A boa educação deve valer prá todos – branco, índio, negro ou japonês. A atitude do Presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, ao deixar a Presidente da República com a mão no vácuo, evitando cumprimentá-la na recepção ao Papa Francisco, no Palácio das Laranjeiras, é inaceitável.

Não porque o gesto foi um grosseria com a Presidente da República. Seria grosseiro se fosse com o lixeiro, com o flanelinha ou com o guarda da esquina. E por uma simples razão: todos os seres humanos devem merecer de todos nós o mesmo respeito. A explicação da assessoria do presidente do STF de que imaginou que não fosse preciso cumprimentá-la, já que o havia feito numa sala reservada à autoridades, torna a emenda pior que o soneto porque subestima a inteligência de quem viu, partindo do pressuposto de que o país, o mundo inteiro, não viu o que viu.

O pior é a tentativa de alguns de justificar o injustificável, argumentando com os séculos de humilhações e sofrimentos que atingem todos os negros neste país em que a sociedade e as instituições respiram e reproduzem racismo. Neste caso, basta inverter as posições para se ter uma ideia de que o gesto deselegante e grosseiro, continuaria sendo deselegante e grosseiro. Suponhamos que no lugar da Presidente estivesse Joaquim Barbosa e que ele fosse deixado com a mão no vácuo, enquanto Dilma fingia ignorar sua presença.

Qual seria a reação de alguns que saem agora em defesa de Barbosa? Racismo, claro, não é mesmo? Então, porque ele fazendo tem a compreensão e a indulgência automática – ou seja: pode.

Que setores inconformados com o papel desempenhado pelo atual presidente do STF como relator do mensalão ao condenar nomes da cúpula do PT como José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares a anos de cadeia, extravazem o seu racismo epidérmico, nada a estranhar. Bom que se revelem. Aliás, neste país de racismo camuflado, hipócrita, bom seria que todos os racistas se assumissem de uma vez, se revelassem, saíssem do armário.

Agora, o que não dá é prá justificar grosseria e falta de educação de quem chegou ao topo de um dos três Poderes da República – o Poder Judiciário -, é um agente público como qualquer outro e, portanto, deve respeito a todos (as) -, do lixeiro e flanelinha mais humilde à Presidente da República.

Aliás, educação e bom trato são conquistas civilizatórias. A falta de ambos, não é bonito, nem admissível em ninguém. Fora disso, caímos num tipo de solidariedade pautada pela cor da pele e que nos torna “vítimas eternas/padrões de virtude”, e que é tão conservadora e reacionária como as práticas adotadas pelos beneficiários do sistema racista.

Guardo comigo uma lição de vida da minha finada mãe, uma mulher pobre e analfabeta, mas que educou os seus sete filhos vivos – inclusive eu – com base numa verdade que a sabedoria popular tornou senso comum: “quem tem vergonha, não faz vergonha aos outros”.

Se aprendeu isso da dona Benedita, sua mãe, uma mulher negra e pobre como a minha, Joaquim Barbosa, provavelmente, esqueceu a lição e se permitiu passar vergonha não apenas na Presidente da República, mas em todos nós que ficamos constrangidos com seu gesto.

 

Dojival Vieira