Por que será tão gostoso ver o outro perder foi publicada no boletim eletrônico Carta Maior, de 12 de abril de 2006, escrita por Artur de Carvalho. Em tempos de Copa do Mundo, final de campeonato paulista e bom desempenho dos times brasileiros na Libertadores, o narrador discute a alegria que certos torcedores sentem ao ver o time adversário perder. Em certos casos ela chegaria a ser maior do que alegria de vencer. Parecia uma abordagem interessante, mas o caminho argumentativo revelou os estigmas que perseguem o negro no imaginário brasileiro.
Vejamos. São criados dois personagens, um “negão” e um amigo do narrador. O primeiro é descrito por dois atributos físicos, a suposta quantidade de melanina (negão) e a altura, (dois metros). A seguir são mencionadas as condições que definiam a humanidade do “negão”: bêbado, violento (pois o agrediu fisicamente) e possível fundador de uma torcida organizada fanática. Lá pelas tantas, quando vai se referir ao “negão” pela terceira ou quarta vez, o narrador, ironicamente, passa a chamá-lo de “afro-americano”.
Para definir o segundo personagem, entretanto, o narrador não utiliza qualquer atributo físico. Ele vai direto ao seu caráter e gostos pessoais. É amigo do narrador, “usa roupas finas, gosta de passar perfume, é um gentleman”, mas cospe, escarra, na rua quando vê a sede do time rival. Conclui então que não interessa a raça ou a classe social, o ser humano gosta mesmo é de ver o outro perder.
Mas a gente se pergunta por que o amigo do narrador não tem qualquer descrição física. Será branco? Negro? Asiático? Não importa. Importa apenas destacar a violência e o alcoolismo do suposto brutamontes negro. Ou será que o homem que usa roupas finas, passa perfume e é educado pode ser negro? Provavelmente não. Se houvesse interesse argumentativo em contrapor dois estilos de torcedores fanáticos, ambos negros, seria feita alguma alusão ao pertencimento racial do segundo. Tudo leva a crer que ele é branco e se é assim, não é necessário dizê-lo, pois, o branco é o que define as regras. O negro é o que está de fora, forçando a porta para entrar.
Nesta trama, ser “negão” ou “afro-americano” – quem sabe a intenção do autor era esculhambar com os termos “afro-brasileiro” ou “afro-descendente”, mas não se lembrou ou nem mesmo os conhece – tanto faz. Tanto o politicamente correto dele, quanto à construção identitária presente em terminologias como afro-descendente, tornam-se menores diante da força simbólica da imagem de negros e brancos escapulida do inconsciente do narrador – talvez, em síntese, o inconsciente do brasileiro que opõe “negões” e homens finos e educados.

Cidinha da Silva