Sempre que ouço algum cachorro ganindo, me vem a imagem da ‘carrocinha’…e do homem de roupa caqui, apinhado na carroceria do carro com o laço na mão. Minha mãe gritava: o Petit tá na rua? E a gente saía feito doida atrás do nosso amigo. Quem é do meu tempo deve lembrar da ‘carrocinha’.

Não sei se é uma memória composta por outras memórias, mas tenho para mim que certa vez abracei o Petit para não ser laçado e foi um ‘pega pra capar’ na rua, uma discussão enorme com o carrasco, uma choradeira danada.

A gente podia até dizer que o cachorro tinha dono, mas o feito de laçar o animal parece que aumentava o tamanho do homem de caqui.

Eis aí um dos meus primeiros contatos com a maldade…e não adiantava dizer que isso era um trabalho, que havia cães raivosos, que era uma lei, que cachorro com dono usava coleira, etc. Só sei que a cara de mau do perseguidor e a visão do desespero dos cães me apavora até hoje.

Esses olhares de prazer diante da captura das vítimas, olhares gélidos, olhares que trazem a sensação de olhos de boneca, com a fealdade da opressão é o que me guia na definição de quem é bom e de quem é ruim.

O homem da carrocinha chegou ao cargo de dirigente do país e com ele outros agentes funerários, bastiões da morte.

Duvida? Preste atenção nos olhos sequiosos e espremidinhos da Damares e do Guedes, no brilho mal-intencionado dos ex da educação e no do atual, no vazio do olhar azul do ex do meio ambiente, no reflexo do nada dos olhos dos deputados e senadores ‘fechados’ com o coiso, nas centelhas corrosivas que saem dos fanáticos…há nesses olhares algo além de estarem nas caras: há perversidade.

Diz-se que pistoleiro tem um olhar ‘calmo’ de quem espia o vácuo, um olhar para o nada que não reflete nem a alma, suposto que não a tenha. São eles (e muitas elas) que ocupam hoje o planalto e se satisfazem com a fome, com a sordidez, com o escárnio contido nas filas por ossos e pés de frango; que diante de 600 mil mortos lucraram bilhões; que são incapazes de ouvir os ganidos e se apiedar; que são o que não deve existir.

Torço para que um dia o ‘homem da carrocinha’ seja mordido por um cão raivoso, distante de qualquer ajuda que o salve, diante daqueles que de tão maltratados sequer têm opinião.

Torço para que isso não demore, para que o vazio de seus olhos nunca mais se dirija a ninguém. Torço.

Rita Braglia é jornalista, ambientalista, divulgadora das causas indígenas e quilombolas, apoiadora de todos os movimentos de solidariedade.