Tais mensagens, que tiveram como signatários e receptores, além da Mãe de Santo e do seu marido, Raimundo Coutinho Sobrinho, Yona Valentim e o jornalista Márcio Alexandre, colunista desta Afropress (este último apenas questionando se haveria outra versão para o relatado nas matérias), foram prontamente amplificadas e redistribuídas pelo advogado Humberto Adami, Ouvidor Geral da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.
Embora sem assinatura – na tentativa inócua de não se comprometer com seu conteúdo – o título da mensagem não deixa dúvidas quanto a autoria do Ouvidor: “Enviado pelo meu aparelho Black Berry da Vivo”.
Trata-se de reação tardia e inócua ao fato de termos denunciado a “Operação Abafa”, em que a exigência ao governador e ao Ministério Público, de punição dos responsáveis pelas torturas,foi substituída por reuniões, inclusive, com o próprio Wagner, em que medidas práticas e efetivas como a prisão administrativa e penal dos envolvidos, foram transformadas em pauta política de lideranças do PT da Bahia e agregados, aliados políticos do governador.
Essa prática foi confirmada e denunciada pelo Coordenador da Organização do Movimento Negro Unificado (MNU), Reginaldo Bispo, que esteve presente na ante-sala de uma dessas reuniões e relatou o comportamento conivente de participantes, alguns dos quais, passados alguns dias, se reuniriam para discutir a ocupação de espaços nos governos estadual e federal, fato também noticiado (veja matéria – Afropress 25/11).
Além do ataque frontal ao veículo, na linha do “matem o mensageiro”, a Mãe de Santo e o seu marido – ambos dirigentes do PT de Ilhéus -, insinuam sobre a “Operação Abafa”: “Quem nos acusa de amigos do Wagner? São os amigos de Gedel? Ou os de Serra?”.
Como se observa, continuam pautados pela lógica da campanha eleitoral passada, e não conseguem conceber que alguém – diante dos fatos estarrecedores por eles próprios narrados – possa, simplesmente, exigir a aplicação da Lei e do Direito e clamar por Justiça, independente de avaliações partidárias e ou eleitorais.
Em seguida fazem uma profissão radical de fé como militantes e como religiosos – fatos que jamais estiveram em questão – e afirmam “querer guerra contra quem nos atacou e os seus agentes que espalham calúnias para desmobilizar a articulação de luta dos movimentos e pessoas comprometidas, lutas que vão além do caso Ilhéus”.
Contradizem-se um sem tanto de vezes os signatários da tosca e raivosa mensagem: é precisamente por irem “além de Ilhéus” os gravíssimos fatos narrados, que qualquer cidadão brasileiro – e mais ainda nós, comprometidos com a luta pela igualdade e contra a intolerância religiosa – teem o direito e a legitimidade para acompanhar e cobrar providências.
É exatamente por não estarmos nem na ditadura, nem “na ditabranda” (seja lá o que tenham pretendido dizer), mas num Estado Democrático de Direito, que se exige Justiça.
Comportamento diverso, como o pretendido, seria próprio em ditaduras, o que revela a desconexão e o “non sense” de um discurso do qual, retirados os insultos, nada sobra a não ser um amontoado de palavras desconexas.
A ofensa gratuita, em tom raivoso, contra quem apenas – com independência – denunciou e exigiu providências dos responsáveis – chama a atenção pelo grau de virulência e ferocidade com que é, irresponsável e levianamente, assacada.
A inesperada, extemporânea e estúpida reação – justamente contra o único veículo que fez com que o caso chegasse à grande mídia e provocasse as reações de estarrecimento na opinião pública brasileira – porém, tem sido a marca padrão de negros organizados em partidos e no Estado: incapazes de atacar e se confrontar com seus senhores (líderes partidários, governadores, deputados, não importa) a quem servem docilmente, investem com fúria contra os que estão ao lado. É o comportamento clássico de “miar como gatinhos para os poderosos” e “rugir como leões para os que consideram mais fracos”.
Tais práticas e comportamentos são conhecidos: trata-se da velha cultura da autofagia, que divide, fragmenta, enfraquece e impede a revolta contra o opressor e a luta consequente por direitos.
Se as vítimas “querem guerra” deveriam dirigir os seus canhões, arcabuzes, metralhadoras, ou o que seja, exatamente contra os que os torturaram e humilharam, em especial, o responsável maior pela impunidade até aqui, precisamente o Governador Jacques Wagner, contra quem são incapazes de dirigir uma única palavra que seja de cobrança, de fazer uma única manifestação de protesto, preferindo as palavras medidas de reuniões políticas, acordos não explícitos e velados, como o que ocorreu até agora.
Nenhum protesto em face da impunidade até agora se registrou: passados quase dois meses, além de um corregedor adjunto nomeado pela PM (autor da “pérola” de que “tortura e intolerância religiosa não seriam provadas de jeito nenhum porque na Bahia todo mundo é católico, mas gosta de um sambinha”) ninguém, absolutamente ninguém, foi punido, sequer afastado, e não se conhecem outras providências, senão um Inquérito Policial instaurado contra a própria vítima por desacato à autoridade.
A Afropress – veículo lido em todo o Brasil e no mundo, há mais de cinco anos, prestando relevantes serviços a população negra brasileira e a todos os que lutam contra o racismo e por um Brasil com Igualdade e Justiça – não está em questão. Apenas relatou, noticiou, inclusive, ouvindo diretamente a vítima. Exerceu o seu dever de levar informação, livre e independente, sobre fatos de que a sociedade brasileira, igualmente, tem o direito constitucional de ser informada.
Quem está em questão são os seus algozes – os que diretamente atacaram a Mãe de Santo, a prenderam arbitrariamente, a arrastaram pelos cabelos e a lançaram num formigueiro e numa cela masculina – e, indiretamente, os que, responsáveis por essas ações da PM baiana, não cumpriram com o dever de puní-los exemplarmente, como é o caso do Governo do Estado da Bahia.
Pretender dar aos fatos gravíssimos – e as reações e omissões a ele, não menos graves – tons de conspiração política, e fazê-lo a partir do exercício de uma profissão de fé ideológica – tão radical na forma, quanto vazia de conteúdo -, é manobra de quem, usa palavras apenas para tergiversar, não agir, como tem feito, infeliz e lamentavelmente quem ataca este veículo de informação.
Reiteramos: dirijam os seus canhões, arcabuzes, baionetas, a quem os atacou, não a nós, que apenas temos cumprido o nosso papel e o nosso dever de informar.
No episódio, porém, chama a atenção – para além do disparate -, a “presteza” e a “celeridade” com que o Ouvidor da SEPPIR, Humberto Adami, do seu próprio e particular Blackberry, encarregou-se de amplificar os ataques a Afropress, tornando-se deles cúmplices.
Sua atitude – dada a conhecida prática política de “operar” nos bastidores, mesmo nos temas que não poderiam ser necessariamente enquadrados como parte da agenda de um órgão de Governo, com o status de Ministério como a SEPPIR – não nos surpreende: no caso sua “pequena vingança” deve-se a enquete de Afropress em que perguntamos aos leitores quais as razões para que ele próprio e o ministro Elói Ferreira de Araújo, terem permanecido “mudos” nos recentes episódios da invasão das forças de segurança no Rio à Vila Cruzeiro e ao Complexo do Alemão, em que milhares de famílias – na sua maioria negras -, se tornaram alvos dos efeitos colaterais da guerra das forças de segurança com traficantes.
Os resultados das opiniões, como se pode ver (75% dizem ter se tratado de omissão deliberada e 25% de compromisso com Governo), decerto atingiram o ego sensível do Ouvidor.
Há, no entanto, uma pergunta que não quer calar: com tantas denúncias cotidianas de racismo, de humilhações sofridas pela população negra, como é que o Ouvidor da SEPPIR ainda consegue encontrar tempo para se tornar propagador e cúmplice de mensagens raivosas contra um veículo de informação – a quem elogia em privado – e de quem frequentemente se serve para divulgar suas viagens pelo Brasil?
Da nossa parte temos noticiado o episódio da tortura à Mãe de Santo, lançando luz sobre as circunstâncias dos fatos e exigido Justiça – o que incomoda, precisamente, quem gostaria que o mesmo fosse tratado apenas nos bastidores e no lusco-fusco das reuniões nos Palácios.
É o que continuaremos a fazer – mesmo contrariando interesses -, com independência e altivez.