batalhão de Choque e o Batalhão de Operações Especiais (Bope), delegacias, segurança do Estado, o Disque-Denúncia. Será que de fato os fatos denunciados há muito tempo, inclusive pelo próprio Jornal O Dia havia feito várias matérias sobre as milícias no Rio de Janeiro, que na ocasião as autoridades de segurança do Estado insistiam em dizer que não existiam, quando não afirmavam ser uma saída contra o tráfico.
Não sou socióloga, e muito menos médica ou psicóloga, ambos com sobrecarga de trabalho no front nosso de cada dia. E, com certeza não sou subserviente a nenhum partido político. Sou somente uma cidadã brasileira e sinto-me enojada com os desmandos seculares do nosso “des”serviço de segurança, da falta de política pública para este setor que define quem deve ou não viver.
Não sou moradora da baixada fluminense e nem de áreas de risco. Mas sou brasileira como os irmãos que estão morrendo à toa por conta da eterna impunidade e corrupção que assola este Brasil terceiro-mundista e racista.

Sandra Martins