O dia 15 de março marcou uma virada na política brasileira: a esquerda e o PT perderam o protagonismo das ruas. Desde o fim do ciclo militar com a campanha das Diretas-Já, a esquerda e o PT, seu principal partido, estiveram à frente de todas as manifestações por reformas e por mudanças no sistema político brasileiro.

A partir de ontem, porém, não estão mais. As ruas passaram a ser monopolizadas pela massa verde e amarela que tomou as principais cidades do país, inclusive, S. Paulo, com a gigantesca manifestação  na Avenida Paulista. Segundo a PM mais de 1 milhão de pessoas; 210 mil, de acordo com o DataFolha.

A manifestação convocada pela CUT, MST e UNE, entidades que integram a base de apoio do Governo Dilma, na sexta-feira (13/03), foi uma tentativa equivocada de medição de forças; mais uma numa sucessão de equívocos.

As manifestações de junho de 2013 já haviam dado o aviso: milhões de pessoas foram às ruas com reivindicações difusas, recusando a presença e participação dos partidos políticos, inclusive dos micro-partidos de esquerda que não integram o condomínio do poder. O sistema político e o PT fizeram ouvidos moucos. O resultado foi o 15 de março.

Equívocos seguidos, abandono das bandeiras históricas a partir da chegada ao Governo em 2002, complacência com a corrupção sistêmica e a suspeita da montagem de esquemas como o "mensalão" e o "petrolão", para manutenção do seu projeto de poder, provocaram o envelhecimento precoce desse partido, o PT, que já representou a esperança de mudanças para milhões de brasileiros.

Reducionismo obtuso

A simplificação e o reducionismo obtuso dos que acham que as multidões que se vestiram de verde e amarelo são naturalmente “de direita”, não apenas nada explica, como serve para justificar que essa esquerda que está no Poder deixou de sê-lo ao abandonar as bandeiras que animaram gerações que deram suas vidas por transformações verdadeiras no país; e transformar o exercício do poder e a chegada ao Palácio do Planalto num balcão de negócios sob o comando do seu líder maior, o ex-presidente Luiz Inácio. Dilma é produto das escolhas de Lula.

Dizer que o povo que vai as ruas (seja ou não de classe média, seja preto, branco, índio ou japonês) é "de direita" é a própria admissão de que, quem se diz de esquerda a partir dessa premissa, deveria se alistar em alguma seita religiosa, ao invés de se pretender um lutador social. Como diz o ditado popular conhecido, "o pior cego é aquele que não quer ver."

Irrelevante discutir os números, cuja discrepância se explica por critérios distintos adotados, como fizeram alguns comentaristas nas redes sociais. O que se viu não foi editado: milhões de pessoas se manifestaram pedindo o fim da corrupção, gritando “Fora Dilma e o PT” e alguns até pedindo a intervenção militar.

Pretender utilizar as viúvas da ditadura e a sua presença entre as milhões de pessoas, para desqualificar a manifestação, é tentar retirar a legitimidade da voz das ruas diante do maior escândalo da corrupção já registrado no país, segundo o procurador-geral Rodrigo Janot.

Dilma aumenta crise

Cada vez que a Presidente Dilma Rousseff fala aumenta o tamanho da crise. Sua fala é oca, desconectada, genérica. Quando fala de corrupção diz que “é uma senhora idosa” e compara alhos com bugalhos como fez na entrevista de hoje para responder aos protestos. Pretender comparar a cultura da corrupção disseminada na população (que suborna um guarda de trânsito, por exemplo, para escapar da multa), com a corrupção sistêmica do Estado, como os casos do "mensalão" e do "petrólão", que representaram verdadeira sangria em recursos públicos pagos pelos contribuintes, acaba por enveredar por um diversionismo que tumultua ainda mais o ambiente.

A Presidente da República deveria ser assertiva e não apenas fazer a condenação genérica dos crimes investigados na Operação Lava-Jato, que envolve dirigentes do seu partido, como o tesoureiro João Vaccari, e mais figurões de cinco partidos de sua base aliada, inclusive os presidentes da Câmara e do Senado, respectivamente, Eduardo Cunha e Renan Calheiros.

Quando diz estar aberta ao diálogo, a pergunta é: com quem? Com que agenda? Quem serão os interlocutores desse diálogo? A presidente estaria disposta a receber os líderes dos protestos de ontem, mesmo se sabendo que a gigantesca manifestação foi convocada pelas redes sociais, sem um comando?

A desconexão da realidade que se observa no Governo e no Partido – que atribui os protestos “a classe média branca e a uma orquestração da burguesia” – também contaminou lideranças negras com intervenção nas redes sociais. Mais de uma delas postou mensagens abaixo de fotos pinçadas das manifestações com a pergunta: “onde estão os negros?”.

Tais setores são reféns da análise desconectada e equivocada do Governo e do PT, que se recusam a enxergar a realidade: esse Governo, após 12 anos, traiu as esperanças de gerações de brasileiros, não avançou nas reformas necessárias, se compôs com o que há de pior na política brasileira, praticou um estelionato eleitoral despudorado para, ao final, jogar o custo do ajuste fiscal (necessário, diga-se pelos erros cometidos no primeiro mandato de Dilma), nas costas da maioria da população e dos trabalhadores.

O sistema político eleitoral e partidário instaurado com a Constituição de 1.988, e o modelo de governança iniciado com FHC e continuado por Lula e Dilma, esgotou-se. Nada tem mais a oferecer ao povo brasileiro. Não há alternativas dentro dele. De nada adianta trocar seis por meia dúzia. A alternância entre PT e PSDB já dura 20 anos e chegou-se a situação surreal em que os dois partidos tem projetos exatamente iguais, a tal ponto de Dilma estar executando o mesmo programa que o seu adversário Aécio Neves defendeu e colocaria em prática se tivesse vencido as eleições.

A única saída é a continuidade das manifestações e a pressão para a Convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte soberana, com ampla participação popular, para fazer as reformas adiadas há séculos. A própria Presidente da República e o Congresso podem convocar a Constituinte, respeitando os espaços e mecanismos institucionais, sem golpes, nem golpismos. Mas, não farão, sem pressão das ruas.

O povo nas ruas também podem fazê-lo por intermédio de um Projeto de Emenda Constitucional (PEC) de iniciativa popular com a coleta dos milhões de assinaturas necessárias.

Por isso, as manifestações precisam continuar, e a verdadeira esquerda brasileira precisa disputá-las com suas propostas, aprendendo a conviver com as diferenças e abandonando de vez o viés autoritário que tem sido a marca registrada de quem continua acreditando que a transformação social se faz com clichês e palavras de ordem, ou atribuindo ser de "direita" quem tem posições políticas diferentes.

Esta é a única saída!

Dojival Vieira