As milhares de pessoas que desde a semana passada tomam as ruas do país querem muito mais que a redução de 0,20 da tarifa do transporte coletivo. “Não são 0,20 centavos, são direitos”, foi a frase que vi escrita num cartaz no meio da multidão concentrada no Largo da Batata, na manifestação de segunda feira, 17 de junho – uma data que vai entrar para a história do Brasil como o dia em que energias de milhões, represadas há séculos, finalmente foram liberadas.

Era visível nos manifestantes – na sua imensa maioria jovens entre 20 e 25 anos –a sensação de que ninguém aguenta mais o desrespeito com que o Estado (em todas as esferas) trata a nós, cidadãos, nos impondo a mais alta carga tributária do mundo (ninguém paga tantos impostos quanto nós) e nos oferecendo serviços como saúde, educação, transporte, de quinta – para não falar da segurança pública inexistente.

Não é possível saber para onde vamos. Estamos em um desses momentos em que a “tudo pode acontecer”, porque é o povo nas ruas  quem faz a história, já sabemos. Palavras de ordem como “Nem Turquia, nem a Grécia, é o Brasil saindo da inércia” e “ÔÔÔ, o gigante acordou!” ou “Desculpem o transtorno, mas estamos mudando o país. Sem violência”, dão uma ideia do ânimo das multidões.

Se os governantes, em todos os níveis, abandonassem a zona de conforto em que se mantém nos gabinetes dos palácios entenderiam algo que parece evidente e salta aos olhos de quem  sai às ruas: essas multidões podem ainda não saber que país querem, como pode se ver pela multiplicidade de desejos e sonhos escritos em cartazes e ou folhas de cartolina, mas sabe, precisamente o que não quer:

1 – Não quer que o cidadão que paga uma carga tributária monstruosa em impostos, continue sendo tratado sem nenhum respeito pelos agentes públicos que ocupam o Estado. As pessoas reais passaram se tornar meros detalhes, alvos de peças de propaganda nas campanhas eleitorais, essa é uma percepção generalizada.

2 – Não quer partidos políticos transformados em balcões de negócios (ou de “mentirinha”, como denunciou recentemente o presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa) e junta num mesmo saco gente que quer mudanças, com os Collor, Sarney, Maluf, transformados em parceiros de uma governabilidade que só serve a eles próprios.

A pergunta de muitos jovens é: "ué, há pouco tempo não estávamos nas ruas sonhando em mudar o país e lutando contra essa gente?". Parece óbvio para nós, mas não o é para os atuais operadores do sistema no Governo.

3 – Não quer que o país continue sendo sempre “o país do futuro”, um futuro que nunca chega, e a cidadania continue uma ideia abstrata, objeto de teses acadêmicas, mas cujo exercício está sempre distante do cidadão comum;

4 – Não quer que a coisa pública seja privada, o que é fato no Brasil, em que as fronteiras público/privado são praticamente inexistentes para quem ocupa poder e mando;

5 – Não quer continuar sendo tratado como “gado dócil” “massa cordeira”, "boiada" idiota que pode ser enganada a cada dois anos, bastando para isso que se pague marqueteiros da moda, treinados e hábeis para substituir a realidade pela propaganda de um mundo que só existe nas suas peças publicitárias.

6 – Não quer um sistema de Justiça que efetivamente não oferta Justiça para quem precisa – os mais pobres. Basta ver como se estrutura o Judiciário no Brasil – uma verdadeira casta, especialmente os que ocupam espaços de poder nos tribunais -, totalmente desconectada da população mais pobre.

7 – Não quer um Legislativo que consome milhões em dinheiro público e não entrega a lição de casa: não faz leis de interesse da maioria e não fiscaliza, uma vez que – do vereador ao senador – todos devem fazem parte das bases “aliadas” de quem ocupa o Poder Executivo – Prefeituras, Governos Estaduais e Presidência da República.  

A cara apatetada dos governantes, em geral, em todos os níveis, dá uma idéia de como estão perplexos. Não sabem o que fazer, nem o que falar. Muito menos como reagir. No espaço de menos de uma semana, todos mudaram de discursos, várias vezes, e alguns, no mesmo dia. Não sabem o que fazer, porque há muito se descolaram da realidade da vida da maioria do povo brasileiro.

Por isso, embarcaram na aventura de patrocinar arenas suntuosas em locais em que, nem times de futebol existem (como Brasília, por exemplo), investindo cerca de R$ 30 bilhões de reais, uma verdadeira farra com dinheiro público, sem nenhuma contrapartida para as populações. Ninguém explica (e nem pode explicar), porque gasta-se até R$ 1 bilhão em um estádio de futebol no Brasil da Copa, enquanto na Itália, a Juventus ergueu o seu, em Turim, para 41 mil torcedores, por R$ 300 milhões.

É daí que vem o grito das ruas: “queremos Educação e Saúde com padrão Fifa”.

As manifestações que acontecem são em tudo, distintas, do movimento pelas diretas-já e do impeachment de Collor, a começar pelo fato de estarem ocorrendo em escala planetária. Em todas as grandes cidades do mundo (Nova York, Londres, Barcelona, Porto, Toronto, Dublin etc), há brasileiros se levantando em solidariedade, fato inédito na história de cinco séculos deste país injusto e desigual, muito mais injusto e desigual – é verdade –  para as maiorias, os pobres e negros e para os estratos médios da classe média sempre volátil e que agora como um tsunami decidiu tomar as ruas.

O sentimento de “saco cheio” com a enganação sistemática, com as promessas não cumpridas, com a ideia de que a fantasia do mundinho dos políticos e seus sonhos de poder cor de rosa,  podem substituir a dura realidade de cada um; da Polícia, nem preparada para lidar com cidadãos como aconteceu na semana passada, nem para proteger o patrimônio público como aconteceu com os ataques de vândalos e criminosos à prédios públicos em S. Paulo, no Rio e em Belo Horizonte.

Estamos de “saco cheio” da política como farsa. Política é forma para mudar o mundo, não degrau na carreira dos medíocres – os que, sem vocação nem talento para a profissão que escolheram, decidem pelo atalho de transformar a política em meio de vida.

Ao contrário do que possam pensar os mais apressados, o protesto não é contra o PT – Partido que está no Governo há 10 anos – mas contra a política do PT no poder, diferente do que esse partido propunha nas origens, quando os seus dirigentes ainda não tinham trocado de lado: o lado do povo por um projeto de poder a qualquer custo, mesmo ao custo de alianças com o que há de mais retrógrado, de mais atrasado na política brasileira – Collor, Sarney, Maluf, Feliciano e os setores mais conservadores do fundamentalismo evangélico neopentecostal.

O protesto não é contra o PSDB e os tucanos – cujo projeto de país, do ponto de vista político e ideológico, só difere hoje do petismo, no estilo dos seus chefes, porque ambos acham que “é só isso”, “que chegamos”, “que o país vai muito bem", porque o que chamam de nova classe média com salário de R$ 1.200,00 agora pode comprar nas Casas Bahia, e que agora, de bolsa em bolsa, de eleição em eleição, pode-se retardar as mudanças estruturais profundas que há séculos vem sendo adiadas.

Completar a abolição para incluir os milhões de negros ao universo da cidadania, por exemplo, é uma dessas mudanças, sempre postergada, sempre adiada, há 125 anos, por todos os governos – inclusive pelos atuais.

O protesto não tem partido – "é dos sem partido", a grande maioria do povo brasileiro -, mas engana-se quem achar que não é político. Estamos diante de um movimento político de novo tipo, que não precisa terminar em discursos, ou concentrações para ouvir seus líderes; que se organiza horizontalmente, quer mudanças profundas. Os partidos todos – com exceção dos minúsculos que não abandonaram o contato com as ruas – estão sendo atropelados, assim como os “políticos” que os representam.

Se restasse a esses governantes e políticos um mínimo de sensibilidade, sairiam às ruas também e veriam o que todos veem. Mas, isso já é pedir muito.

Preferem fazer, como fizeram ontem os dirigentes da CBF, o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo. Os primeiros, o malufista José Maria Marin e o seu fiel escudeiro Marco Polo Del Nero, desdenharam da mobilização ao perguntar: “Quantos foram? Mil? Tem 199 milhões de brasileiros trabalhando e esses querem atrapalhar”. Este último disse que o Governo “não vai tolerar atitudes que atrapalhem a realização da Copa”.

A reação é típica de Maria Antonieta, na França, quando o povo protestava pela falta de pão: “O povo tem fome? Dêem-lhes brioches”.

Com as manifestações avançando como um verdadeiro tsunami pelo país afora, me arrisco a especular sobre os cenários possíveis:

1 – o esvaziamento natural do movimento pelo cansaço, hipótese em que apostam alguns políticos que perderam totalmente a sensibilidade das ruas. Se isso acontecer teremos perdido a extraordinária oportunidade de mudar o Brasil (mais uma vez), e essa insatisfação se transformará em absoluta descrença nas instituições e na própria democracia, terreno fértil para o aventureirismo militar.

2 – a convocação pela Presidente da República ao Estado de Defesa e Estado de Sítio previstos nos artigos 136 a 141 da Constituição Federal, como forma de tirar as multidões das ruas por meio de medidas de força, o que seria uma medida tão inócua quanto insana. Estaríamos à beira da ditadura, pouco importa se civil ou militar, ou civil com apoio militar.

O terceiro cenário, capaz de aproveitar de forma construtiva a extraordinária energia das ruas e coerente com o discurso feito pela própria Dilma ao falar dos protestos, é a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte para a mesma data das eleições marcadas para 2014 a fim de reorganizar o país, dentro da ordem constitucional vigente.

A Constituinte pode ser convocada pela própria Presidente, por meio de Projeto de Lei ao Congresso, ou pode ser objeto de uma emenda constitucional por meio de projeto de iniciativa popular que exige 1% do eleitorado nacional em cinco Estados, com não menos de três décimos por cento de eleitores de cada um deles (Art. 61, parágrafo 2º da CF);

Com a Constituinte se abre espaço para que se rediscuta, com profundidade, o país, repense-se o modelo político-eleitoral e partidário, os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, a ordem econômica, os direitos fundamentais, como deve se dar doravante a participação popular organizada e protagonista. Não tenho dúvidas de que esse é o caminho para que a extraordinária energia da juventude e das multidões que ganharam as ruas, não seja mais uma vez desperdiçada.

Este é um momento histórico e único.

Crédito de fotos: Folha, Uol, Abril

Dojival Vieira