Trata-se de uma massa de cerca de 9,5 milhões de eleitores, população superior a de muitos países e capaz de tomar decisões para mudar os destinos do Estado e influenciar decisivamente nos rumos do país.
Esse monumental poder do voto negro jamais se reuniu, jamais foi reunido, jamais se uniu.
Disperso, o povo negro, desde sempre dividiu esta força entre os vários candidatos às eleições majoritárias e proporcionais – negros ou não – fragmentando-se e deixando de tirar proveito da única arma disponível aos cidadãos numa democracia representativa como a que temos: o voto.
O resultado dessa omissão provocada por muitos fatores, entre os quais, a falta de informação e consciência, e pela influência ainda presente em corações e mentes do mito da democracia racial, é visível: a situação de desvantagem em todos os indicadores – da educação, ao mercado de trabalho; do acesso aos bens de consumo ao direito à visibilidade nos meios de comunicação de massa.
Somos nós, negros e negras, por enquanto, os números que aparecem nas estatísticas e que de tão conhecidos e repetidos, sequer espanto mais provocam. Acadêmicos de vários calibres, dirigentes de ONGS das mais variadas espécies, se comprazem em difundí-los, quase à exaustão numa repetição monocórdica capaz de provocar bocejo em qualquer audiência com alguma informação.
Ocorre que, por trás dos números das estatísticas que, por exemplo, indicam que um negro no Estado de S. Paulo tem mais chances de morrer de morte matada; que é mais vulnerável à morte pela AIDS pelas condições precárias de vida e dificuldades de acesso à informação; e que dos suspeitos mortos pela Polícia de S. Paulo na guerra contra o PCC, 63% eram pretos e pardos, existem pessoas, existe gente.
A dispersão da população negra e, em particular, deste eleitorado, que é uma força capaz de eleger um terço da bancada paulista no Congresso, um terço dos deputados estaduais de S. Paulo e influenciar decisivamente na disputa pelo Governo do Estado reflete, claro, o vazio de lideranças capazes de falar para todos negros e negras independente de partidos, de credo religioso e de posições político-ideológicas.
No dia em que esta consciência for despertada, a história será outra. S. Paulo e o Brasil mudarão radicalmente e o país começará a enfrentar e a desigualdade racial – elemento estruturante da desigualdade social – que nos faz ostentar o título de país campeão em desigualdade do planeta.
Desde a Abolição “para inglês ver” proclamada pela Lei Áurea – uma Lei que ficou no plano formal, incapaz de incorporar milhões de negros e negros aos direitos básicos da cidadania – muitas iniciativas foram tomadas em diferentes épocas, no sentido de construir a unidade do povo negro para a ação política, a principal delas, a Frente Negra Brasileira, dissolvida pelo Estado Novo, em 1.937, justamente pela ameaça que representava aos donos do poder de sempre.
Neste ano de eleições, passada a Copa, mais uma vez a população negra será bombardeada pela máquina bem azeitada da propaganda de candidatos das mais variadas correntes, partidos e vertentes ideológicas.
A partir de S. Paulo, mais especificamente de um Seminário realizado no emblemático e significativo 13 de maio, na Cidade Tiradentes, lideranças negras de S. Paulo lançaram a idéia que começa a ganhar corpo: fazer valer a única arma que nos restou – o voto – e nos organizarmos politicamente para influenciar nestas eleições.
A proposta é a construção de Listas Negras por Estado, reunindo lideranças, independente de credo religioso, posição política e ou filiação partidária. Os candidatos e candidatas negros comprometidos com a Causa assumirão compromissos, por exemplo, com a adoção de ações afirmativas em todas as áreas, não apenas no acesso à Educação, e que apontem para a urgência de um Brasil Afirmativo e com o enfrentamento efetivo da desigualdade racial.
Passadas as eleições o mesmo Comitê se transformará em um Comitê de Fiscalização dos mandatos eleitos pela Lista, cuidando para que os compromissos assumidos em favor da população negra sejam efetivamente cumpridos. Desta forma, estaremos dando um passo – pequeno, mas um passo – na direção de um país mais justo e com igualdade de oportunidades para todos, independente da cor da pele de cada um.
A força do voto negro pode mudar o Brasil!