Na Pesquisa Ação Social das Empresas realizada em 1999, 2000 e 2001 e coordenada pelo IPEA foram revelados alguns indicadores fundamentais para se refletir a crescente importância da chamada CIDADANIA EMPRESARIAL para sociedade brasileira e particularmente para os jovens afrodescendentes que pretendem se inserir no mercado de trabalho tradicional. Tal pesquisa identificou cerca de 300 mil empresas, no Sudeste; 48 mil, no Nordeste e; 75 mil, no Sul que, das mais variadas formas desenvolvem ações sociais. Um outro componente importante da pesquisa foi o volume de recursos financeiros aplicado. Em 1998, as Empresas do Sudeste aplicaram R$3,5 bilhões em Projetos Sociais, o que corresponde a 0,6% do PIB regional do mesmo ano. Já os empresários do Nordeste aplicaram, em 1999, 260 milhões ou 0,2% do PIB da região. No mesmo ano, o montante aplicado pelo empresariado do Sul foi de 320 milhões ou 0,2% do PIB regional. Um outro dado de que deve ser considerado é que os incentivos fiscais não são um componente importante para a adoção de programas sociais corporativos e ainda, embora o número de empresas sejam bem significativas e o percentual de recursos financeiros sejam relativamente importante para os públicos atingidos pelas ações sociais das empresas, a pesquisa revelou que no Sudeste, o percentual das empresas que não divulgam publicamente suas atividades é de 91%, seguido por 86% no Nordeste e, de 93% no Sul.
Ainda recentemente o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social divulgou a sua Pesquisa: Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e Suas Políticas Afirmativas. O que foi revelado? Que pelo menos 40% num universo de 247 empresas brasileiras desenvolvem alguma modalidade de ação afirmativa e que perfazem aproximadamente 1.170.597 funcionários. No entanto ao avaliarmos os dados desagregados percebemos a afirmação de profundas desigualdades raciais e de gênero nessas empresas, isto é, percebemos um hiato entre a prática o desejo substancial de se promover ações afirmativas. O índice de participação na diretoria das empresas é de 9% para as mulheres e de 1,8% para os negros. Na medida em que se desce na hierarquia corporativa das empresas estes percentuais tendem aumentar, como revela a pesquisa: as mulheres perfazem 28% dos postos de nível de supervisão e 35% do quadro funcional e, entre os negros as funções de supervisão chegam a 13,5% e 23,4% no nível funcional.
Outro componente importante para se avaliar a expressão do movimento empresarial de responsabilidade social é a certificação de padrões internacionais que qualificam as empresas como socialmente responsáveis. Atualmente existem no Brasil aproximadamente 52 empresas que estão certificadas com a NORMA SA8000, cujos requisitos são baseados nas normas internacionais de direitos humanos e nas Convenções da Organização Internacional do Trabalho.
Ora, estas condições excepcionais, ainda que embrionárias no ambiente empresarial brasileiro, podem contribuir significativamente para a adoção das ações empresariais afirmativas de promoção da juventude afrodescendente. A sua relevância está exatamente no seu caráter crescente e inovador e, sobretudo no envolvimento e importância que as empresas estão dando a aplicação de ações de responsabilidade social empresarial.
Se for verdade que existem resistências quanto à adoção de Programas Corretivos nos padrões das ações afirmativas, também é verdade que algumas multinacionais tem rompido está lógica, desenvolvendo medidas parecidas com as ações desenvolvidas em outros países e ou mesmo reproduzindo experiências já aplicadas por suas Matrizes Mundiais. Esta conduta tem contribuído em muito para amortecer os conflitos corporativos ou mesmo o incentivado novas empresas a adotarem experiências similares.
Tais condições forjadas pelas próprias empresas podem progressivamente tornarem-se uma ferramenta importante para a promoção de ações afirmativas, pois os volume de recursos materiais adicionado ao volume de recursos financeiros disponíveis, agregados a uma perspectiva diferencialista de formular e executar ações corretivas, podem de forma experimental, conceber uma modalidade ágil e práticas de programas afirmativos. Da mesma forma que temos as condições de resistência de vários segmentos da sociedade para aplicação de ações corretivas, no entanto temos também a expressão de um fenômeno que não poderá desconsiderar as desigualdades raciais no mercado de trabalho e os componentes que interferem na boa saúde da empresa, seu prestígio e progresso financeiro.
O debate que é expressado pela juventude afrodescendente em torno das ações afirmativas terá que alcançar o movimento empresarial de responsabilidade social, pois tal medida tenderá a agilizar as próprias condições objetivas para aplicação das mesmas, mas sobretudo, para constituir uma nova etapa de movimento de combate ao racismo, racionalizado pela emergência e demanda da juventude afro.

Juca Ribeiro