E também já não haverá História, ou as histórias de afrodescendentes e judeus. Basta, porém, que esses grupos reivindiquem suas vivências históricas peculiares para que se vejam acusados de construírem para si destinos específicos e gerarem conseqüente animosidade, responsabilizados pelo que seria uma recusa em se dissolverem na História geral e comum.
Geral, mas não de todos. Comum, mas não a todos. Pois o geral e o comum têm sido uniformidade a varrer para o nada a percepção de uns outros pontos de vista que lhe são não apenas diferentes, mas contrários; rugosidades, reentrâncias, asperezas sobre a superfície supostamente límpida e espelhada.
Há as histórias dos que sofreram a História, os que viveram em guetos e senzalas; em carroções eternamente nômades ou enfiados nas lonjuras de vastas florestas. Indígenas, ciganos, afrodescendentes, judeus. Histórias que não são apenas passado, mas que prosseguiram ainda além da derrubada dos muros dos guetos ou da extinção das senzalas e seguem até hoje, de pleno direito, muito embora pareçam mera reivindicação rancorosa dos interessados a uma sociedade “geral” e “comum” que continuamente demonstra, de muitas formas, a sua ampla incapacidade de reconhecer-se histórica e culturalmente plural, desigual e contraditória.
Muito ao contrário; de uns dentre “nós” se exige que esqueçam, que se lhes apague a memória e passem a absorver umas lembranças que jamais lhes pertenceram; ou antes, que lhes pertenceram, sim, mas de um modo totalmente diverso.
Ou se aplainam à força diferenças e especificidades de forma que nada mais reste senão a memória única e geral ou se as admitem — e então não será mais a História nem única nem isenta de confrontações. Pois há um ponto a partir do qual recebem as histórias negra e judia o impacto sangrento dessa outra e pretensamente geral narrativa “de todos”. Um dia, “todos” fomos apanhar escravos na África e pagar-lhes o trabalho com cinco séculos de inferno; um dia, “todos” perseguimos e assassinamos judeus, dois milênios a fio, empregando sucessivamente novas tecnologias para o massacre e embasando-o à luz de sucessivas filosofias e concepções de mundo.
Pois melhor seria que todos estivéssemos assolados, perseguidos, assassinados, escravizados, torturados no açoite, nas senzalas, no esquecimento do que fomos, rostos apagados pelo atrito, continuamente esfregados contra o muro de cimento rugoso dessas espantosas jornadas de trabalho que iam da aurora ao ocaso, erodindo o que poderia ter restado de humano na alma dos cativos. E na dos senhores.
Melhor seria que todos, hoje, vivêssemos sob o terror da humilhação de uma palavra, do achincalhe de um nome, um simples nome que, articulado aos nossos ouvidos, tivesse tanto o poder de descrever o que somos quanto o de nos atravessar, como uma espada, na profundeza ancestral do nosso ser. Melhor seria que em todos os passos da vida, do berço ao túmulo, nos pairasse sobre as cabeças, como um cutelo de carrasco, o nome.
Um homem é um homem. E, no entanto, poucos escritores houve, neste país, que não tenham distinguido certos personagens não pela diversidade da sua humanidade, mas por um nome, indicativo da condição de negro ou de judeu. Um personagem ou é “moço”, “rapaz” ou então é um “mulatinho”, um “negrinho” ou seus correlatos depreciativos, como se não fosse moço ou rapaz o afrodescendente, como se a sua condição — por princípio, unicamente a ele próprio relevante — lhe imprimisse uma marca poderosa ao ponto de elidir nele qualquer outra. Não é jovem ou velho, pobre ou rico, alegre ou triste, bem ou mal vestido — é um negro.
Ai de ti, negro! Ai de ti, judeu! Porque tendes nomes perante os anônimos, os que não precisaram de nomes porque tudo era em seu nome e interesse, os que habitavam um vasto nome que tudo envolvia, tão grande que jamais precisava ser articulado, um nome que se pretendeu e se pretende ainda “de todos”, um nome que se impôs pela violência e quis apagar os vossos, em seu anonimato hipócrita. Fazei cessar os ódios contra vós, desisti de vós mesmos, das vossas marcas, dos vossos nomes, das vossas histórias! Tratai de esquecer as velharias do passado, porquanto o anonimato vos convida amorosamente a somardes num “todo” que antes não era vosso, que antes se vos recusou, que antes vos massacrou, mas que agora se vos abre, acolhedor e cálido. Vinde, somai conosco em “nossa” história; sede, também vós, anônimos.
Mas que se passa?
Que são todos esses gritos, todos esses cadáveres? Que são essas partes “de nós”, esses pedaços da nossa unidade indivisa de homens, puros e simples homens, sem nome que não seja o “todo”, sem história que não a “de todos” e que, entretanto, vêem-se continuamente empurrados a vivências exclusivas? Esses seres outrora diferentes mas já pretensamente absorvidos na sociedade “geral” e “de todos”, e que entretanto habitam continuamente as arestas mais precárias e insalubres da nossa casa geral? Quem são esses que vivem pior, que ganham menos, que morrem mais e mais cedo, ainda escravos, sim, amontoados em barracos, superlotando infectos presídios, espalhados pelas calçadas e sob viadutos? E que povo é esse, eternamente eleito para receber em cheio as primeiras ondas dos inevitáveis e periódicos espasmos da “nossa natureza humana” genocida, ou que se vê eleito como eterno opressor pela “nossas” santas fúrias libertárias, de diferentes matizes ideológicos, que jamais conseguem libertar-se da própria incapacidade de revolucionar o mundo e se acomodam na solução fácil de culpar ou o judeu ou o pequenino país dos judeus por todos os males? Ai de ti, negro! Ai de ti, judeu! Pois já não sois senão “nós” e, ainda assim…
Perdoai-nos! Não é por mal, compreendei! É que uns precisam inevitavelmente ser miseráveis, ganhar menos, viver pior e morrer mais! Uns precisam inevitavelmente rechear as engrenagens das “nossas” máquinas políticas ou religiosas de moer carne humana. Já não sois mais os negros e judeus do insulto, já nos repugna insultar-vos com vossos próprios nomes, embora ainda cultivemos o derivativo das piadas; ainda assim, hoje sois homens, simplesmente, como “todos”. Apenas ocorre que nós, os “homens todos”, costumamos oprimir e assassinar “uns” aos “outros”. E disto sucede que “nós uns” haveremos de comprovar a maldade geral dos homens oprimindo e matando a “vós outros”. Eis como a injustiça geral dos homens sempre vos lesa. Compreendei, não é por mal, mas pela natureza humana. Racismo? Anti-semitismo? Coisas do passado!…
E se ainda hoje insisti em identificar na vossa opressão algo além da opressão comum a toda a espécie humana, é sinal de que vos aflige uma outra vicissitude igualmente humana, à qual, não obstante toda universalidade, sois mais particularmente sensíveis, talvez por razões históricas: o hábito da vitimização, isto é, a tendência a enxergar-vos sob a ótica de uma autopiedade histórica, que vos leva a crer caírem unicamente sobre vossas cabeças as agruras que afligem igualmente todo o gênero humano.
Nada mais preconceituoso! Com que direito vos atreveis a aplicar sobre vós mesmos essas distinções que apenas a nós outros é dado colocar ou retirar? Quanta arrogância! Quanta pretensão! Julgais, por acaso, terdes o poder de enxergar em vós mesmos ou o negro ou o judeu, depois que nós outros tivemos a bondade de declarar-vos nossos iguais? Quem pensais que sois?
Desde que se nos tornou demasiadamente insuportável a vergonha pela formalização do racismo e do anti-semitismo, talvez por ainda os exercitarmos tanto na vida prática, tornou-se-nos também incômoda qualquer insistência maior numa negritude ou judeidade. Se nos privamos desse antigo privilégio de apregoar a vossa diferença, quem sois para pretenderdes usufruí-lo? Sois iguais a nós outros; a ninguém, sequer a vós, muito menos a vós, é dado contradizê-lo. E se nisto nos contrariardes, se insistis em identificar as diferenças que formalmente rechaçamos, embora as façamos valer em sua pior forma, então haveremos de lançar pressurosamente sobre vós o peso não das velhas infâmias a que vos fizemos habituados, mas o da nossa própria velha infâmia, da qual hoje tanto mais nos envergonhamos formalmente quanto nos servimos à larga: a infâmia do racismo. Sim! Se nos contradisserdes, então racistas sereis vós mesmos, racistas, racistas! Eis-nos alijados desse fardo medonho, eis que o atiramos sobre vós e já não nos pesa, finalmente em paz com a consciência, vingados, aplacados: racistas sois vós!
Vitimização! Eis que vos demos um mundo novo e melhor, em que já não vos vemos sofrer, mas apenas vitimizar-vos! Se antes recusávamos a vossa humanidade e em vós não enxergávamos senão monstros, hoje vos aceitamos por gente, desde que renuncieis ao que antes nos fazia odiar-vos. Do contrário, sereis vós a antagonizardes o mundo, sereis vós a traçardes ao vosso redor um círculo isolante, a erigirdes barreiras de proteção contra a uniformidade indistinta de “todos nós”, muito boa a quem não se tenha habituado a viver sob o cutelo de uma simples palavra. Não, não sois mais estigmatizados; hoje, sois vós a criardes o estigma, quase como um adorno, tal como fazem as tribos urbanas, nas metrópoles, para vos diferençardes do comum a “nós todos” e garantirdes a sobrevivência de uma identidade de grupo que, de outro modo, se haveria de dissolver, liquefazer-se, como sucede ao conjunto de relações humanas e sociais em nossos dias. Contra a inevitável perda da velha identidade, quereis reviver o anti-semitismo e o racismo. Ó mundo tão doce, ó tão belas criaturas! Eis que santificamos nosso velho preconceito à vossa custa, lavamos as crostas das almas encardidas na água que bebeis!
Não, não há anti-semitismo nem racismo porque também não há honestidade necessária tanto para admiti-los quanto para combatê-los, no mundo hipócrita que habitamos. E sequer chega a ser grande novidade o jogo sujo.
O combate ao anti-semitismo e ao racismo é apenas
o resgate de uma dívida histórica da nossa civilização

Miguel Fernandes