Durante três dias, tive o privilégio de compartilhar algumas reflexões sobre o racismo com um dos maiores nomes do futebol mundial. Lilian Thuram não é apenas um grande jogador, de status mundial. E é, neste sentido, que meu privilégio caracteriza-se. Passei a entender que fama, sucesso e reconhecimento podem não ser fatores de alienação, mas ao contrário, se bem empregados, podem contribuir potencializando ações coletivas.

É o que faz Thuram. Em sua luta de enfrentamento e combate ao racismo, pude perceber que seu conhecimento sobre o tema é de quem sabe sobre o que esta falando. Thuram sofreu atos racistas, vindo das torcidas adversárias. Sua resposta veio com a Fundação “Educação contra o racismo”, cujo trabalho é realizado por um comitê cientifico, formado por especialistas em varias áreas que vão da antropologia, sociologia, passando pela arqueologia, geofísica e engenharia de produção.

Suas considerações acerca da onda de atitudes racistas que ocuparam o destaque nas notícias relativas ao esporte nos últimos meses merece destaque: "O futebol não é um mundo à parte, e o racismo que esta lá no estádio é o mesmo da  sociedade. Não creio na melhoria do comportamento da torcida, e de alguma solução vinda  dos dirigentes, a resposta deve vir do campo, dos próprios jogadores. Se um jogador é agredido por palavras e gestos racistas, ele não deve aceitar, e seus colegas de equipe devem apoia-lo. O exemplo que temos é o de Mario Balotelli: após repetidos insultos racistas dirigidos pela torcida do Pró-Pátria, o atacante abandonou o campo, sendo acompanhado pelo restante da equipe”. Para Thuram, esta é uma das atitudes que podem ajudar a acabar com o racismo no futebol.                                     

Ao falar sobre os jogadores brasileiros, o craque revela: “Joguei com brasileiros e perguntava a eles por que havia negros no Brasil… eles não sabiam. Sem  consciência histórica, não dá para reagir. Penso que todos os brasileiros, principalmente aqueles que representam o país, nos gramados ao redor do mundo, deveriam conhecer a história de Zumbi dos Palmares”, alfineta.

Segundo ele, que já foi eleito o melhor jogador do mundo, parafraseando Mandela: “Não nascemos racistas. Nós aprendemos a ser. O racismo é uma construção da sociedade que hierarquiza as pessoas”. É por isso que Thuram entende a educação contra o racismo como uma estratégia eficaz.  “Para as crianças crescerem sem sofrerem a violência em sua autoestima. Podemos impedir que as pessoas usem xingamentos racistas, mas seria muito mais inteligente fazer com que as crianças pudessem crescer sem terem essas ideias. Isso só se faz pela educação”, declara. Mas, o craque vai além:  

"Podemos considerar que o racismo é muito menor que antes. O que mudou? O imaginário coletivo. A ideia de superioridade está sendo combatida. Quando a gente  começa a mostrar  quantos  negros foram importantes na historia mundial,  quantas estrelas negras que foram omitidas da historia… A educação permite que as crianças também possam mudar o mundo”, sonha o ídolo.

Em sua passagem pelo Brasil esta semana, Thuram pode ver como opera o racismo à brasileira. Ele, que tem a uma visão fácil do racismo segregacionista, do tipo óbvio, que persiste em varias partes do mundo, ficou impressionado com o nosso tipo de racismo. Por este motivo ficou intrigado ao conhecer jovens estudantes da rede municipal, que apesar de possuírem os fenótipos de negros se afirmam identitariamente como brancos. Passei algumas horas tentando explicar para ele e sua equipe, os fatores que (re)produzem esse que é considerado o racismo mais sofisticados do mundo.

O craque do Barcelona volta pra casa com a certeza do que nós já sabemos há muito tempo:  a educação aqui não é para os negros. Em suas palavras: “(…) eu tenho dificuldade de entender os motivos que fazem com que a educação no Brasil e as políticas educacionais não estejam sensibilizadas com esta questão afro-brasileira”. É Thuram, nós também!

O Brasil, que produz um racismo do tipo sofisticado, é também o país do futebol que mais produz grandes craques. Mas, infelizmente, não encontramos um jogador brasileiro com a consciência deste campeão. Qual foi o craque que se atreveu a colocar o dedo na ferida e falar de um tema tão grave e agudo para o sociedade brasileira? Aqui, sabe-se Deus se pela alienação racial a qual fomos submetidos, por força das políticas de embranquecimento, temos coleção de maus exemplos: o que se diz “rei” (em minúsculo mesmo) manda o povo esquecer os problemas e curtir o futebol; o “fenômeno” prefere os estádios aos hospitais; os “bondosos” fazem escolinhas para descobrir os “craques” que vão empresariar no futuro.  E tem também aqueles que se tornaram políticos… alguém sabe o que eles fazem?

Para conhecer  mais sobre a Fundação Lilian Thuram acesse http://www.thuram.org

 

Marcelino Conti