A revolta popular que há dias sacode várias cidades do país, inclusive S. Paulo, não é, por óbvio, motivada apenas pelo aumento de R$ 0,20 na tarifa. Tem raízes mais profundas: se origina de uma sensação de cansaço, de esgotamento com um modelo de sociedade autoritário, racista e discriminador; de um sistema político-eleitoral esgotado, midiatizado, marketizado, que não deixa espaço à participação das maiorias, transformadas em “gado dócil” –  “a vida de gado” cantada na música de Zé Ramalho.

Empurradas para as margens, para as periferias (porque os centros, os melhores lugares nos centros urbanos têm os donos de sempre) essa gente se torna financiadora compulsória de um modelo de transporte público baseado unicamente no lucro para meia dúzia de empresários amparados e protegidos pelo Poder Público, já que o transporte é uma concessão pública.

Quem quiser saber quem manda no transporte coletivo urbano dos principais centros do país vai se deparar com um nome: Nenê Constantino, que vem a ser o todo poderoso empresário dono da Gol, companhia aérea.

Não se trata aqui de defender depredações ao patrimônio ou atos de vanadalismo. Mas, afinal quem são os vândalos-causadores desse vandalismo?

"Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas, ninguém diz violentas as margens que o comprimem", lembremos Bertolt Brecht. Vamos tratar da causa ou das consequências?

Quanto à violência da Polícia Militar e a ordem explícita para assumir a truculência para satisfazer uma classe média assustada diante de qualquer coisa que fuja da rotina de sua vidinha medíocre e sem esperanças, nem prazeres, todos sabemos desde criancinhas, que é mero cálculo eleitoral partido de protagonistas de um sistema político-eleitoral apodrecido e corroído pela corrupção.

Que, aliás, tem nos beneficiários do sistema de transporte, um elo do corrupto processo de financiamento das campanhas.

No Brasil são 37 milhões de brasileiros excluídos do transporte público por não ter como pagar e todos sabemos que é o próprio IBGE que diz que o terceiro maior gasto da família é o transporte público. (Na foto, da Folha de S. Paulo, manifestantes ajoelhados pedem para que a tropa de choque pare de atirar).

O que os jovens do Movimento Passe Livre propõem não diz respeito ao aumento de R$ 0,20 na tarifa como apressadamente alguns concluem: a proposta é de que o transporte público seja realmente público – como acontece, parcialmente, com a saúde e a educação – ainda que as duas áreas também tenham se transformado, quase que totalmente, em fonte de lucros.

Todas as cidades tem Prontos Socorros. Se você ficar doente, pode se dirigir a um desses postos e será atendido gratuitamente. A proposta é que também o transporte coletivo deixe de ser fonte de lucros para empresários – com o beneplácito e a concessão pública – e se torne um serviço público que beneficiará, principalmente, os setores mais pobres da população e que não dispõe de condução para se locomover de casa para o trabalho e são obrigados a gastar parte do já pouco que ganham, com a condução.

É disso que se trata. É um outro paradigma, é um outro horizonte, é uma proposta que não está no horizonte dos governos – sejam de que partidos forem – que se acomodaram à privatização do Estado e dos serviços públicos para garantir os lucros de quem lhes financia as campanhas.

O  medo, o pavor mesmo de uma classe média assustada, com as depredações provocadas óbviamente pela truculência de uma polícia que não está acostumada a lidar com manifestações populares que não sejam aquelas permitidas nos estritos limites da ordem estabelecida, é compreensível.

Mas, também é preciso que se diga que em toda a parte choques entre manifestantes e polícia fazem parte dos conflitos que em qualquer sociedade democrática são administrados. Por que no Brasil, em S. Paulo, uma das maiores metrópoles do mundo, deveria ser diferente?

Os que criticam os manifestantes do Movimento Passe Livre, alegando que provocam a violência acabam por justificar a violência policial.

A imagem do policial sangrando atingido por manifestantes, enquanto dominava um manifestante com a mão e segurava a arma em posição de tiro (sem atirar), com a outra, não é a regra, é exceção. A  Polícia Militar, como toda Polícia Militar, é treinada, preparada para a guerra (no caso, quase sempre contra cidadãos indefesos) e não para garantir a segurança da população. Os números dos mortos inocentes (sequer sem passagens pela Polícia) nos últimos 12 meses falam por si. (Na foto, da Folha, a jornalista Guiliana Vallone da TV Folha, atingida por uma bala no olho pela PM).

Por isso, a bandeira do transporte público e de qualidade, que deixe de ser entregue aos grupos que o exploram como fonte de lucro, deve ser uma bandeira não apenas dos jovens do Movimento Passe Livre, mas de todos os estudantes, trabalhadores, pobres e negros, das periferias dos grandes centros urbanos; enfim, de todos os que tem no “busão” e no metrô a única alternativa para se locomover numa grande cidade como S. Paulo.

Dojival Vieira