Em número cada vez maior de imigrantes em São Paulo, logo nos vem à pergunta “O que temos a ver com a tragédia haitiana”? Tudo! Só para lembrar, alguns anos após o Haiti se tornar o segundo país livre das Américas, eclodiram no Brasil várias revoltas negras inspiradas nos eventos vindos do Caribe. O país caribenho, na época, sentia o drama de ser o vizinho indesejado que ninguém gostava de ter.

O exemplo haitiano de ser uma revolta escrava bem sucedida, quando a escravidão era realidade nas três Américas, resultou no mal que deveria ser combatido. As maiores repressões a rebeliões negras no Brasil se deram no período da revolução haitiana, temendo-se que pudéssemos nos transformar num Haiti.

Mesmo isolado e tendo que combater as maiores potências mundiais (França, Inglaterra e Espanha), o Haiti não só as venceu, mas se transformou na “Pérola das Antilhas”, como era chamada por ter uma economia pujante impulsionada pela cana de açúcar, base da economia mundial da época.

Os bem-sucedidos ex-escravos aterrorizavam as elites brancas, que passaram a ter como política o combate ao “haitianismo”. Neste período, Estados Unidos, Brasil e toda a América espanhola escravocrata se uniram e isolaram o país para que o exemplo de libertação não contaminasse a região.

Até o revolucionário Simão Bolívar deu as costas ao Haiti, só reatando a relação em 1816, quando o presidente haitiano Alexandre Petion forneceu dinheiro e armas para os soldados de Bolívar na condição de que ele libertasse os escravos nas nações independentes.

De lá para cá, o tratamento com o Haiti tem sido de discriminação, racismo e isolamento. Hoje, quando vemos a ajuda brasileira e norte-americana ao país, percebemos que é pouco, lembrando, por exemplo, que foi Thomas Jefferson (então presidente dos Estados Unidos, que se dizia avesso à escravidão, mas tinha escravos e defendia a superioridade racial) que ofereceu à França ajuda para restaurar a escravidão no Haiti com a anuência brasileira. Por isso a ajuda aos haitianos ainda é nada diante da nossa omissão histórica com aquele povo. 




 

 

Maurício Pestana