Coincidentemente, íamos para a mesma cidade. Conversamos um pouco sobre a vida e a vida indígena, onde os valores espirituais são sagrados e permanentes no relacionamento com o Grande Criador.
Então contei àquele Padre que nunca tinha visto um Índio Comunista ou Ateu, e quando olhei para o lado, ele, o Padre, estava de olhos fechados e então parei de falar, mas ele imediatamente começou a falar sobre os valores indígenas e os possíveis erros do passado. Para mim, ali estava um Padre diferente, que sabia falar das coisas sem dar sermão ou puxar a orelha. Chegamos a Brasília e ele me disse:”Meu nome é Dom Luciano, apareça na CNBB”.
A partir daquele momento, estimulado pela luta indígena sempre que era necessário lá ia eu a CNBB para conversar com ele para que interviesse pelo menos no Ministério do Interior, sobre nossos direitos como povos e principalmente como estudantes prestes a serem expulsos por orientação de Golberi e do Coronel Presidente da Funai, João Carlos Nobre da Veiga.
Naquele tempo Dom Luciano era o Secretario Geral da CNBB e com seu apoio começamos a campanha pela demarcação das terras, seja com os Xavante, com os Apinajé, e ao mesmo tempo pelos direitos humanos como o direito de estudarmos em Brasília e o direito de nos organizarmos como a União das Nações Indígenas.
Dom Luciano nunca deixou de lutar por esses direitos e certamente nunca falhou nesse compromisso, seja perante nós os Povos Indígenas, seja perante o Grande Criador que agora o chamou para o campo eterno.
A CNBB aliada de sempre, conselheira suprema na defesa dos direitos humanos, dos trabalhadores, dos sem terra, da mulher, da juventude e da criança, sabe que um guerreiro sai de cena, mas deixa sua semente marcante e exemplar para os novos guerreiros. Jamais esmoreceu. Jamais se afastou de sua Paróquia e jamais se afastou de seus ideais.
Como filho dos Povos Indígenas levanto minha prece ao Grande Ituco-Oviti, para que seu espírito usufrua do galardão como merecimento por seu trabalho como missionário, mas principalmente como um Guerreiro de Batina.
Respeitosamente!

Marcos Terena