Catástrofes “naturais” como esta nos permitem perceber o papel fundamental do Estado para as sociedades, inclusive em tempos de neo – liberalismo. A verdade é que o Estado é o único fornecedor de serviços públicos básicos como: segurança, saúde, saneamento básico e segurança alimentar.
Quando o prefeito de New Orleans foi a televisão declarar o famoso: “Salve-se quem puder!” ele levou consigo os bombeiros, policiais, médicos e toda representação possível do Estado. Posteriormente, a água que rompeu os diques levou toda e qualquer garantia que pudesse advir da presença dessa instituição. Nesse momento de desespero se pode perceber nitidamente “quem é quem” no “american dream”. Aquela enxurrada deixou a sociedade americana exposta, isto porque não se pode esconder aquilo que as imagens mostram, uma multidão de negros e negras gritando: ” We need help! We need help!” Aqueles que possuíam automóveis e dinheiro escaparam da tragédia.
Por outro lado, aqueles que sobreviviam da suposta seguridade social do Estado mais rico do mundo, ou seja, tickets alimentação, ficaram a mercê da própria sorte. Durante a tarde de hoje, um jornalista da CBN teve um suposto insight: – “Isto é o Haiti!” Segundo o jornalista, aqueles tanques circulando pelas ruas e o exercito arremessando comida aos famintos por meio de helicópteros era a perfeita imagem do Haiti: – “Mas como?”, perguntava o repórter sendo aquele o país mais rico do mundo. O repórter só esqueceu de um detalhe: aquelas pessoas eram negras.
Aquilo que a imprensa brasileira parece não querer enxergar é a grande resposta para tamanho descaso das autoridades. Repito: aquelas pessoas eram negras, e pobres. Não puderam sacar dinheiro no banco, entrar nos seus utilitários 4×4 e partir para outra cidade em busca da sua sobrevivência e de seus familiares. Tão negros eram esses cidadãos que agora que a polícia sumiu das ruas a cidade entrou em pânico. Com receio de uma onda de saques generalizados, o governo decretou lei marcial.
Na minha opinião, todo esse pânico está ocorrendo porque antes, com a presença do Estado, os negros estavam devidamente encarcerados (maior população carcerária do mundo). Mas agora não existe Estado, e como diz a TV americana, o Exército vai atirar pra matar quem ousar saquear, ou vagar pelas ruas. O Haiti-USA está se parecendo muito com o Haiti-Brasil. O fato é que a realidade da afro-diáspora é muito semelhante em diversos países. Exclusão é exclusão, não importa qual a renda familiar do excluído. A diferença é que, no Brasil, as tragédias naturais ocorrem em função da falência de planos econômicos, ou quando, periodicamente, as chuvas arrasam as favelas brasileiras com deslizamentos de terras.
No Brasil,os tanques não são do Exército, mas sim da PM, chamados de “caveirão” eles não trazem comida; levam balas para os jovens traficantes. Mas como dizia Caetano Veloso e Gilberto Gil: “Pense no Haiti, o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui.”

Gustavo Amora