Lá pelos idos do final da década de 70, quando estávamos ainda esboçando a idéia de criarmos entidades que defendessem os nossos interesses foi apresentada à proposta: a de que deveríamos, primeiro, criar um Memorial.
Primeiro para resgatarmos a nossa história, para que pudéssemos melhor nos situar e elaborar propostas; segundo, para que pudéssemos evitar que o flagelo anterior, o da escravidão, se repetisse. Na época ainda não era cogitada a idéia de “genocídio”, e maioria acreditava na possibilidade de integração. Sabíamos ser utopia…
Entretanto, não tinha outra coisa a acreditar ou almejar. Era apenas o início de nosso autoconhecimento, pois a sociedade branca ainda acreditava que nós nem mais existíamos – isso era dito abertamente – e nem que éramos, também, humanos. Porquanto, a idéia de memorial era procedente.
Mas acontece que, já naquela época o negro brasileiro não acreditava em suas próprias idéias, aliás, como não acredita até hoje. Acreditava-se, assim como pregava o falecido jornalista Hamilton Cardoso, que nós deveríamos adentrar aos sindicatos e partidos políticos de brancos (convém lembrar que na época somente existiam dois: ARENA e MDB), para, como ele dizia “que aprendermos a fazer política”, e já se encetava, também, a mendicância por cargos e bajulações ridículas. E a idéia do Memorial – assim como tantas outras – gorou.
A luta contra a ditadura militar nós nem conseguimos participar, de fato, pois os brancos, mesmo que de esquerda, não permitiam. Quem negar isso está mentindo. Ocorreram poucos casos, que me lembro, somente a do Osvaldão, do PC do B, no Araguaia.
O movimento negro, que na época ainda nem o era (será que hoje o é?), o grupo que se reunia, como se dizia na época, ficava se masturbando intelectualmente e tentando entender e explicar uma coisa que era tão óbvia: a discriminação que sofríamos. E o tempo passou. E ocorreram umas enormidades de coisas… Menos a luta, de fato. Se havia, ela ocorria entre nós mesmos, Como afirma em seu trabalho denominado MOVIMENTOS NEGROS NO BRASIL ENTRE 1964 E 1983, Karin Sant’ Anna Kössling, “O NEGRO BRASILEIRO NÃO LUTAVA POR NADA…
Brigava entre si por poder”, que, diga-se de passagem, não existia. Assim como não existe até hoje. Uns eram Marxista-leninistas, outros trotskistas, ia por aí afora. Capitalismo? Nem pensar! Não havia ofensa maior do que se chamar alguém, ali, de capitalista. Ser capitalista “era pecado capital”.
No Continente africano seu povo lutava ferozmente pela retomada de seus territórios. Que foram invadidos em 1882, depois que os europeus fizeram um tal de Congresso de Berlim, e decidiram lotear a África. Na América do Norte, os negros estadunidenses lutavam por direito civil… Aqui, nós estávamos ainda procurando saber por que lutar. Eram teses e mais teses, estas que perduram até hoje…
Há uma lenda de que o movimento negro contemporâneo, aqui no Brasil, surge em 1978, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo. Pura balela. O que ocorreu ali foi que mais uma vez o negro brasileiro foi descaradamente usado. Há também, até hoje, uma discussão absurda de quem “articulou” o tal movimento, mas na verdade foi à esquerda, orientada pela Internacional Socialista.
Estávamos no período da Guerra Fria. Os Estados Unidos e a ex-União Soviética se digladiavam mundo afora por influência política, e claro que econômica, menos aqui nas Américas. É que em 1823, o presidente estadunidense James Monroe decretou a Doutrina Monroe, que pregava: “a América para os americanos”.
É óbvio que ele não estava se referindo a todos os americanos, nem latinos e muitos menos aos negros e brancos pobres. Na verdade ele estava somente garantindo a burguesia estadunidense em seu interesse.
Em 1959 Fidel Castro derrubou a ditadura de Fugêncio Batista, em Cuba. Já em 1962 ele se alia à União Soviética. E esta última não perdeu tempo, tratou logo de intentar invadir a América, contrariando a Doutrina Monroe. E os Estados Unidos não podia tolerar isso, e reagiu. Implantou ditaduras militares em toda a América Latina.
É do conhecimento de todos que estas duas potências nunca se confrontaram diretamente, seja na África, seja na Ásia ou no Leste europeu. Como o nome sugere era “guerra fria”. E como sempre, os pobres pagam o pato.
Aqui no Brasil, a discriminação racial foi à arma usada pela Internacional para intimidar os militares, então, a esquerda nacional criou o Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial, como disse, fomos mais uma vez usados. Este foi apenas mais um blefe do mundo branco brasileiro. Logo após o citado ato…
Nunca mais o negro brasileiro teve acesso aos movimentos de esquerdas nacionais. Quer dizer, apenas alguns poucos gatos pingados, somente para dizer que “não existe racismo”. E como disse, ele ainda é evidente demais. A esquerda apenas usou o mesmo ardil da direita, pois em se tratando de nós negros, todos se unem contra nós. Aqui e em qualquer outro lugar do Planeta, segundo Ângela Gilliam.
Por aqui, começa uma agitação em função de uma “abertura política”, logo surge o Partido dos Trabalhadores, este que também nunca deixou claro a que “trabalhador” ele se refere ou intentava defender. Somente recentemente que fomos descobrir… E nós não estamos, em nossa maioria, dentre estes, continuamos desempregados e desprotegidos.
Aquele grupo de negros, aos quais me referi, dão prosseguimento à pantomima. Mudam de nome, fazem congressos, surgem uma infinidade de outros grupos… Mas, nada.
Não obstante, até hoje o movimento negro não conseguiu nem sequer estabelecer um projeto abrangente, e que contemple todo aquele que convencionou chamar de “povo negro brasileiro”.
Alguns poucos conseguiram trabalhar, a maioria não. Outros conseguiram estudar e ficaram esnobes. E ainda outros entraram para a política. Estes criaram até mesmo um slogan: “eu sou um parlamentar da comunidade, e não somente do negro”. Só que estes contemplam com seus projetos todo mundo… Menos o negro. Ora se fica pensando, “será falta de inspiração?” Mas logo se abandona esta idéia. Por que todos sabem o projeto que o mundo branco tem para os negros pobres: o extermínio. Isso! O genocídio, puro e simplesmente. E todos eles sabem disso. Mas ninguém se manifesta. Eles ignoram. Todavia, se alguém se manifesta, agem sempre pelas tangentes.
A classe-média negra é turra. Todas as classes-médias quando não vêem suas aspirações contempladas elas organizam o povo. Quem foi que enfrentou a ditadura militar? A classe-média branca (até por que naquele tempo ainda não havia a negra). Agora, confiar na possibilidade de integração é pura loucura.
O branco não quer nos integrar, não quer nossa organização. É o poder que está em jogo. Um povo organizado política e economicamente, vai para o poder. Ou pelo menos o tenta. Já dizia o velho Karl Marx. E o negro quer o poder, mesmo que não o saiba. Porque 500 anos de opressão… É dose pra leão. E não é bom.
Todo mundo tem o direito de ganhar dinheiro, de viver melhor e bem. Porém, militância política é uma outra coisa. Misturar ambas, não pode dar boa coisa. Por que acaba ficando sem uma e sem a outra.
São Paulo, 21 de setembro de 2010

Neninho de Obalúwáiyé