Havia, é certo, gente paramentada. Uma boa parte, trajando camisetas daquelas que se tem em casa, alusivas a outros eventos da comunidade. Muitos carregavam faixas; alguns, simples cartazes. Traziam, porém, o paramento da cor de suas peles, do sorriso guardado num rosto-espelho de muito sofimento vivido.
Os presentes tinham todas as idades, de crianças a pessoas bem idosas; em grande número, uma moçadinha de nossa periferia, com o vigor próprio da juventude.
Dos carros de som, discursos rápidos, um ou outro mais significativo. Pouco se podia ouvir, porém, do que diziam os oradores — em face da precariedade dos equipamentos de amplificação sonora.
Um sambar silencioso (na cadência de um surdo distante), com leve sorriso no rosto, como é próprio de nossa raça (que sou afrobranquelo); não havia, apesar do tom dos oradores, um clamor revoltado.
A parada significou, sim, a presença sadiamente incômoda de uma massa de afrodescendentes, a caminhar, todos sabendo bem estar ali para exigir, da sociedade, um tratamento mais humano e igualitário.
No entorno, a PM, uns tantos curiosos, e vendedores ambulantes (a empurrar seus carrinhos de pipoca, milho verde e bebidas enfiadas no gelo).
Camiseta, não consegui comprar. Cheguei perto de 14:45, caminhei (para a foto) por toda a Paulista, e saí de fininho, no primeiro quarteirão da Brigadeiro, feliz da vida, dever cumprido (o que programara).
Restou um gostinho de “quero mais”. No próximo ano, vou ver se faço a caminhada toda.
Saí com a impressão de que, em 2007, poderemos ser o dobro.
Dojival, um dos organizadores, queria que não fosse uma manifestação só de lideranças. E não foi. Mesmo que as lideranças tenham a fisionomia de povo, a expressão facial própria do povo-povo é algo ainda mais simples e desarmada.
Nunca vi tanta trancinha de uma só vez. Eramos, os brancos, se tanto, uns 10%. Os bem negros, perto de 30%. O restante: aqueles denominados pardos, com diferentes matizes de pele.
Repito: o que mais me agradou, o andar silencioso de quem, só assim, já estava dizendo muito.

Pedro Falabella Tavares de Lima