Neste primeiro semestre de 2014 tive a oportunidade de realizar duas viagens para a cidade de Nova Iorque (NYC), sendo uma em janeiro e outra no final de maio. Ao contrário da grande parte dos brasileiros que para lá se dirigem, não fui em busca de turismo de compras ou do deslumbre da “capital do mundo”.

Na verdade, a meta era (e é) justo o lado oposto deste universo ao qual Malcom X denominava de “pesadelo americano” (amerikkan nightmare). Não sem razão, faziam mais de vinte anos que não ia aos Estados Unidos (EUA). Pouco ou nada havia de interesse aparente, a não ser o que se salva do jornalismo radical, principal opositor da Era Bush Jr. Por outros caminhos, passando longe do centro da política, encontrei um elo com o melhor do legado dos tempos das lutas de libertação dos afro-americanos, lutas estas que marcaram a todos nós ao sul do mundo, em especial ao final da década de ’80 até o Levante de Los Angeles. 

Minha última viagem havia sido no fatídico ano de 1992, em agosto. Foi quando conheci o berço do Partido Pantera Negra pela Autodefesa (Black Panther Party for Self-Defense, BPP), a cidade de Oakland, área metropolitana de San Francisco (conhecida como Bay Area), estado da California. Particularmente tomei contato com ex-militantes do BPP (former panthers), gente dedicada embora muito sectária e que militava no Partido Socialista de Todo o Povo Africano (All African People’s Socialist Party, APSP) e em sua estrutura de massas, o Uhuru Movement (uhurumovement.org).

Na ocasião, tanto o tema do Levante de Los Angeles (e na sequência, dos levantes em Detroit, Washington D.C., Chicago e outras cidades de porte) como do julgamento dos policiais que brutalizaram o trabalhador negro Rodney King estava bem vivo. Nas ruas dos bairros de maioria negra ou latina, as camisetas refletiam um estado de ânimo não verificado em escala organizativa.

Até dava para entusiasmar, pois ao menos no gueto, a adesão ao sonho americano era pequena. Quase tudo ficou pelo caminho na dimensão cultural e a conseqüente promoção do culto aos “gangstas”, decretando o fim do poder transformador da cultura hip-hop antes de sua quase incorporação no sistema da indústria cultural em sua pior faceta. Mas, por sorte, nem tudo estava (e tampouco está) perdido. Particularmente buscava a arte marcial afro-americana que também é a vertente oculta desta cultura de rua (hidden secret of hip hop culture), surgida no coração do bairro mais deprimido economicamente da grande NYC ao final dos anos ’70, o emblemático South Bronx.

A arte, cujo nome mais recente é 52  Hand Blocks, tem sua forja em NYC, em particular nos bairros negros do distrito do Brooklyn, com suas ruas coalhadas de gangues (período pós-Panthers). Infelizmente, no final da segunda década heróica (’60 e ’70 do século XX), é quando o herói do gueto passa a ser o cafetão (pimp, depois vieram os gangsteres nos anos ’90, na era das guerras do crack – Crack Wars) e é louvada a vida bandida (thug life). Neste período, os últimos especialistas (wise guys) saem do sistema prisional e diluem esta sabedoria da sobrevivência nos círculos de confiança de tipo familiar ou de irmandade (brotherhood). Conhecer este legado em seu berço de origem era a (re) descoberta e a razão da viagem.    

Em escala societária, a luta dos Panteras Negras como sucessores de Malcom X foi a conquista da ação afirmativa como política de Estado. A luta étnico-racial e igualitária no coração da superpotência estourou a partir do Lei dos Direitos Civis (Civil Rights Act) assinado pelo presidente Lyndon B. Johnson (vice de John Fitzgerald Kennedy) e que fora eleito em 1964, mesmo ano da assinatura da legislação federal que terminava com as leis de segregação racial (Jim Crow Laws).

O Estado respondeu de duas formas generalizadas. Uma repressiva, através do FBI e o Programa de Contra Inteligência (Cointelpro), na sua versão específica para destruir as estruturas comunitárias que davam suporte ao BPP (introduzindo a heroína em larga escala no final dos anos ’60). Outra resposta veio pelas leis de ação afirmativa, cujo efeito direto no Brasil é a aplicação da política de cotas. Duas gerações após (mais de 40 anos) e existe uma vigorosa classe média afro-descendente, distante dos bairros de origem e com integração quase perfeita ao padrão de vida dos EUA.

No andar debaixo, as metrópoles da superpotência se equilibram na chamada era pós-racial, embora os níveis de pobreza (proporcional a riqueza lá circulante) não tenham melhorado significativamente desde 1992. E, ao menos nos territórios urbanos que escapam da gentrificação – movimento de sobrevalorização das zonas das cidades, expulsando a população nativa para a chegada de profissionais liberais – existe um intento real (esforço permanente de minorias de ativistas) de reatar laços comunitários, subir os níveis de renda e apontar saídas coletivas.

O impacto cultural (no sentido da norma e do legado da diáspora) da arte marcial afro-americana atravessa a NYC que vive em torno destes dilemas. O coração da ilha de Manhattan é o epicentro da cultura do capitalismo (ao menos sua versão mais liberal e também a neoliberal), onde as liberdades de escolha e o consumo suntuoso andam lado a lado. Esta é a cidade vendida nos roteiros turísticos.

O outro lado é logo ali; o mundo como nós o conhecemos no Brasil começa ao norte da ilha, na zona do Harlem (incluindo East Harlem, de maioria porto-riquenha), histórico bairro de maioria negra, recheado de imigrantes do caribe de fala inglesa e holandesa (das West Indians, como Barbados, Jamaica, Ilhas Virgens, Bermudas, Aruba dentre outras ilhas). Cruzando o rio de mesmo nome (Harlem River) começa o condado do Bronx, de relevante população originária de Porto Rico, República Dominicana, Panamá, Equador, Jamaica, México, Honduras, Nicarágua, El Salvador e das Guianas.

Já os condados do distrito do Queens – vizinho dos condados do distrito do Brooklyn –  formam a diversidade étnico-racial, mas cujo eixo mais populoso passa por Jamaica Center e sua formação afro-descendente e latina, com grande número de caribenhos de fala inglesa e latino-caribenhos. O berço contemporâneo da arte – até a metade dos anos ’90 – está localizado nos bairros de Prospect Heights e Crown Heights (onde está o temido 77th precinct da polícia de NYC), Bad Stuy, Brownsville e toda a região das Flatlands.

Nestas localidades também temos grande incidência de west indians, afro-americanos do sul, haitianos, guianenses, panamenhos, assim como demais afro-descendentes. Por fim, o legado também se encontra no distrito residencial de Staten Island, vizinho por águas a Nova Jersey (NJ), onde alguns territórios têm a denominação de Richmond Town, Port Richmond, Richmond Terrace, numa possível alusão ao clã dos Richmond, cujo membro mais conhecido, Bill Richmond, é um legendário pugilista afro-americano do final século XVIII e início do século XIX.

Conclusões iniciais

Toda esta convivência gera um mergulho de auto-reconhecimento. A reflexão que trago ao final deste primeiro texto (aqui iniciando uma série) é a de que para os olhos de um brasileiro não-negro (sou descendente de árabes e cristãos novos portugueses), nossa centralidade está justamente nos bairros de maioria afro-latina. O manancial simbólico, o afeto e o calor humano, além de mazelas semelhantes, atravessam estas localidades.

É lá onde se encontra o eco de uma cultura afro-centrada (tal como a maior parte do território do Brasil) e onde podemos observar (sentir seria o termo apropriado) o legado do Atlântico Negro, o lado reverso da maldita escravidão e genocídio advindo com a era das navegações e a expansão mercantil-colonialista pela África e o “Novo” Mundo.

Estas rotas de interpretação cultural serão debatidas a partir dos próximos textos, dando ênfase em três aspectos: o legado desta arte marcial afro-americana, sobrevivente do sistema prisional e subsumida nos ginásios de boxe profissional até o final da década de ’80; as rotas equivalentes em outros territórios assemelhados e suas respectivas tradições (como a Capoeira Angola brasileira, a ladja da Martinica, a luta dos machetes – facões – do Haiti e as práticas culturais no litoral angolano) e, o mais relevante de tudo; os significados que tais práticas podem ter nos dias atuais, em especial no país que concentra a segunda maior população afro-descendente do mundo, o Brasil.  

Nota da Redação

Bruno Lima Rocha é professor de relações internacionais, de ciência política e de jornalismo; além de membro da Constellation (http://www.c52g.com/; irmandade portadora do legado do 52 Hand Blocks), sendo um de seus representantes no Brasil.

Email e site: blimarocha@gmail.com / www.estrategiaeanalise.com.br

Bruno Lima Rocha