Manhattan, Nova York –Minha consciência não me deixa ir atirar nos meus irmãos, nas pessoas escuras, ou nos pobres na lama para defender a grande e poderosa América. Atirar neles para que? Eles nunca me xingaram de criolo (nigger, em ingles). Nunca me enforcaram. Nunca colocaram os cachorros para me morder. Nunca me roubaram da minha nacionalidade. Estruparam e mataram minha mãe e meu pai. Atirar neles para que? Como posso atirar neles? Pessoas escuras e pobres com bebês, criancinhas e mulheres. Como posso atirar em pessoas pobres? Podem me colocar na cadeia!”

Esta desafiadora declaração foi feita pelo boxeador Muhammad Ali, em 1966, no auge da sua carreira como pugilista. Foi uma amostra contundente de suas convicções como um cidadão negro norte- americano se recusando a servir um Estado que jamais tinha reconhecido sua humanidade ou a dos seus antepassados desde que estes chegaram acorrentados para trabalhar nas plantações de tabaco e algodão no sul dos EUA.  

Por este desafio ele pagou um alto preço perdendo, inclusive, seu título de campeão mundial dos pesos pesados e ficando sem lutar por quase quatro anos.

Muhammad Ali foi um atleta único. Bastante carismático era amado pela massa de pessoas pobres, invisíveis, negra, e oprimida por um Estado racista. Por outro lado, sua fama não o impedia de ser vilipendiado pela mídia branca norte-americana que se recusava a chamá-lo pelo seu nome islâmico. A bem da verdade, Ali só começou a ser verdadeiramente admirado nos EUA depois que foi constatado que tinha o mal de Parkinson, em 1984.

Nas turbulentas décadas dos anos 60 e 70, marcadas pela luta pelos direitos civis, pelos assasinatos de figuras como JFK e seu irmão RFK, de MLK Jr., Malcolm X, da Guerra do Vietnã, distúrbios raciais urbanos, e tambem pelo abuso do governo norte-americano, Muhammad Ali foi crucificado por não ser um “negro, sim senhor,” em outras palavras, Ali foi crucificado por suas convicções religiosas, políticas, sua visão social, e tambem por não aceitar a integração racial. Há uma capa icônica com o lutador de braços abertos na famosa revista Esquire como se fosse São Sebastião.

Entretanto, o que mais pesou na rejeição a Muhammad Ali foi a troca do seu nome cristão – Cassius Clay – para um nome islâmico. Sua amizade com o ativista Malcolm X contribuiu também para sua demonização por grande parte do “establishment” norte-americano.

“Ele viveu diferentes imagens para diferentes pessoas”, disse o comediante e ativista pelos direitos civis Dick Gregory. “Ele foi capaz de falar para os brancos em nosso nome: vão para o inferno.”

Mesmo tendo consciência de sua negritude, Ali tambem podia ser contraditório como quando chamava Joe Frazer “o gorilla” durante as três lutas que travaram. Este tratamento, certamente, continuou causando enorme tristeza em Joe Frazer anos depois de se aposentar do ringue.

Durante uma carreira que durou mais de 20 anos, Ali ganhou 56 lutas e perdeu 5. Um dos pontos altos de sua carreira foi sua luta contra George Foreman, no Zaire (atual Congo), em 1974, onde ele usou seu famoso estratagema de se apoiar nas cordas até seu oponente ficar cansado. Depois de aguentar a “surra” de George Foremam, Ali finalmente ganhou a luta depois de vários golpes certeiros no oitavo “round” para o delírio da massa negra que lotou o estádio de futebol.

Ali foi casado três vezes. Ele não era, o que poderíamos dizer, uma pessoa fiel às suas esposas. São notórias suas escapadas enquanto casado. Seu primeiro casamento com Sonji Roi terminou em divórcio porque sua esposa se recusava a  usar roupas de acordo com as doutrinas da seita islâmica negra.

Cassius Marcellus Clay nasceu de uma família de proletários. Sua mãe era cozinheira e faxineira. Seu pai, um muralista de uma igreja e, geralmente, culpava discriminação por não tornar-se um artista renomado. Juntamente com seu irmão, Rudolph, Cassius Clay recebeu de seu pai as ideologias separatistas de regresso a África promulgada pelo jamaicano Marcus Garvey. Sua frase “Eu sou o maior de todos” veio diretamente desta ideologia.

A morte do adoslecente Emmett Till, de apenas 14 anos, no Mississippi, no ano de 1955, por assoviar para uma mulher branca, e a foto do jovem totalmente desfigurado dentro do caixão aberto durante o velório deixou um marca profunda na psiquê do jovem Clay, que tinha a mesma idade do jovem assassinado. Muitos afirmam que este episódio foi o estopim para sua identidade racial e política.

Por toda sua ambição e esforço, a educação escolar e segregação foram um impedimento para seu avanço. Ali nunca foi um bom estudante. Numa turma de 391 estudantes de ensino médio, ele ficou no 371 lugar. Ali nunca aprendeu a ler própriamente. Ele jamais leu o Alcorão, o livro religioso do islamismo. O que  aprendeu do Livro Sagrado foram passagens que  memorizou após ler centenas de vezes.

Em 1960, fazendo parte da equipe olímpica dos EUA, em Roma, ao ser perguntado por um repórter soviético sobre o problema racial, Ali ordenou a ele para “dizer aos seus leitores que há pessoas qualificadas tratando deste assunto. Eu não estou preocupado com o resultado final.”

Mesmo voltando com a medalha de ouro olímpica para sua cidade natal de Louisville seu tratamento não foi diferente ao dado a outros afro-americanos. A ínica diferença agora estava no fato dele ser chamado “criolo olímpico”.

Classius Clay foi apresentado a Nação do Islã, mais conhecida pela mídia norte-americana como “Muçulmanos Negros” no inicio dos anos 60, em Louisville, sua cidade natal. O líder do grupo Elijah Muhammad defendia a ideologia que as pessoas brancas eram diabos criados geneticamente por um cientista do mal. Anos depois de ter deixado o grupo para seguir uma doutrina mais ortodoxa Ali creditou a Nação do Islã por oferecer aos afro-americanos uma auto-estima com a mensagem “negro é lindo”. “A cor de uma pessoa não a torna diabo”, ele afirmou.

Até mesmo os Beatles na sua primeira turnê, nos EUA, entraram na euforia de Muhammad Ali aparecendo num de seus treinos para uma foto publicitária. Na ocasião estavam tambem Malcolm X, a pessoa mais carismática da Nação do Islã juntamente com sua família e alguns convidados.

Seu envolvimento mais direto com o islamismo praticado por parte da comunidade afro-brasileira era questão de tempo. Quando ele finalmente anunciou que fazia parte da Nação do Islã, um grupo que era vilipendiado pela mídia branca do país, isto certamente causou um furor dentro da comunidade afro-americana que tinha um enorme orgulho do seu campeão.

No dia 28 de abril de 1967, Muhammad Ali se recusou a servir o Exército e embarcar para o lamaçal do Vietnã. Seu motivo legal foi “ discordante conciencioso”. Numa de suas frases mais famosas, ele disse que não iria para a guerra porque não tinha nada contra os vietnamitas. Seu título de campeão foi imediatamente abolido pelos comitês de boxe no país. Meses depois, foi declarado culpado por evasão do Exército, uma decisão que ele apelou. Ali ficou sem lutar até seus 29 anos, perdendo com isso três anos e meio no ponto alto de sua carreira.

Neste meio tempo o boxeador se sustentou fazendo palestras, atuando em comerciais, participando de filmes, e até mesmo estrelando uma peça na Broadway. Muhammad Ali trabalhou tambem como comentarista de boxe junto com seu amigo e jornalista Howard Cosell, um de seus defensores durante o período de sua suspensão dos ringues.

Seu caso foi parar na Corte Suprema norte-americana. Ali retornou aos ringues no final do ano de 1970. Sua primeira grande luta depois de seu retorno aconteceu no ginásio “Madison Square Garden”, em Nova York, contra Joe Frazier, o atual campeão. Nesta luta antecipada estavam presentes personaldades como a viúva de MLK, jr., Coreta Scott King, Bill Cosby, Diana Ross, Jesse Jackson, Sidney Potier. Um dos grandes nomes na luta pelos direitos civis, o reverend Ralph Aberanthy, afirmou que Ali era a “Marcha em Washingon com dois punhos”.

No final do ano de 1974, o então presidente Gerald Ford, o convidou para uma visita a Casa Branca. Esta ocasião era uma mostra clara que a animosidade do país com o grande lutador estava ficando para trá. Ali aproveitou a oportunidade para brincar com o presidente e dizer: “Você cometeu um grande erro ao convidar-me porque agora eu quero o seu posto”.

Em 1978, depois de várias lutas, seu médico pessoal o aconselhou a aposentar-se do ringue dizendo que seus movimentos estavam mais lentos e ele estava engolindo as palavras. Era um sinal claro dos estragos físicos causados pelas lutas. Ele foi diagnosticado com a doença de Parkison no início dos anos 80.

Em 1999, com evidente sinais da doença, Ali apareceu na caixa de cereal Wheaties. Ele foi o primeiro boxeador a ter seu nome vinculado a este produto. No mesmo ano ele esteve na Bolsa de Valores de Nova York para tocar o famoso sino na virada do ano. Em 2003, sua vida foi retratada em um livro de arte que custava US$ 7,500. Sua vida foi tranformada em um filme para televisão e tambem para o cinema, estrelado o ator Will Smith. Ambos os filmes, naturalmente, adocicaram suas visões políticas e raciais.

Em 2005, o então presidente George W. Bush, chamando Muhammad Ali de "o maior lutador de boxe de todos os tempos" o presenteou com a Medalha da Liberdade na Casa Branca.

Muhammad Ali não aceitou a coleira de ouro que certamente queriam lhe pendurar no pescoco para que ficasse calado dentro do ringue. Seu legado como um grande desafiador do racismo norte-americano e sua injustiça não será esquecido.

 

 

Edson Cadette