Neste artigo, já escrito a quatro mãos (tendo como autor principal o colega Cristian Jobi Salaini), expomos as bases de análise para compreender como o legado da arte marcial afro-americana (das artes na verdade) ganha existência real, sobrevivendo na diáspora e reencontrando-se do outro lado da Kalunga.

Para avançar neste relato analítico, entendemos como necessário a exposição de três categorias analíticas iniciais. Como não se trata de artigo acadêmico e sim de difusão de pensamento, generalizamos as ideias-guia a partir de pensadores como Fredrik Barth, Michael Banton, Paul Gilroy e Axel Honneth. Mais à frente, em outras edições desta série, aprofundaremos o debate teórico sobre como essas demandas por reconhecimento se processam no enquadramento da História Atlântica.

ETNICIDADE: O foco analítico aqui recai nas opções (caminhos, mesmo no desespero da escravidão) histórico-culturais que os grupos realizam na escolha de seus atributos étnicos como emblemas representativos. Fugindo de uma perspectiva substancialista da construção dos grupos étnicos, o objetivo é a apreensão dos atributos trocados na fronteira étnica e não em um tipo de "núcleo" duro étnico e cultural. Alinhados com a teoria da etnicidade, visualiza-se os aspectos relacionais da identidade étnica.

No caso das práticas de artes marciais da diáspora africana no Novo Mundo, entendemos que o sentido de pertencimento dos não-africanos (não afro-descendentes ou não-negros) está na convivência coletiva e nas práticas comuns. Neste sentido, a territorialização urbana, especificamente a metrópole afro-americana dos bairros de maioria negra em Nova York (NYC), Estados Unidos (EUA) são o epicentro da vivência do pugilismo afro-descendente como aspecto central na luta pela sobrevivência durante as oito primeiras décadas do século XX. 

ETNOGÊNESE: É quando a identidade étnica é articulada pelos atores sociais com a finalidade de construir um espaço representativo dentro de unidades estruturais maiores (Estado nacional, enquadramentos transnacionais, etc.). Neste sentido as agendas políticas são elencadas pelos grupamentos com a finalidade de construção representativa. Aqui temos, por exemplo, o resgate do pugilismo de matriz africana através das disciplinas do Stato, Jailhouse e a partir da década de 1960, com o estilo contemporâneo do 52 Blocks.

A organização Constelattion International intenta consolidar essas práticas físicas territorializadas – em princípio com origens determinadas em uma zona empobrecida e violenta do condado do Brooklyn (NYC) – para ultrapassar as barreiras do gueto, lançando-se num tipo de agenda mais estruturada.

Nossa idéia inicial é, em outras palavras, contemplarmos as relações iniciais entre grupos étnicos, cultura e política. O 52 blocks não nasce no contexto prisional (ao contrário do que já pula na indústria cultural, como falaremos em outros artigos), ainda que nesse contexto tenha apresentado uma possibilidade de recriação semântica. O fato é que os elementos da arte marcial afro-americana vêm sendo retrabalhados pelos atores sociais do presente enquanto possibilidade de reconhecimento social.

Neste sentido, cabe notar que estamos a falar de sujeitos imersos em situações históricas de desrespeito social. O sentimento de desrespeito, conforme nos ajuda a pensar o filósofo Axel Honneth, apresenta-se enquanto um elemento potencial para que percepções individuais de desrespeito se incorporem em um ordenamento comunal: faz-se necessária a construção de uma ponte semântica entre o individual e o coletivo. Vozes aparentemente dispersas ganham cada vez mais um sentido coletivizado (52 Constellation International, por exemplo).

O modelo conceitual proposto pelo filósofo Axel Honneth auxilia neste caminho, já que o autor articula com a inter-relação de diferentes camadas no campo da luta por reconhecimento: o amor, o direito e a estima. O filósofo demonstra como esses elementos fazem parte de uma gramática do reconhecimento entre um “nós” e os “outros”, que ativados por percepções de situações de desrespeito social articulam uma luta por reconhecimento. Estamos frente, portanto, a lutas por reconhecimento que possuem uma vocação moral, fugindo de uma versão utilitarista da ação social.

Nesse sentido, não tratamos com um grupo étnico estático, claro. Indivíduos, ao articularem com as suas vivências históricas subjetivadas, transformam suas práticas corporificadas em um ponto de partida para a materialização de vozes políticas. Gingar, esquivar ou realizar um slip com a cabeça (movimento utilizado ao desviar de um soco) não se apresentam aqui enquanto metáforas políticas. Todos eles são, ao contrário, a própria política em movimento.

Obviamente esta retomada de sentido não se dá em termos totalmente plásticos se apresentando como uma “reinvenção” irrestrita do presente. O fato de a arte se apresentar ainda em termos territorializados é emblemático deste elemento: não há como fugir de alguns parâmetros fundamentais estabelecidos pela história da diáspora negra. Coloca-se a frente de formas comunicativas híbridas construídas pelas comunidades negras, o que garante sua forma aparentemente “pura” ou originária (from the hood!, direto dos guetos,  por exemplo). 

Ultrapassar esta barreira sem perder os vínculos é um desafio permanente para os que a organizam. Antes, o filtro dos negros e latinos nos EUA se dava apenas através dos ringues como forma de vida (se não emplacasse no quadrilátero o jovem seria contratado como segurança ou guarda-costas da máfia, por exemplo). Na era pós Panteras Negras (Black Panther Party) a auto-representação era dos ringues para o universo das gangues antes do advento do crack e da proliferação de armas automáticas. Já na chamada era pós-racial nos EUA, e a possível mobilidade social com a educação de nível superior, a possibilidade do abandono das próprias origens é alta (como cantava o grupo de rap político Public Enemy: “Who stole the soul?/” quem roubou a alma?). 

Daí o esforço de novos significados para manter o código guerreiro da diáspora (lutando pela honra mesmo em condições adversas, fighting for honor). O reencontro das raízes e a disputa por seus significados ultrapassam as fronteiras dos Estados nacionais nas Américas e nos levam a uma unidade de análise.

O ATLÂNTICO NEGRO ENQUANTO UNIDADE ANALÍTICA: A proposta de Paul Gilroy é apresentar enquanto unidade analítica ao estudo da diáspora negra aquilo que chama de Atlântico Negro. Tendo em vista a nossa pretendida perspectiva dentro do debate intelectual que se figura, basta dizer que se toma, como pressuposto epistemológico, uma tentativa de superação de abordagens meramente instrumentais ou primordialistas.

Não se toma nenhuma dessas perspectivas a priori, pois a perspectiva aqui é que elas não devem ser entendidas como categorias reveladoras dos processos de etnicidade; são, antes de tudo, elementos e perspectivas alocadas pelos grupos e atores, contextualmente. Gilroy  ajuda a pensar essa superação entre teorias essencialistas e anti-essencialistas da etnicidade quando mostra que o ato de “lembrar a escravidão” é moldado pelos diferentes ventos da história sem deixar,contudo, de apresentar rotas comuns. Conforme citado no início do texto, as relações com desta luta marcial com a História Atlântica será aprofundada em outras edições.

Apontando conclusões

Tanto para os militantes anti-racistas (em geral) como aquelas e aqueles interessados no auto-descobrimento das próprias raízes, os sistemas do Atlântico Negro nos permitem observar outra história da invasão e conquista das Américas e da África. Assim como o escravismo e as potências coloniais tiveram a capacidade de universalizar sua presença com a tecnologia européia das navegações e o uso de pólvora e aço; no lado oposto, os povos seqüestrados em África e particularmente o universo dos habitantes do território hoje conhecido como sul de Angola universalizou suas distintas práticas marciais como forma de resistência ao sistema de trabalho escravo e negação das origens.

No caso dos autores deste texto, manifestamos especial interesse na aproximação entre os herdeiros do jogo do engolo com o pugilismo dos kunenes. Ambos sistemas, compartidos no sistema do Atlântico Negro, geraram práticas de resistência observadas nas Antilhas francófilas, no subcontinente luso-brasileiro e nas 13 colônias dominadas por puritanos anglo-saxões. Ou seja, deram origem a esgrima de machetes e práticas de versões caribenhas de quilombismo (maroon),  malta (bamboulas),  esgrima de machete e bastão (luta de facões no Haiti e Kalinda da Martinica), capoeiragem (ladja) e pugilismo (damye); no Brasil, as bases do jogo de pernada, cabeçadas (batuque) e o  sistema de engolo que resultou na capoeira (Capoeira de Angola); já nos EUA, os sistemas urbanos do século XIX e XX resultaram em códigos de honra e pertencimento chamados de irmandades (brotherhood) cujos membros eram destros na arte da lâmina (navalha), bastões (como bengalas, assim como a já citada Kalinda da Martinica) e punhos.

As práticas de pugilismo fantasma (phantom boxing) sobreviveram ao massacre etnocêntrico (falaremos disso em outros textos) e ganharam as seguintes formas nesta ordem cronológica: Stato, Jailhouse e 52 Blocks. Vale aqui ressaltar que essas práticas que sempre se apresentaram como formas de resistência negra vêm ganhando novos sentidos políticos, sociais e corporais no cenário presente. A presença viva desta última forma da arte marcial afro-americana radicada no Atlântico Negro dos EUA e sua aproximação com a herança de Angola praticada no Brasil é a motivação dos autores deste texto.

*O título completo do artigo é "O legado vivo da arte marcial afro-americana: corporalidade, política e a luta por reconhecimento social – 2"

Nota da Redação: 

Cristian Jobi Salaini (salaini@gmail.com) é antropólogo e Bruno Lima Rocha (blimarocha@gmail.com / www.estrategiaeanalise.com.br) é cientista político. Ambos são professores de relações internacionais e fazem parte da Constellation International (www.c52g.com), entidade de difusão mundial do 52  Blocks.

 

 

 

 

Bruno Lima Rocha e Cristian Jobi Salaini