Lembro-me pouco dele, foi-se quando a memória ainda não se fixara em mim, mas disso me recordo, a sua presença se impunha como uma calma por dentro da gente. Era um homem que sabia concentrar-se, talvez tivesse mesmo sido um bom piloto e, se o conhecimento instintivo que tenho dele não me falha, teria sido piloto de caça. Teria sido, pois não foi, pois era negro o meu avô e tanto a Aeronáutica como a função de piloto de caça lhe eram vedadas, não por alguma lei escrita, mas pela sensatez que os negros do tempo do meu avô eram ensinados a ter, a sensatez de saber que havia certas leis que não se escreviam e que lhes interditavam coisas. Chamava-se a isso ‘conhecer o seu lugar’.
Tentou a polícia; prestou concurso, passou, mas não sabia maltratar as pessoas e isso era exigência da função. Outra lei não escrita que qualquer policial do tempo do meu avô deveria saber. Desistiu e foi candidatar-se a servente no serviço público federal; aprovaram-no e o puseram no Catete. Era o tempo do Getúlio.
Às voltas com o seu esfregão diário, espichava um olho guloso para a motocicleta que levava os despachos oficiais da presidência, uma máquina luzidia, daquelas com caçamba ao lado. Na caçamba iam os despachos, no guidom queria ir o meu avô. Um dia o piloto da máquina faltou e tinha despacho urgente a levar para Petrópolis, onde estava o ditador. A coisa era séria e não havia quem pudesse ir. Num gesto patriótico, meu avô se apresentou e como fosse caso de vida ou de morte, entregaram-lhe o uniforme e a motocicleta e ele partiu.
Bateu recorde de percurso Rio-Petrópolis e passou uns 20 anos no dorso da máquina, em altíssima velocidade. Diziam que ele voava em cima da motocicleta. Mas ele queria mesmo era ser aviador.
Se aquilo que percebo da sua presença em mim for exato, meu avô teria gostado de um sujeito que ficou amigo do seu neto, há tempos. Transmite a mesma sensação de tranquilidade com a sua presença, embora o temperamento seja muito diferente. Há uma pureza, uma espécie de candura, um contentamento muito simples e muito profundo em sua figura, em seus traços. É dos europeus mais cariocas que já conheci. Esse cara tem um refrão em sua vida: “Holocausto, nunca mais”. Ao contrário de mim, ele fala com conhecimento de causa: sobreviveu àquele horror todo.
Acho que os dois teriam se entendido. Meu avô teria, quem sabe, aprendido a dizer “racismo nunca mais”, teria aprendido que é possível reagir, lutar para que aquilo parasse, para que os aviadores negros, depois dele, não fossem obrigados a lavar o chão por causa da dupla exclusão do racismo e da pobreza, esta última tornada intransponível pelo primeiro. Meu avô e meu amigo teriam se entendido em mais um ponto: o serem homens dignos. Nunca foram chantagistas de sua própria vida, nunca barganharam nem a piedade alheia nem a sua própria. Eles foram vítimas, mas num sentido tão grande que não tem como contar ou manipular. É uma coisa que te deixa solitário, ninguém que não a tenha atravessado vai poder te entender, nem sequer para poder sentir peninha de você. Muito pelo contrário — a tendência é te hostilizarem, num mecanismo de defesa mental já conhecido da Psicologia.
É uma perda que não tem como dizer. Ao meu avô tiraram o propósito da sua vida, aquilo que ele tinha sido talhado pela natureza para fazer com perfeição. Ao meu amigo tiraram muito mais, tiraram tudo. Dá vontade de dizer mais coisas que tiraram do meu amigo, mas eu já disse. “Tudo”. E parece pouco. Tiraram dele muito mais do que se costuma expressar através do vocábulo “tudo” e eu não acho palavra pra dizer. É uma coisa tão imensa que não tem como você chorá-la ou reclamar dela, é tão grande que não cabe na linguagem. Não cabe na vida. Como não cabe na vida tudo (novamente o indizível) quanto tiraram do avô do meu avô e de tantos antes dele, vida, liberdade, dignidade; a sensação de já não pertencer ao gênero humano, de viver como bicho a vida inteira. Escravidão, palavra tão pequena para tão profundas marcas, cuja lembrança a ninguém é dado renunciar sem privar-se também da decência.
Mas vive-se, e a vida é imensa, nela cabem os teus sorrisos, a tua alegria pelas existências ao teu redor, cabe a tua ternura, a tristeza pela derrota do teu time na final do campeonato, o contentamento do sabor de um chopp gelado na tarde de verão, a saudade dos amigos, a vaidade gostosa de escrever um livro e ver que ficou bom e que ficou bonito. A vida está aí, tão misteriosa quanto sempre foi, artilheiro na boca do gol a driblar essas doutrinas e sistemas que se inventam para domesticá-la, a driblar a morte — seja ela sistemática e minuciosamente organizada, como na Polônia de 60 anos atrás, ou ao jeitinho brasileiro de hoje, improvisada.
Outro dia eu li qualquer coisa sobre “botar o dedo na própria ferida para não deixar que cicatrize” e “tendência à vitimização dos judeus”, lembrei do meu avô e desse cara, e pensei que o sujeito que havia escrito aquilo não estava entendendo nada.

Miguel Fernandes