Esmeraldo Soares Tarquínio de Campos Filho, o eterno prefeito de Santos, teria completado 80 anos em 12/4. Foi a figura política de Santos mais importante do século 20, não pelo que fez exatamente, mas pelo legado moral de ter atravessado toda a ditadura militar na resistência democrática.
Foi imerso naquele período de terror político pela avalancha de fatos, pagando um alto preço, para emergir vitorioso do outro lado, nos braços de seu povo, ainda que fosse para conduzirem seu corpo sem vida à tumba em que descansa.
Tarquínio foi a verdadeira bandeira da autonomia política de Santos, e seu enterro foi uma das maiores manifestações populares que a cidade viu em sua história. Havia legado sua vida à luta pela democracia.
As circunstâncias fizeram com que legasse à cidade também sua morte. Foi o centro em torno do qual a cidade perdeu seus direitos políticos e voltou a reconquistá-los, de 1968 a 1984.
Morreu poucos dias antes de disputar sua primeira eleição livre após dez anos de cassação. Nas urnas, foi eleito deputado estadual mesmo morto.
Não destinado a fazer sombra
Desde o início da ditadura Tarquínio fez parte do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), a única oposição consentida pelos militares. O MDB existia apenas para legitimar internacionalmente o regime brasileiro. Não era destinado a fazer sombra. Especialmente em Santos, “cidade vermelha”, sede do “anarco-sindicalismo”, como dizia o jargão dos quartéis na época. Em 1964, ano do golpe, Santos perdeu seu prefeito José Gomes, cassado, teve suas lideranças políticas presas, os sindicatos sob intervenção, um navio-presídio ao largo do porto.
Logo em 1966 tentou disputar a prefeitura em uma eleição tampão. Venceria, se sua candidatura não tivesse sido autorizada somente 20 dias antes da votação dias antes da votação. Voltou à luta em 1968, trazendo Oswaldo Justo como vice. E venceu, contra tudo. Socialista em plena guerra fria, democrata em meio à ditadura, negro numa sociedade infinitamente mais racista do que é hoje.
Foi demais para os militares e a elite santista ligada ao golpe. Teve seus direitos políticos cassados dias antes da posse. Seu vice, Oswaldo Justo, recusou-se a assumir a prefeitura naquelas condições. Veio a intervenção militar, com o general Clóvis Bandeira Brasil e, depois dele, a decretação da cidade como “área de interesse da segurança nacional”. Foi o início de um ciclo de prefeitos nomeados pelos militares, que durou até 1984.
Durante esse período, os santistas tornaram-se cidadãos de segunda classe em seu próprio país. Como os demais brasileiros, já não elegiam o presidente e o governador. Deixaram de contar até para a eleição do prefeito da cidade.
O herói legítimo da cidade
Foram 20 anos de campanha pela autonomia política. Tarquínio esteve à frente dela durante todo o tempo. Para viver, tornou-se comentarista em um programa de tevê muito popular na época, que se chamada “Titulares da Notícia”, na TV Bandeirantes, e cantava blues em algumas casas noturnas de São Paulo. Cantava bem. Foi quando o conheci para jamais esquecê-lo.
Com o fim de sua cassação, candidatou-se a deputado estadual em 1982, mas morreu no dia 10 de novembro, cinco dias antes do pleito. Com a volta da autonomia política, seu vice, Oswaldo Justo venceu a eleição fora de data de junho de 1984, uma espécie de justiça poética feita com votos livres, uma retomada de onde havíamos sido interrompidos.
Tudo na política de Santos, desde estão, traz a marca daquele negro forte, culto, sorridente como podem ser os que estão de bem com a vida. É um herói legítimo da cidade.

Esmeraldo Tarquínio