A notícia já nem seria notícia nessa era de um liberalismo, pautado pelo que alguns chamam de “economia de cassino”, onde prevalece a dupla realidade da concentração de uma riqueza obscena nas mãos de uns poucos em detrimento pauperização da grande maioria. Não vou aqui entediar os leitores apontando os múltiplos fatores sobejamente conhecidos dessa triste realidade.
Mas o que chama a atenção na matéria, de apenas três paragrafos, é a foto que a ilustra: a do presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos (JES), acompanhado de um membro do seu staff militar, ilustrada com uma tragicômica frase em negrito onde se lê: “Grupo de empresários portugueses é suspeito de ter feito vendas fictícias para os angolanos. Entre elas estão limpa-neves.”
Não vou e nem tenho a presunção de fazer aqui de advogado de defesa de JES, longe de mim, até porque não disponho de informações sobre o seu envolvimento no caso e tão pouco tenho qualificações técnicas para o fazer. Mas não posso deixar de manifestar aqui o meu repúdio para com esse pobre exemplo de exercício do pior do jornalismo que se faz em Portugal.
Um jornal português, dito de referência, colocar uma foto que aparenta ter sido intencionalmente escolhida (o chefe corrupto protegido pelo militar capanga) do presidente angolano para ilustrar uma notícia de uma investigação de burla, mesmo que ao Estado Angolano, que está na alçada do Ministério Público português é uma declaração sub-repticiamente articulada e sugestiva da conexão entre criminalidade, espaco geográfico de origem e epidermia. Uma imagem que fortalece e perpetua os estereótipos sobre os africanos.
Quem anda no jornalismo, ou por ele se interessa numa perspectiva crítica, sabe muito bem que as notícias não são feitas no vazio, ao acaso. Para o bem ou para o mal elas acabam sempre expressando ideias em defesa de interesses comuns ou particulares, públicos ou privados, ideias algumas vezes baseadas num senso comum de superioridade, seja ela qual for.
No caso da matéria em questão algumas perguntas básicas se impoêm: porquê colocar a foto do presidente angolano? Porque não a do presidente português, o senhor Cavaco Silva, ou a do senhor Basílio Orta, presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal? Ou então as fotos dos máximos representantes das duas instituições bancárias envolvidas, o Banco Nacional de Angola e o luso Banco Espírito Santo?
Ao omitir os nomes dos empresários portugueses envolvidos na alegada burla de 300 milhões de euros, a notícia do DN, feita no pior jeito da velha máxima que diz que “uma imagem vale que mil palavras”, pretende passar apenas a ideia de que os políticos africanos corruptos, retratando JES como exemplo.
Assim se formam e se propagam opiniões para conspurcar e intoxicar a mente e a imaginação de pessoas desprovidas de uma perspectiva de leitura e análise críticas germinando-os de preconceitos ou fortalecendo-os.
Foi-se recentemente Abdias do Nascimento, homem negro, um dos maiores brasileiros de sempre, uma figura de alcance mundial, duas vezes indicado ao Nobel da Paz, e nem uma nota sobre ele foi escrito na imprensa portuguesa dita de referência para a qual, certamente, exemplos de referência raramente parecem existir entre africanos e afrodescendentes.

Alberto Castro