O histórico anti-semitismo europeu e as conseqüências econômicas da derrota na Primeira Grande Guerra (1914-1918) contribuíram para o surgimento de um “caldo de cultura” que foi manipulado para responsabilizar os judeus pelos problemas dos alemães e justificar o confinamento, as violências, o confisco de seus bens e o assassinato em massa daquele povo.
Os democratas só perceberam os sinais quando era tarde demais e a maioria do povo alemão já entregara o poder ao “führer” acreditando que a perseguição e o massacre dos judeus seria a solução dos seus problemas.
O Brasil, nem de longe pode ser comparado à Alemanha pré-nazista. Tanto no caráter do seu povo (na sua formação cultural), como nas condições econômicas, que só têm melhorado desde eleição de Lula, em 2003.
Todavia, o racismo, a xenofobia, a homofobia e diversas outras formas de intolerância e de ódio ao diferente não se alimentam apenas de situações adversas para serem potencializadas e se transformarem em ações violentas, atentatórias à liberdade e aos direitos humanos.
Toda forma de preconceito contra o diferente se baseia na idéia de que o outro é inferior, desqualificado, degenerado e que professa um tipo de pensamento ou fé incompatível com o que se considera correto.
Além de não ser merecedor dos mesmos direitos que os demais. Assim como se deu na Alemanha (ou em qualquer outro país), no Brasil, razões históricas e a interpretação parcial dessa história, fizeram com que um grupo social fosse considerado detentor de um conjunto de qualidades, e outro, de um conjunto de defeitos.
As duas gestões de Lula na Presidência da República e o início do governo Dilma promoveram uma ascensão social inédita na história do Brasil; de aproximadamente 40 milhões de pessoas. Consequência dessa política de inclusão, uma quantidade enorme de famílias negras (principais exemplos do grupo a que se atribuiu uma série de defeitos) passou a frequentar shopping centers, viajar de avião, comprar roupas, eletrodomésticos, automóveis e imóveis, extrapolando os limites até então impostos aos guetos (geográficos, econômicos e culturais) onde se viram por séculos confinados.
Brasileiros de classe média e pele branca que, geração após geração, se habituaram à idéia de que alguns espaços sociais, determinados trabalhos, acesso ao consumo ou produção de cultura eram privilégios seus, começaram a se ressentir por terem seus espaços “invadidos” por indivíduos de uma classe social e um grupo étnico que consideram inferior.
Enquanto na Alemanha da década de 20 e 30 do século passado o inimigo era o judeu, que “roubara os empregos e a riqueza do país”, no Brasil do século 21, o inimigo é o negro que “saiu do seu lugar” e questiona a superioridade branca ombreando-se com estes nas universidades, no trabalho, nos “shoppings”, nos aeroportos.
Ocorre que ao longo da nossa história, as elites construíram o mito da democracia racial, introjetado por esses setores médios, que rejeitam qualquer insinuação de racismo, em que pese praticarem-no diariamente. Assim, evitam manifestar publicamente que seu descontentamento contém uma dimensão racial, somado ao de classe.
É nesse novo quadro social que alguns “humoristas” cumprem o papel de, em nome destes segmentos, verbalizarem todo o seu ódio de classes, de raça, de origem, homofobia e intolerância religiosa. Apresentam-se como transgressores anárquicos que por “não serem politicamente corretos” subverteriam as normas sociais abordando assuntos “tabus” a serem derrubados, a partir de uma suposta independência, liberdade criativa e insubmissão a regras opressivas, criadas para enquadrá-los em um padrão de comportamento moralista e anacrônico.
Felipe Hamachi, Bruninho Mano, Danilo Gentili, Marcelo Marrom, Fábio Rabin e outras criaturas do mesmo nível, que maximizaram e aprofundaram o humor de esgoto de programas como Pânico, CQC, Agora é Tarde e Legionários, embora sejam considerados modernos pelos seus fãs, em verdade apenas reciclam os preconceitos mais arcaicos, reacionários e boçais, construídos ao longo de 2.000 anos de machismo, 350 anos de escravidão, 124 de discriminação. Porta vozes, portanto, da ideologia que insiste em manter um padrão social excludente, elitista, estamental.
Os ditos “humoristas” agregam ainda, aos absurdos e ofensas inaceitáveis, a pratica de crimes ao promoverem a pedofilia, o racismo e o preconceito contra deficientes físicos, nordestinos e a homofobia.
A gravidade da existência deste tipo de “humor” é que ele começa a conquistar cada vez mais espaços. Após o sucesso do seu stand up no Kitsch Club (Onde acertadamente o músico Raphael Lopes chamou a polícia devido às ofensas racistas) os criminosos irão protagonizar “A Tribo”, programa humorístico que estreará em breve no SBT.
E mais, já conquistaram defensores na Academia como o filósofo de extrema direita, Luiz Felipe Pondé que, em entrevista à Folha de São Paulo publicada em 11/04, em torno do seu último livro, reforça e dá verniz erudito ao seu humor chulo.
Argumenta, aquele intelectual, que “o pensamento politicamente correto é uma praga” e considera que existiriam “diferenças naturais de virtudes entre os homens” e ainda que discurso igualitário estaria a serviço do mau caratismo, da preguiça e da nulidade.
Para esse filósofo, alguns poucos seriam mais fortes, mais capazes e melhores, exercendo liderança natural sobre “os médios e medíocres”.
Comecei este artigo citando um filme e termino destacando outro que aborda de maneira exemplar o risco de naturalização da intolerância, do racismo e da negação da humanidade dos grupos mais vulneráveis da sociedade.
Trata-se do filme “A Onda”, em que um professor, como parte de uma experiência pedagógica, cria com os alunos um grupo de orientação fascista. Ao perceber que a experiência havia ido longe demais tentou abortar a experiência, mas já era tarde.
Há que se parar a irresponsável e criminosa experiência fascista dos “humoristas politicamente incorretos”, antes que seja tarde demais.

Ramatis Jacino