A visão de indivíduo estrangeiro negro de expressão portuguesa, a convivência das diferentes raças e etnias no tecido social do Brasil, apresenta várias caraterísticas interessantes, sendo, no entanto, duas delas mais marcantes: a) a primeira, a que deriva dos traços comuns do racismo e descriminação tradicionais; aquela baseado na supremacia de uma parte da sociedade que tem origem nos portugueses e noutros europeus, que contribuiram para a colonização e a edificação do Brasil independente; b) a segunda, é determinada pelo desenvolvimento da hegemonia e o poder adquirido por essa sociedade, assim como a alastração que naturalmente teve, ao longo dos 500 anos – desde os tempos da colonização até à época contemporânea.

O correto entendimento destas caraterísticas implica o recordar um pouco, da história que levou à criação deste Brasil, país e nação de hoje. Sem entrar nos detalhes românticos ou aborrecidos da sua história, é importante observar quais as populações que determinaram a sua formação.

Sabe-se que quando os portugueses aportaram nas chamadas Terras de Vera Cruz, encontraram nelas populações indígenas, denominados de “índios”. Note-se que esta expressão foi dada, por pensar-se que os navegadores tinham chegado à India, utilizando-se uma rota diferente daquela que Vasco da Gama tinha feito. Confundiram ventos e direções e acabaram chegando ao lado oposto do Oriente. Assim se chamou “indian” (em inglês) aos habitantes que foram encontrados no continente americano, considerados também “pele-vermelha”.

Sendo quase impossivel, pacificar os indígenas e submetê-los às ordens dos invasores, o desejo de desfrutar a exploração das riquezas desses territórios, para o mercado comercial europeu, levou-os à busca em África, de escravos negros em número abundante, para suprir a necessidade inevitável de mão-de-obra. Estes foram espalhados pelo continente americano, para serem usados nas terras, que os colonos exploravam.

Assim passou a existir os três tipos de populações que determinariam o desenvolvimento sôcio-econômico dos territórios: os brancos portugueses (europeus), os índios e os negros escravos. Donde os brancos tinham a pretensão de explorar as riquezas, que ali existiam, dominar ou eliminar os habitantes originais; os índios que se rebelevam e negavam aceitar; e os negros trazidos escravos para trabalhar.

A resistência dos índios à civilização imposta pelos brancos, fez com que estes procedessem à eliminação e a um extermínio gradual. Ficaram reduzidos a um número muito precário, limitados hoje a permanecerem nas conhecidas reservas. Restaram, portanto, no processo do real desenvolvimento sôcio-econômico do Brasil, que se criava, dois sujeitos essenciais: os brancos, (portugueses-europeus), dominadores, que exploravam, decidiam tudo; e os negros (escravos), explorados, sem direito algum, dominados.

A condição de subjugação, de escravidão e da anulação total, de qualquer valorização humana imposta à população negra, que no Brasil se estendeu até 1888, data que oficialmente se aboliu a escravatura, a defraldou completamente, tanto humana, como espiritualmente. A extensão de mais de três séculos nessa condição, minou profundamente a sua essência!

Esta situação estigmatizou, quase instintivamente o sentido de uma cultura da supremacia natural ou de superioridade do homem branco em relação ao negro. Pois, mesmo depois do fim oficial do tráfico de escravos, o continente donde se forneciam a mão de obra gratuita, continuava a pertencer aos brancos. A África continuou como colônia, sendo pertença da Europa, por mais dois séculos.

Esse torquinete, moral, material e econômico, criado pelas condições injustas, forjadas aos negros, ao longo dos muitos séculos, colocou-os na delicada situação de um desequilíbrio latente, face ao processo de crescimento sôcio-econômico, que os outros poderam desenvolver, dado a liberdade e, sobretudo, pela subjugação e exploração que enceteram.

Ou seja, a eliminação da injustiça moral no negro com o fim da escravidão não correspondeu à reposição da justiça material. A sua manutenção física, dependia do branco e com isso, todas as condições objetivas que permitiam a sua sobrevivência continuaram determinadas por ele. O que significava, pura e simplesmente, que a tal liberdade não lhe garantia as condições para viver.

Desde modo, a independência humana ficou refém da dependência social e material. A liberdade tinha um aspecto mais simbólico e mesmo apesar dos titânicos esforços que o negro conseguiu desenvolver para alterar essa condição, o branco não abre mão facilmente, por força (duma espécie de vertigem) da vital necessidade de poder e uma latente condição de superioridade, arraigada pela cultura de dominação de muitos séculos.

É esta situação que retrai a maior parte dos pressupostos, que sirvam para levar ao restabelecimento completo do equilíbrio obrigatório, nas condições sócio-econômicas dos negros relativamente aos brancos. Ou seja, a intenção de justiça moral e ética que declaradamente é exibida, não consegue ser efetivada por causa do fator econômico e material, que lhe permite uma hegemonia.

O que fazem os europeus (brancos) elevando muros e espaços para distanciar os africanos (negros), banindo-os dos seus países ou mantendo profundamente afastados pelo receio de abrir mão das benesses, à custa da exploração e roubo indireto deles.

Os brasileiros brancos, os protagonistas do domínio, os detentores da supremacia das (condições sócio-ecômicas) fazem, elevando muros e manipulando espaços físicos, sociais e econômicos, que intencional ou naturalmente distanciam os negros e outros grupos equiparados, banindo-os dos seus retiros, pelo receio de abrir mão das benesses, à custa da exploração e do roubo direto do produto do seu trabalho enquanto escravo!  

O HUMANITARISMO CONVENIENTE E A DEMOCRACIA RACIAL

Nesta teia que contêm as complexas linhas da intereção racial, existe o humanitarismo conveniente, que se realiza a apartir de posturas sócio-humanas, com o fim da conveniência política de encobrir os efeitos sôcio-econômicos, para que as condições que permitem a manutenção do poder e por conseguinte a supremacia do grupo branco, sem que, no entanto, os aspetos morais dessa convivência mostrem os traços incômodos da convivência desigual.

Ela se opera, sobretudo com a argumentação que ressalta a importância nacional da eliminação de toda sorte de condições e de comportamentos imorais (entre os quais o racismo) que contrariem o bem comum entre os diferentes cidadãos, culminando na teorização de princípios, moldados em leis. Porém, qualquer dessas posições não tem uma aplicação prática ou real.

O aborto da aplicabilidade das intenções se elabora, quase que instintivamente, a partir de um processo, onde a psicologia social determinada pelo grupo branco dominante, impercetivelmente sugere os princípios hodiernos da vida da sociedade. Instintivamente também se opera a resistência a todos os pressupostos que molestam ou ameaçem o seu bem-estar, mesmo que tal signifique apenas uma redução dos seus direitos excedentes, em benefício do seu concidadão negro.

Seguidamente a expontaneidade psicossocial tende a ser aperfeiçoada para posições conscientes e mentalmente organizadas pelos setores mais iluminados do grupo dominante. Formulam uma cadeia complexa de postulados disseminados nos vários aspectos e formas da vida da sociedade que, natural e silenciosamente, arrasta para a letargia da consciência social, permitindo a manutenção do status-quo e finalmente reafirma uma automática resistência na necessidade de mudança para bem dos outros e de todos.

Pode-se concluir que este humanitarismo conveniente referido por Kwame Anthony na sua obra “Código de Honra: como ocorrem as revoluções morais”- à semelhança do que sucedia na época da escravidão, com a tese do abolicionismo, pelos fins mais mercantis do que filantrópicos – é a raiz antropológica da salvaguarda moral, numa subversão sócio-humana, restando depois a configuração da democracia racial, como o quadro ornamentador dum feio contexto social ou como uma cortina para cobrir a desonra nacional.

 

Mário Dos Santos