A notícia já está velha: crianças, crianças não, porque filho de pobre é menor, menores torturados na Fundação Casa, sempre dita a antiga Febem, até porque chamar de casa  é até um deboche, uma falta de respeito com a ideia de lar. Mais velha ainda a prática de castigar esses meninos com a crueldade que nem um homem adulto aguentaria.

Mas tem uma coisa ainda mais velha: a miséria. A miséria que desfibra o homem, que põe seres humanos contra seres humanos, adultos contra crianças, negros contra negros e tudo isso misturado.

Não pude deixar de notar no vídeo que os agressores eram todos negros, que os meninos eram todos negros, que o diretor da unidade não era,  confirmando, assim, as sutilezas do racismo nas instituições brasileiras. Dá pra passar no concurso e ser servidor público. Mas dá pra ser chefe?

 Que miséria humana é essa em que esses negros fortes e sadios não enxergam nos rostos esquálidos daqueles meninos desprovidos de toda chance na vida, seus próprios filhos? Ou será que espancam assim os seus próprios? São como os Kapos, judeus aos quais os alemães designavam tarefas especiais nos guetos e campos de concentração. A polícia judaica contra seu próprio povo. São como  os capitães do mato, em geral negros ou mulatos, encarregados de capturar os escravos fugitivos.

O Papa mostrou sua preocupação com a cultura do descartável, que já há bastante tempo vem excluindo os idosos e, agora, faz o mesmo com a juventude, que corre o risco de ser uma "geração sem trabalho". O que dizer então da juventude negra? Os negros de todas as idades  são os mais descartáveis, como mostra Daniela Arbex em sua entrevista sobre o seu livro o Holocausto Brasileiro.

Que mundo é esse em que os adultos desistiram das crianças como se elas fossem descartáveis. E como diz Caetano Veloso  “…quase todos pretos/Dando porrada na nuca de malandros pretos/De ladrões mulatos e outros quase brancos/Tratados como pretos/Só pra mostrar aos outros quase pretos/(E são quase todos pretos)/E aos quase brancos pobres como pretos/Como é que pretos, pobres e mulatos/E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados…”

O Governo paulista chama os atos de abomináveis, instaura inquéritos, fala em demissões e processos administrativos. Os promotores em processos penais, crime de tortura. Como se todos nós não soubéssemos o que se passa nessas “Casas”. 

Se a lei exige punição que assim seja feito. Eu, porém, creio que os funcionários também precisam ser reeducados, mais do que punidos. É preciso mudar a cultura da violência. Demitidos os algozes, jogados no desemprego, corremos o risco de seus próprios filhos – quase todos pretos – sigam os passos daqueles desvalidos.

O racismo contém a violência e a violência contém o racismo. E o racismo está introjetado em cada brasileiro, mesmo que inconscientemente. Não é raro ver negros praticando o preconceito tal qual um branco. Aqueles coordenadores da Fundação Casa têm dentro deles a ideia de que aqueles meninos valem menos. E não enxergam a interseção entre cor, pobreza e abandono.

Essa parcela da juventude negra, e mesmo da não negra  (quase preta de tão pobre), lançada no quarto de despejo da sociedade e submetido a um nível extremo de humilhação só pode dar em duas coisas: alienação mental ou desejo de vingança. E pior, nas duas juntas.

Mantenhamos esse estado de coisas, tenhamos a escola de péssima qualidade que temos, o subemprego que desagrega as famílias, façamos vista grossa para o problema do álcool e das drogas, consolo dos mais fracos, ignoremos as crianças sem lar e por final  baixemos a maioridade penal e teremos o resultado mais tenebroso que podemos esperar. Não teremos nem mais gangues e sim alcatéias de lobos arrancando com os dentes  tudo aquilo que lhes foi negado.

Maria de Fátima Morbach de Medeiros