A porta bandeira da escola campeã, eufórica afirma, sorrindo contrita, olhando fixamente a câmera e tecendo louvores à Deus:

_" …Fizemos tudo que nos dispusemos fazer, ensaiamos muito, dia e noite…Esta vitória é do nosso presidente, que soube cuidar de nós…Ele sabe que esta vitória é dele!".

E sai rodopiando pela quadra numa alegria incontida.

O mestre de bateria, no mesmo tom esfuziante, ressalta que o presidente é que é o vencedor porque acreditou nele, bancou a permanência dele na liderança da bateria.

_"…E o resultado está aí!". 

É um outro viés da história do Samba e do Carnaval, aquele mais profundo e psicológico, sócio-antropológico, sobre o qual poucos se dão ao trabalho de refletir porque…é chato, baixo astral e nada tem de carnavalesco.

É a síndrome do escravo, gente! A euforia do cativo, conformado já com o cativeiro eterno, em sua subalternidade assumida, sua submissão infantil, quase religiosa diante do patriarca, feliz da vida diante da aprovação do Sinhô.

Dança-se e canta-se, rigorosamente o que o Sinhô decidiu e mandou dançar e cantar, segue-se o "enredo", fielmente seja lá ele qual for. Não é, de modo algum, reparem, a expressão de uma cultura negra, africana, popular ou lá o que seja. 

É apenas a representação carnavalizada, espetacularizada de relações sociais muito arcaicas, que não mudam nunca, recicladas dia a dia, ainda com pézinho lá atrás, nos mais de 500 anos de nossa escravidão.

Casa Grande e Senzala: O nosso enredo sempre campeão.

Antonio José do Espírito Santo (Spírito Santo)