As explicações para os ataques ao Hamas, que controla Gaza depois de ter vencido as eleições palestinas, em 2.006 – e sido impedido de governar apenas porque não aceita a existência de um Estado Judeu -, não se sustentam sob nenhum aspecto: nem o lançamento de foguetes quase artesanais pelo grupo na direção de território israelense; nem a retórica israelense americana de que se trata da guerra ao terrorismo. Após o 11 de setembro, sob Bush, todos os que contrariam interesses americanos foram transformados em terroristas, nós sabemos.
O que está acontecendo é um massacre sem precedentes na história recente. Tanto isso é verdade que, segundo a ONU, entre os 420 palestinos mortos e mais de 2 mil feridos em uma semana de bombardeios sistemáticos a Gaza, 25% do total é constituída por civis – homens, mulheres e crianças – que passaram a alvo da artilharia israelense.
Tais crimes – e não há nenhum argumento a justificá-los – por todas as Convenções Internacionais, inclusive a de Genebra, são crimes de guerra, e seus responsáveis seriam passíveis de serem levados a Tribunais Internacionais, se a ONU não tivesse se transformado num organismo fantasia para o teatro das grandes potências. A condenação internacional a tais crimes e as Resoluções aprovadas, todos sabemos, ficam no campo da retórica.
Por outro lado, soa a despropositado deboche, a justificativa produzida pela Secretária de Estado Condoleezza Rice, e dos seus aliados – incluídos aí uma parte de governos árabes parceiros da Casa Branca – de que os ataques se justifiquem porque Israel “tem o direito de se defender”.
O uso desproporcional da força é flagrante. De um lado, o quarto maior Exército do Planeta, com todo o seu arsenal de guerra e ameaçando invadir território palestino, depois de ter lançado centenas de bombas de alto potencial destrutivo sob casas, universidades e mesquitas; de outro, um partido político, impedido de governar o seu próprio território, depois de vencer eleições monitoradas pelos próprios americanos, com uma capacidade militar que se baseia em artefatos caseiros.
A favor do Hamas, diga-se, foi impedido de governar apenas porque não aceita a existência do Estado judeu. A situação do outro lado é exatamente a mesma: o Estado judeu também não aceita um Estado Palestino (pelo menos não até agora) contrariando Resoluções da ONU e o Direito Internacional.
A prova maior de que não se trata sequer de uma guerra, mas de um massacre, está na contabilidade de vítimas de cada lado: enquanto o número de palestinos mortos, inclusive civis, já passa de centenas, são apenas quatro – também civis, registre-se – as vítimas do outro lado. Óbvio, que a matança de lado nenhum se justifica, porque a guerra fundamentalmente é a expressão da irracionalidade humana em última escala.
Entretanto, pretendem os EUA e o Governo israelense, que o mundo acredite, que o terror em Gaza parte das vítimas, pretendendo inverter conceitos e a realidade, e numa agressão à inteligência de todos os homens e mulheres amantes da paz.
Na crise do Oriente Médio que une numa lógica fratricida e secular judeus e palestinos, separados por ódios milenares e disputas de território, é oportuno lembrar o conceito africano do Ubuntu, palavra oriunda das línguas Zulu e Xhosa, desenvolvido no processo de reconciliação que pôs fim ao odioso apartheid na África do Sul e que se baseia na crença no compartilhamento que conecta toda a humanidade. A humanidade para os outros, na tradução para a nossa Língua.
Ou na explicação didática do Arcebispo Desmond Tutu: “Uma pessoa com ubuntu está aberta e disponível aos outros, não-preocupada em julgar os outros como bons ou maus, e tem consciência de que faz parte de algo maior e que é tão diminuída quanto seus semelhantes que são diminuídos ou humilhados, torturados ou oprimidos.”
Aliás, mais do que ninguém, o povo judeu conhece, pelos horrores do holocausto mais recente e na sua secular história, inclusive dos 40 anos de escravidão bíblica no Egito, o que significa a negação desse conceito que traduz a sabedoria milenar africana na solução de conflitos.
Pelo fim do massacre e da matança de palestinos e pela Justiça e a Paz no Oriente Médio, só possível quando o povo judeu buscar a solução dos seus conflitos com os vizinhos pela ótica e pela ética humanitária do Ubuntu.

Dojival Vieira